terça-feira, 10 de junho de 2014

A insustentável irracionalidade do ser

Em política, somos torcedores. Errado dizer que somos eleitores, porque quem elege utiliza o voto. Mas o brasileiro usa a paixão, poucas vezes a emoção.

Paixão pelo politico, pelo partido ou pelo Bolsa-Esmola, tanto faz (esclarecendo que aqui, não cabe distinção: o PSDB reclama a paternidade, o PT reclama a criação).

O fato é que, nas discussões políticas, mesmo mais que nas de futebol ou religião, imperam as opiniões a priori. Quem votou em fulano o defende à morte. Mesmo se esse fulano foi apanhado com moda sonante na roupa íntima (vulgarmente chamado de dinheiro na cueca).

Então, o torcedor-eleitor distorce a realidade, ignora fatos, cria factóides, se revolta contra quem “torce” para o outro lado

Mas que outro lado, há que se perguntar?

Precisamos lembrar que a democracia, salvo alterações sobre as quais não recebi memorando algum, é aquilo “do povo, pelo povo, para o povo”… Piegas e mentiroso…

O governador que elegemos instiga, por ação ou omissão, as tropas sobre manifestantes pacíficos? E daí, e o seu candidato que mentiu? O membro do partido desviou recursos? E daí, e o seu candidato que viajou de avião?

Enfim, deixamos de avaliar cada caso e cada situação, como se fôssemos pau (que nasce torto) e não pudéssemos mudar nosso voto.

Nunca antes nesse país… as avaliações foram tão insensatas. Ministros, deputados, senadores, políticos sem cargos eletivos, amigos de políticos, familiares de políticos, todos se locupletando, e com milhares nas ruas e pelo ciberespaço defendendo cada ato, cada descalabro, cada discurso enviesado…

Costumo dizer que a ditadura, com meus milhões de defeitos, criou obras primas artística em uníssono contra a violência ao cidadão. Depois de finda a ditadura, nunca mais um Cálice ou um Clube de Esquina. Mas Seguramos o Tchan, lamentamos Ai, Ai, Ai, se eu te pego e gingamos leque, leque, leque…

Contribuímos com meses de salário (ou ganhos pessoais) para que nossos representantes façam o básico: representar-nos. Mas parece que nos interessamos somente por viagens; não queremos novas leis; estamos satisfeitos com os menores que roubam e matam impunemente; não precisamos de hospitais; tornamos-nos todos autodidatas; e não precisamos de segurança alguma, pois todos têm alma pura e bondade em seus corações.

Precisamos é tirar as vendas partidárias e exercer a criticidade em relação àqueles que elegemos. Precisamos é cobrar e agir, para que a cobrança se concretize e se transforme em realidades desejadas. Precisamos deixar de tratar política como time de futebol.

Porque, ao que se sabe, as ações propaladas como estando “no limite da irresponsabilidade” se perpetuam, mesmo sem a confissão cândida do político ingênuo…

Precisamos debater, sem discutir e sem paixões, nossos caminhos. Porque estamos deixando aos nossos filhos e netos somente uma herança de usurpação. Logo, enriquemos os defendidos enquanto tiramos, paulatinamente, o futuro das próximas gerações.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Sheherazadeando…

Tempos difíceis, em que as palavras são torcidas e torturadas, até que digam o que queremos ouvir…

Qual foi mesmo o problema da declaração de Raquel Sheherazade? Ela disse que “é até compreensível a atitude dos vingadores” naquele caso  do marginal amarrado ao poste. Foi linchada pela imprensa e pelas mídias sociais.

Vejamos: um “menor” comete crimes sabendo que, por causa dessa condição, terá nenhuma ou poucas consequências, e que logo voltará às ruas. E, pior, esse crime não se restringe aos pequenos: chega ao assassinato, com tantas agravantes quantas forrem possíveis. E é solto ou da delegacia, ou da ex-FEBEM, hoje Fundação Casa… livre para voltar ao crime.

O magistrado é solto por causa da idade. Ou se livra porque o tempo, que tudo conserta, aliou-se à lei e determinou que ele não mais merecia punição.

O ex-diretor de estatal é solto no mais puro exemplo do que é “matar a vaca para matar o carrapato”. O juiz mandou soltar cem, depois mandou não soltar noventa e nove…

O tribunal que condenou se renova, e de novos ares perdoa o crime que recentemente propôs punir…

O partido que apoia a criação de uma CPI contra a petrolífera não quer uma que apure os trens. E um e outro se revezam com os argumentos e contra-argumentos, aparentemente não percebendo a própria bipolaridade…

Aquele que recebe dinheiro diz que não sabia… O que não sabia nem conhecia…

Em tempos de futebol no quintal, “o que tinha que ser roubado já foi roubado”…

Velhos inimigos se abraçam, fraterna e amigavelmente, mostrando que amizade tem preço…

Jornalistas e comentaristas esbravejam contra juízes que cumprem (estritamente) a lei em um caso, enquanto criticam desarvorados outros juízes que não obedecem à lei…

Sim, preciso concordar com a jornalista. Compreendo o que leva as pessoas a desabafarem pelos punhos e pés quando um desses coitados é pego de jeito. É a representação daqueles que, arma em punho, nos sequestram, nos matam, nos roubam os bens conseguidos com esforço. É aquele momento em que o pensamento já não existe, mas aquele sentimento que leva o animal (que somos) a reagir, sem outra opção, pois que, de pouco em pouco, ou de uma vez, nos levam os bens ou a vida.

Sem segurança, sem justiça, sem aplicação de leis, e sem representantes de fato, quem é que está realmente seguro? Ou protegido? Ou devidamente representado?

Pode ser que tenha me juntado à Raquel Sherazade somente porque fui assaltado recentemente. Talvez. Mas os que passaram pela experiência que digam o sentimento que nos invade quando um outro ser humano, de arma em punho, nos obriga à entrega de bens pessoais em troca de não morrer? E, pior, no momento da entrega, em que nunca sabemos se essa troca realmente vai se dar?

É o país dos “de menor”, dos doleiros, dos lobistas, dos amigos da corte, dos governantes vazios de ação mas cheios de oratória, dos que condenamos sem nunca julgar…

Sim, sou um dos que acha “compreensível”. Estou incitando à violência? Não, não estou. Estou somente dizendo que estamos voltando àquela era em que a segurança era nossa primeira necessidade, aquela coisa básica lá do tal de Maslow…

Quem nunca sofreu uma violência sem ter achado compreensível que atire a primeira pedra… Ops, não no bandido, senão…