sábado, 17 de agosto de 2013

Compras insensatas: A Apple e seus produtos

Na década de 70, o mercado de informática se debatia com o conceito de solução proprietária, em que os insumos destinados à manutenção do equipamento dependiam do fornecimento exclusivo do fornecedor original. Assim, equipamentos IBM, por exemplo, somente aceitavam pentes de memória da IBM, o que tornava o TCO (total cost of ownership) alto demais. A COMPAQ, fundada no início dos anos 80, baseou sua estratégia na convergência da compatibilidade entre os diversos fabricantes de equipamentos, liderando uma série de consórcios destinados a atividades de padronização. Até mesmo seu nome carregava esse direcionamento: COMPAQ: COMPAtibilidade e Qualidade. E essa estratégia refletia o desejo da maioria do mercado consumidor, principalmente o mercado corporativo.

A expansão da COMPAQ levou ao consumidor final o conceito a padronização: qualquer um que adquirisse os equipamentos poderia adquirir insumos de qualquer outro fabricante, pois já estava garantida a compatibilidade.

E assim o mercado foi evoluindo, colocando para escanteio as marcas que insistiam nas soluções proprietárias, fazendo com que elas, cedo ou tarde, migrassem para o novo modelo demandado.

Até que… a Apple ressurgiu das cinzas. Na segunda investidura de Jobs, a Apple se reinventou e relançou seus produtos e inovações, tendo inicialmente apelo mais como fetiche do que como produto. Mas o fetiche era forte, e no lançamento do Ipod houve o “sequestro do emocional”, como diria Daniel Goleman no seu Inteligência Emocional. O desejo pelo produto inovador não permitiu ao comprador avaliar alguns problemas que poderiam surgir, e o sucesso voltou às mesas da Apple. No lançamento do Iphone, o fetiche aumentou, e a razão foi cada vez mais se distanciando do processo de decisão da compra, fenômeno que se repita a cada relançamento do Iphone ou do Ipad.

No entanto, o que a Apple fez foi, através de soluções proprietárias, aprisionar o cliente em sua teia de produtos. Não se colocam músicas nos equipamentos móveis sem passar pelo iTunes. Não se adquirem aplicativos sem que seja pela App Store. Os aplicativos de “inimigos” ou concorrentes da Apple sofrem discriminação na oferta, como se viu com o Google Maps, que todos usavam e a Apple baniu autoritariamente pelo seu próprio (num vexame, que resultou na demissão de um executivo por falhas no produto).

Há relatos em grande número sobre o botão iniciar do Iphone: simplesmente não funciona. Os Ipods sofrem de oxidação interna que inviabilizam sua utilização. As telas do Iphone, de vidro, quebram com uma facilidade absurda. E, como o conserto é exclusivo com peças Apple, em política de concessionária de automóveis, os preços são absurdamente altos. Os insumos em que há possibilidade de fabricação “alternativa”  mostram a distância de valores: um cabo de comunicação custa  no mercado alternativo um quinto do preço do oficial. Mas funciona com a mesma qualidade.

Voltamos, portanto, à era da solução proprietária. Mesmo grandes empresas, iludidas pelo fetiche do produto/marca já distribuem Ipads a seus executivos. Mesmo que esses equipamentos não tenham entrada USB (padrão e mercado) para conexão a outros equipamentos; mesmo que seu Bluetooth (padrão de mercado) só permita ligações (completas) com outros equipamentos Apple; mesmo que não se consiga portar documentos sem passar por um App obtido na App Store.

Na medida em que outros fornecedores copiem as inovações da Apple e as aperfeiçoem, o fetiche tende a diminuir. E a razão deve voltar a imperar. Até lá, nosso destino é assistir essa escravidão autoimposta.

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