terça-feira, 6 de agosto de 2013

Carandiru: eu confesso!

É errado, eu sei. É politicamente incorreto, eu sei. É moralmente indefensável, também sei. Mas eu não consigo reprimir o sentimento sobre o assunto.

Nosso dia a dia é repleto de medos. Que vão desde coisas  bobas, como a possibilidade de o elevador em que estamos despencar no fosso, como coisas tristemente concretas, como ser assaltados – e mortos – por assaltantes.

Os recentes exemplos de latrocínios justificam esse medo. Assassinos que não têm justificativa para o ato – claro, não se justifica um assassinato – atiram sem dó. Onde querem e tantas vezes quantas sejam necessárias para garantir a morte. Não tem horário, não têm lugar; matam democraticamente crianças, adultos ou idosos. Os que reagem e os que não reagem. O que entregam  seus bens e os que não entregam. Enfim: não basta roubar. O assassinato está fazendo parte do “protocolo do assalto”.

A nós, as vítimas, resta chorar nossos mortos e temer nosso futuro. Nosso e dos que nos são caros. Pois muitas vezes esses assassinos permanecem para sempre indeterminados. Portanto, impunes. Outras vezes, apostam nisso somente: a impunidade. E, meses após sua efêmera prisão, voltam às ruas para mais da mesma maldade. E nossos familiares, amigos poderão jazer, em alguma rua escura ou calçada iluminadíssima vítimas dessa insanidade.

Aqueles que poderiam e deveriam nos proteger não o fazem, seja por limitações inerentes, seja por incapacidade muitas vezes consciente. A lei não ajuda nossos policiais, e nossos policiais não respeitam muito as leis.

Enquanto isso, às dezenas por dia, caímos, e nosso sangue colore tristemente a paisagem da impunidade.

Por isso, não consigo, no âmago do meu ser, declarar que reprovo a ação dos policiais do massacre do Carandiru. Tento reprimir o sentimento ruim de achar que o assassinato de 111 bandidos é justificável. Mas não consigo. Confesso que o massacre me leva a experimentar um sentimento de vingança que não condiz com meus credos pessoais. Mas eu não consigo deixar de  saborear a ideia de que ali, naquele momento, ao menos um dos bandidos tenha experimentado a mesma sensação que infligiram a outrem. Quero acreditar que seus últimos momentos foram em agonia, iguais aos de suas vítimas, acuados, subjugados e humilhados, usurpados de sua humanidade pela falta de capacidade de reação.

Sei que é uma generalização absurda. Sei que ali havia alguns cujos crimes eram de menor potencial ofensivo. Mas não consigo deixar de iconificá-los pela óbvia comparação: eram os bandidos! Nós, escondidos em nossa casa, ou pelas ruas, esperando não ter o azar de cruzar com algum desses facínoras, estamos indefesos perante eles. Escalam prédios, invadem restaurantes, atiram na cabeça. Mas quando é contra eles a bandeira dos direitos humanos é brandida com veemência. Não, os direitos são HUMANOS. Essas pessoas que nos retiram a vida, a nossa e dos nossos, deixaram de ser humanos. Passaram a ser somente os animais, dificilmente racionais, que atiram para matar sem motivos.

A punição do criminoso é um poder-dever do estado. O direito de vingança só é dado ao estado, que tem o dever de punir segundo as regras legais. Não o faz. E, em o fazendo, limita-se pela lei, indevida e insuficiente, incapaz de acompanhar a progressão da maldade.

Por isso, confesso: foi uma fugaz vingança. Talvez injusta, com certeza ilegal. Foi imoral, talvez somente amoral. Mas foi uma das poucas vezes em que o mal sentiu um pouco do seu próprio veneno.

Droga, como foi difícil admitir isso! Talvez o problema seja eu!

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