quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A função “esposa” do meu GPS

Você está acima do limite de velocidade.

O grifo é dela, já que tem uma forte reprovação no tom de voz, e, ao falar “acima”, acentua com um olhar característico das broncas uxórias.

Meu GPS automotivo tem voz feminina. Já teve vários nomes, mas me fixei em Sheila depois de assistir a este vídeo. Sheila, portanto!

Ela não conversa, não responde, não puxa assunto… só abre a boca quando estou acima da velocidade ou quando me aproximo de radares. Alguns, imaginários. Outros, concretos, ela não reporta. Talvez porque nem faça mais diferença.

Às vezes, ela me alerta sobre caminhos errados. Ora, o que sabe ela de caminhos? Por diversos chego aos meus destinos. Mas ela parece ter somente um, o que não nos ajuda quando o trânsito empaca feito mula. Feito A Sheila…

Aliás, quando mudo de caminho (intencionalmente, sempre), ela avisa incontinenti:

Recalculando rota…

E sou capaz de jurar que complementa, entre dentes e sussurrado:

Não pergunta e nem me obedece

Enfim, são coisas como essas que me fazem ativar ou desativar o que eu chamo de “função esposa” do meu GPS. Juro que nos alertas dela há sempre o tom de reprovação resignada, a condescendência para com o pobre coitado que nem se orientar direito sabe. Sua falta de assunto se concretiza na idéia (é, sou contra a reforma) fixa da velocidade e caminho. Já nem abro mais a porta para ela, e já a traí, preciso confessar. Outras vozes foram tentadas, mesmo de outras nacionalidades, resultando numa volta quase envergonhada àquela com a qual já estou acostumado.

Mas essa “função esposa” precisa evoluir. Sonho com o dia em que eu fale “rua Tal, número tal”, e ela já programe o caminho, sem que eu precise tocá-la, o que é perigoso no trânsito. Também sonho com o dia em que ela mostre flexibilidade, em caso de eu precisar ir a algum lugar, mas precisar passar por outro antes. “Sheila, preciso ir ao Shopping, mas primeiro preciso passar no açougue”. Mas, não! É muito. O processador da Sheila, aqui chamado de Rico e Reco, não deve estar preparado para tanta modernidade. Já pensei em trocá-la por uma bem mais nova, mas conclui que não tenho condições financeiras para isso. Deve ser disso que reclamam aqueles recém divorciados: as pobres finanças depois da separação.

Enfim, já que não há possibilidade de divórcio, vou dirigindo pelas ruas, ouvindo as reclamações sobre velocidade e roteiro,  negando ora com as mãos, ora com a cabeça, discutindo sem resposta com a Sheila e jurando que ela um dia há de falar:

Recalculando rota… seu burro, errou de novo

Coisa de um casamento feliz!

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