terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O poder da diferença

Da discussão nasce a luz.

Ptolomeu

 

No campo pessoal, tendemos a procurar pessoa que têm afinidades conosco. Gostar das mesmas coisas, partilhar um esporte, preferir uma bebida, sempre são pontos de partida para uma amizade. E, para casar, dizem, essas afinidades são essenciais.

Na vida profissional, as pessoas tentam se aproximar de pessoas com as quais também tenham afinidades. Mas como não se pode sempre escolher um colega de trabalho, as pessoas com diferentes opiniões se aturam, na medida em que necessitam, ao menos, manter as aparências na empresa.

Há um ditado que diz que “religião e futebol não se discute”, referindo-se, claro, àqueles que torcem por times diferentes ou que têm fé em religiões diferentes.

O fato, triste, convenhamos, é que a falta de contato com a diferença nos fez perder, ao longo do tempo, a habilidade e disposição para argumentar na discordância. A discordância evoca imagens de confronto, enfrentamento, discussão acalorada. É o início do conflito, parece ser como é percebida a discordância.

O fato é que a diferença é a base da evolução de nossos conceitos. Sem expor os porquês, não temos acesso ao seu contraditório, sem o que nosso posicionamento depende apenas da posição cartesiana da dúvida sistemática para evoluir. Posição essa que nem todos têm vontade e talento para exercer.

Lembro-me de uma dinâmica de grupo em que um grupo tinha de defender uma ideia e o outro atacá-la. O tema era o aborto. Os grupos eram escolhidos pelo posicionamento em relação ao tema. Depois de uma grande discussão, onde os grupos ativamente defendiam sua posição real, os grupos recebiam o comando de inverter a posição. Quem defendia passava a atacar, e vice-versa. O objetivo era fazer com que o indivíduo pudesse mentalizar uma possível explicação e argumentar com base nela, mas na posição contrária à que acreditava. Embora polêmico, na hora da virada todos assumiram seu novo papel e puseram-se a argumentar. Menos uma pessoa, que afirmou que nunca defenderia a posição contrária, e retirou-se.

A cena foi muito forte e ajudou o grupo a entender a dinâmica proposta. A pessoa que se retirou se negou permissão para sequer pensar nos argumentos da outra parte. E, com isso, nem discussão houve. Exploramos, os sobreviventes, ao máximo essa ideia. Tentar entender o “diferente” para que possamos somar, em vez de negar oportunidade ao entendimento.

Estamos acostumados a viver, isolados, cada qual a sua tese. Não permitimos mais a antítese, entendemo-la como insulto. Nesse contexto, como se esperar que novas e mais sólidas teses surjam?

Abdicamos da discussão saudável. Gritamos nossas razões, seja pela internet, seja pela nossa omissão, seja pela ação exacerbada. E esse grito é tão estridente que nos impede de ouvir outras razões. E o outro lado, nessa gritaria, se vê obrigado a também gritar, tentando ser ouvido. Como resultado, todos gritando e ninguém se entendendo.

Política, futebol, religião: tudo isso é feito por grupos diferentes. Que se negam a ouvir um ao outro, e na verdade nenhum desses grupos está preocupado em se fazer ouvir, na sua necessidade de se impor. E vai daí que vivemos nesse mundo de surdos que não querem ouvir, gritando nossas próprias verdades esperando que todas as ouçam.

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