quarta-feira, 4 de junho de 2014

Sheherazadeando…

Tempos difíceis, em que as palavras são torcidas e torturadas, até que digam o que queremos ouvir…

Qual foi mesmo o problema da declaração de Raquel Sheherazade? Ela disse que “é até compreensível a atitude dos vingadores” naquele caso  do marginal amarrado ao poste. Foi linchada pela imprensa e pelas mídias sociais.

Vejamos: um “menor” comete crimes sabendo que, por causa dessa condição, terá nenhuma ou poucas consequências, e que logo voltará às ruas. E, pior, esse crime não se restringe aos pequenos: chega ao assassinato, com tantas agravantes quantas forrem possíveis. E é solto ou da delegacia, ou da ex-FEBEM, hoje Fundação Casa… livre para voltar ao crime.

O magistrado é solto por causa da idade. Ou se livra porque o tempo, que tudo conserta, aliou-se à lei e determinou que ele não mais merecia punição.

O ex-diretor de estatal é solto no mais puro exemplo do que é “matar a vaca para matar o carrapato”. O juiz mandou soltar cem, depois mandou não soltar noventa e nove…

O tribunal que condenou se renova, e de novos ares perdoa o crime que recentemente propôs punir…

O partido que apoia a criação de uma CPI contra a petrolífera não quer uma que apure os trens. E um e outro se revezam com os argumentos e contra-argumentos, aparentemente não percebendo a própria bipolaridade…

Aquele que recebe dinheiro diz que não sabia… O que não sabia nem conhecia…

Em tempos de futebol no quintal, “o que tinha que ser roubado já foi roubado”…

Velhos inimigos se abraçam, fraterna e amigavelmente, mostrando que amizade tem preço…

Jornalistas e comentaristas esbravejam contra juízes que cumprem (estritamente) a lei em um caso, enquanto criticam desarvorados outros juízes que não obedecem à lei…

Sim, preciso concordar com a jornalista. Compreendo o que leva as pessoas a desabafarem pelos punhos e pés quando um desses coitados é pego de jeito. É a representação daqueles que, arma em punho, nos sequestram, nos matam, nos roubam os bens conseguidos com esforço. É aquele momento em que o pensamento já não existe, mas aquele sentimento que leva o animal (que somos) a reagir, sem outra opção, pois que, de pouco em pouco, ou de uma vez, nos levam os bens ou a vida.

Sem segurança, sem justiça, sem aplicação de leis, e sem representantes de fato, quem é que está realmente seguro? Ou protegido? Ou devidamente representado?

Pode ser que tenha me juntado à Raquel Sherazade somente porque fui assaltado recentemente. Talvez. Mas os que passaram pela experiência que digam o sentimento que nos invade quando um outro ser humano, de arma em punho, nos obriga à entrega de bens pessoais em troca de não morrer? E, pior, no momento da entrega, em que nunca sabemos se essa troca realmente vai se dar?

É o país dos “de menor”, dos doleiros, dos lobistas, dos amigos da corte, dos governantes vazios de ação mas cheios de oratória, dos que condenamos sem nunca julgar…

Sim, sou um dos que acha “compreensível”. Estou incitando à violência? Não, não estou. Estou somente dizendo que estamos voltando àquela era em que a segurança era nossa primeira necessidade, aquela coisa básica lá do tal de Maslow…

Quem nunca sofreu uma violência sem ter achado compreensível que atire a primeira pedra… Ops, não no bandido, senão…

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