quarta-feira, 14 de maio de 2014

Manual do amigo que quero ser

Como amigo, devemos ser sinceros. Assim, não espere que eu lhe conte mentiras diplomáticas. Acho que assim não o ajudo. Então, uso a verdade. Procuro usar a verdade de maneira gentil, sem deixar que ela ofenda, por mais agressiva que seja. Mas espere sempre a verdade. Mesmo que isto custe nossa amizade.

Sou um amigo de poucas palavras. Somente as necessárias. E sem floreios. Sem rodeios. A não ser que seja para conversar. Aí, não tenho limites. Falamos de tudo, e de todos. Mas não espere de mim paixão. Ao menos aquela paixão de torcedor, de acólito, de sabedor.

Todas as minhas opiniões estão sujeitas a revisão. Nem por isto, erradas. E, também nem por isto, certas.

Não imponho minha amizade, assim como não imponho ajuda. Amizade é bom, mas deve ser desejada, nunca imposta. Acredite em mim, por que eu acreditarei em você quando você me disser que não precisa de ajuda. Respeito sua solidão, respeito seus desejos. Respeito até mesmo seu desrespeito. Mas não espere que eu invada seu espaço, mesmo que seja para ajudar. Se precisar, peça.

Se somos amigos, é porque respeito sua opinião. Assim, não hesite em me oferecê-la. Mas, lembre-se: nossas opiniões podem não ser iguais. Nem mesmo semelhantes. Assim como nossas verdades, que, afinal, determinam essas opiniões. Ou são por elas determinadas, sei lá. Mas, enfim, que, amigos que somos, possamos conviver com nossas diferenças, que é o que faz grande nossa amizade.

Espero que mantenhamos contato. De minha parte, aguarde uns telefonemas, mais telegráficos, de alguns segundos, apenas, e saiba que ele é para dizer que estou vivo e bem, e para saber se você está vivo e bem. Pressa? Talvez, nossa vida não está fácil. Mas um segundinho para falar com os amigos, isto sempre podemos arranjar.

Às vezes esquecerei seu aniversário. Mas no máximo uma vez por ano. Não quer dizer que esqueci de você. E sei que você também não se esqueceu de mim. E, se esqueceu, tudo bem: talvez eu não tenha merecido ser lembrado. Por isto, permita que eu o lembre de mim.

Coisas tristes, muitas vezes não falarei delas. Coisas alegres, talvez fale até demais. Por isto, quando nos encontrarmos, depois de um longo tempo, perdoe-me se fico falando de tempos idos, de lembranças adormecidas, dos bons momentos. Mesmo que eu fale muito disto. É porque isto nos fez amigos. Merece lembrança.

Não se incomode se eu ficar olhando muito para você. As marcas do tempo estão em todos nós, e precisamos guardar essa imagem do “eu” atual. Assim, não o olharei por espantado com sua aparência. É para atualizar sua imagem, para ficar mais fácil reconhecer você da próxima vez. E eu saberei que você não estará olhando para minhas cãs, já tantas.

Perdoe, assim, se a vida nos reservou algo diferente daquilo que projetamos. A vida é assim, e talvez para todos ela seja uma surpresa. Mas, surpresa ou não, os rumos da vida não podem mudar uma coisa: nossa amizade, se assim quisermos. E, conclamo, não deixemos que a vida determine o grau de nossa amizade, o tamanho de nosso apreço. Com tantas variáveis incontroláveis nesta vida, a amizade pode ser uma âncora.Façamos dela essa fortaleza.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Dos infanticídios…

Quando minha filha nasceu, as imagens se gravaram tão indelevelmente que mesmo após minha extinção estarão lá. Um bebê, com olhinhos preguiçosos e desacostumados à luz, tentavam firmar-se em algo. Gosto de acreditar que eles procuravam aquele que lhes falava desde cedo, ainda no aconchego da barriga da mãe.

Uma pessoa me disse logo após, ao saber de minha grande felicidade, que eu nunca mais dormiria sem nela pensar. Dito e feito.

Eu a embalava sob o som de músicas inventadas. E falava com ela como se fosse gente grande, o que me custou muitas e muitas críticas.

Nunca, em nenhum momento,quis senão o seu bem. A ponto de me dar por uma noite, como nas ocasiões em que a cólica atacava, e eu, entre dormente e vigilante, massageava suas costas sobre minha barrida. Por horas e horas…

Enquanto crescia, pouca coisa mudava em minha determinação em protegê-la. Como ela não pediu para estar aqui, desdobrava-me em cuidados, sempre cuidando para não exagerar (concluo que nisto não tive sucesso: me excedi em cuidados).

Hoje, se ela precisa de um coração, dou o meu Pulmão, rim, fígado… Enfim, minha vida pela dela. Ela, uma amiga fiel e companheira de diversos momentos, ultrapassa a tudo quanto possa almejar num relacionamento com uma filha/filho.

Portanto, não posso compreender como um pai/mãe, mesmo um padrasto/madrasta conseguem sequer imaginar a morte de uma criança. A morte! Eu, que a cada resfriado me via em preocupações mil com minha criança, não posso compreender tal falta de afeição.

Ok, minha filha, minha carne. Seria, então, compreensível com enteados? Não posso acreditar. O ser humano não foi munido com tal egoísmo, ao menos não após algumas centenas de anos de civilização.

Mas a realidade, por menos que a aceitemos, é cruel. Ainda há aqueles que valorizam demais a si mesmos, em detrimento de qualquer outra coisa. E, neste mundo financeiro, qualquer empecilho, qualquer um, é somente um mero empecilho.

O que será que anda errado com essas pessoas dos infanticídios? Talvez o egoísmo lhes tenha impedido de viver a mais maravilhosa e completa experiência: a de amar as crianças. E os filhos.

Ainda bem que dessa água não beberei.