segunda-feira, 14 de julho de 2014

Panis e futebolensis

Por um período, o mundo, em geral, e o Brasil, especificamente, relegaram problemas a segundo plano para dar enfoque no futebol.

Seduzidos pela mídias, os brasileiros acompanhavam um quase reality show dos jogadores. Plantões direto do hotel informavam se dormiam, comiam, treinavam. O que comiam, o que bebiam, o que treinavam. E o que pensavam, por incrível que pareça.

Numa dessas noites, zappeando pelos canais brasileiros e já cheio de tanto futebol, parei na CNN para ver o que acontecia pelo resto do mundo: crise no Iraque, crise no Oriente Médio, expulsão do chefe da CIA na Alemanha. Mas, nos canais locais, tudo o que se falava era sobre a seleção e seu caminho à glória do hexacampeonato.

Não basta ser um megaevento, de megaobras, de uma entidade mega-autoritária. Tinha de ser também um fato arrebatador, daqueles que põem o país nas ruas para torcer e celebrar.

Notícias? Uma cos canais mais importantes do Brasil relegou a segundo plano a queda de uma obra (com vítimas fatais). Outro canal, o mais assistido, dedicou mais de 90% de seu tempo ao futebol e seus arredores.

O povo, quando seu ídolo se machucou, se mobilizou. Ofendeu o “agressor”, defendeu linchamentos e estupros, preencheu a blogosfera de palavras de ordem. Tal não se viu contra os corruptos, os corruptores, ou contra aqueles que se apropriam do bem público.

Não, em época de copa só importam os gols perdidos e os tomados. Os heróis se forjam nessas circunstâncias, e também são postos na berlinda com direito ao apedrejamento virtual.

Aqueles que eram inquestionáveis passaram os vilões, como se nunca tivessem sido outra coisa.

Tenho medo do que aprontaram nessa copa aqueles que se locupletam enquanto não há ninguém olhando. Por exemplo, quem viajou nas asas da FAB? Talvez a imprensa não saiba, pois estava ocupada com outras coisas.Em que projetos estavam nossos políticos? Em projetos futebolísticos, talvez um megatelevisor.

Mas os problemas (os  normais) não se preocuparam com a Copa do Mundo. Continuam lá os assassinatos, os roubos, os furtos. As filas de hospitais não diminuíram (talvez tenham aumentado). As escolas não se construíram, os hospitais não se aparelharam. Mas o assunto do dia é o chinelo do Maradona…

Que país, o nosso…!!!

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Medo dos que têm certeza…

Uma das maiores barreiras na comunicação é a certeza. Aqueles que têm certeza têm também o comportamento típico daqueles que têm o poder. Pelo bem e pelo mal.

Dessa forma, quando estabelecemos – ou tentamos estabelecer – uma comunicação com o detentor de uma ou mais certezas, cedo ou tarde colidiremos com o muro da verdade. Aquelas verdades absolutas, que não admitem controvérsia ou contestação. Aquelas certezas que embora sem fundamento, se impõem aos fatos. E não permitem a presença da racionalidade. A triste certeza das convicções.

É assim a verdade que envolve religiões, esportes, ideologias políticas. E, em microambiente, são as certezas que envolvem o relacionamento das pessoas. Aqui, percepções e suspeitas ganham ares de postulados, de ciência provada e comprovada. Traições, sentimentos, intenções, tudo se traduz em certezas. E, como tal, incontestáveis.

Os que têm certeza não se permitem reavaliar suas posições. Não se permitem admitir uma hipótese contrária à sua própria convicção. São, portanto, os que têm a Terra como centro do universo, até que a morte os leve.

Não discutem racionalmente, não analisam os fatos, apaixonam-se pelo próprio apego ao que considera verdade. Não erram nunca, portanto nunca aprendem nada. Mas apreendem parte do universo para comprovar seu credo.

Os que têm certeza matam o diálogo, inibem o contraditório, subjugam a arte de conjugar ideias em prol de evolui-las.

As verdades, imutáveis que são, passam a ser muitas e diversas em torno de um único aspecto, encerrando os que as detêm na caverna platoniana das sombras da vida.

Prefiro a companhia dos inseguros, que se permitem avaliar e reavaliar suas próprias certezas. Estes são os mais maleáveis, os mais palatáveis, os mais abertos ao crescimento pessoal. São os que regam as ideias, aparam os excessos e ajustam sua percepção de vida.

Tenho certeza disso.