segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Em 2014…

Analisando em retrospectiva nossa trajetória, alinhamos alguns dos desejos para 2014... e tomamos nossas resoluções conforme esses desejos.

Que em 2014 nos encontremos com aqueles amigos de há muito, com quem pouco falamos. Mas, desse pouco, muito de saudade, muito de respeito e muito de interesse. Essas pessoas que nos mandam mensagens, que nos convidam para lugares que sabem que não vamos (normalmente porque não podemos), que nos provocam com pequenas presenças... mas que estão presentes. Em ação, intenção, ou pro desejo. Essas são pessoas de que precisamos, pessoas cuja presença queremos, pessoas essenciais, mesmo que etéreas. São os amigos de sempre e para sempre, aqueles encravados em nossos sentimentos. Encontremos-nos, portanto.

E que em 2014 nos livremos daquelas pessoas que se passam por amigos, na esperança de conseguir vantagens de algum tipo. Provavelmente sempre conseguem, mas não sabem que suas intenções não são invisíveis, ao contrário. São pessoas que não pensam no que têm a dar, somente no que têm a receber. Pessoas que exigem amizade incondicional, e só podem oferecer exigências. São pessoas não disponíveis, exceto na necessidade. São aquelas pessoas que se enganam mais do que nos enganam, e são as que mais sofrem com a “amizade” superficial a eles dispensada. Mas o superficial é pouco, não cria laços, não gera emoção nem comoção. Portanto, podemos nos livrar dessas pessoas. Livremos-nos, portanto.

E que em 2014 encontremos pessoas. Pessoas que são dignas de figurar entre nossos amigos. E para quem nos tornemos, também dignos de amizade. Que não nos recusemos a enxergar, em cada um, o (bom) potencial que todos têm. E que essa seja a visão, a primeira impressão. E que seja nosso paradigma dessas pessoas, a quem não deixaremos fraquejar. Amizade é um esforço conjunto. Façamos, portanto, nossa parte, para esperar o melhor de todos e de cada um.

E que em 2014 não encontremos pessoas que não mereçam nossa amizade. Se pensarmos a respeito, é até fácil. É uma questão de decisão. E que incumbe a cada um de nós. Se acharmos que cada um merece, então não desistiremos tão fácil. Dimensionaremos nossa paciência, nossa atenção, nosso esforço de maneira diferente. Será muito maior que aquele dirigido a pessoas classificadas como “não merecedoras”. Sim, é preciso uma alta dose de investimento pessoal. Mas será a medida daquele que gostaríamos de encontrar naquelas pessoas que nos rotulam negativamente no primeiro contato. Sejamos, portanto, magnânimos com as pessoas, tanto quanto gostaríamos que fossem conosco.

E, finalmente, transformemos cada um daqueles que concluímos não serem merecedores de esforços em pessoas sem rótulo. Que 2014 nos permita ver de forma diferente aqueles que, até hoje, não nos eram caros. Assim, reinventamos nossa forma de ver cada um, e aumenta nossa possibilidade de realizar conexões saudáveis com pessoas que, sabemos e decidimos, merecem estar em nossas vidas.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Choque de consciência–o caos pelo indivíduo

Não se sabe, nunca se saberá, em que momento se deu, mas os seres humanos desistiram. Essa é a única conclusão a que podemos chegar.

O que explicaria, então, que pessoas que se reúnem para assistir a uma partida de futebol agridam umas às outras, depredem carros e imóveis, saqueiem casas comerciais? Se o propósito era assistir a um espetáculo esportivo, porque então de deslocam (com frequência) desse objetivo para se arriscar a ferimentos e outros riscos maiores?

Não é, infelizmente, caso isolado. Mais e mais casos se espalham pelo mundo, torcidas que, mais do que brigar, agendam as brigas como se fossem compromissos a serem honrados.

Fosse somente em casos de insanidade multitudinária, seria menos grave. Mas o trânsito prova que o indivíduo, isoladamente, também está sem controle. Pessoas de boa índole, disciplinadas e afáveis não raramente ignoram as mais básicas regras do trânsito e colabora, atomicamente, para o caos sistêmico, o que gera mortes e mutilações tantas que emula, com muita competência, uma guerra civil, Poder-se-ia dizer que a falta de fiscalização e sua consequente punição seriam as responsáveis por essa catástrofe. Não, não é verdade. A origem da catástrofe está no indivíduo, que escolhe ignorar as regras que pretender lhe dar segurança. Velocidade, ultrapassagens arriscadas, manobras irresponsáveis são apenas alguns dos pecadilhos. O maior deles é a transmutação do automóvel em arma, podendo mais aqueles que têm a maior. Não é raro que a incivilidade provoque ataques de automóveis contra outros, ou mesmo pedestres.

Culpa? Não sei se há que falar em culpa. Mas em falta de consciência. Pois aqueles que provocam, quando vitimados, aparecem no muxoxo da “injustiça social” e outras mazelas. A vítima do excesso de velocidade, em que pensa ao transitar pelo acostamento, passar pelo sinal fechado, avançar na faixa? Pecadilhos menores, talvez? Sim, mas que progridem. Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova Iorque, nos mostrou os excelentes resultados da intolerância zero.

Quem são esses que abdicaram do pacto social? São os esquecidos, os necessitados, os marginalizados? Não. São apenas pessoas que se deixaram sequestrar pelos seus instintos mais obscuros. São aqueles que, ao problema, fazem birra. São os analfabetos sociais, no sentido de que não prezam a vida em sociedade, mas somente a satisfação de suas necessidades pessoais, pois mais que doentias.

Como resolver? Podemos exigir leis e ações do governo, ou atuação intensiva da polícia. Isso mesmo aquelas famílias que recebem em suas casas, depois dos atos tresloucados, seus autores, e os defendem, pois família é isso. Mas o problema somente se resolverá se cada um, e todos, resolverem. Se cada um decidir que precisamos fazer o que é certo, e não o que queremos, aí então haverá horizontes por perseguir. Até lá, lamentemos a falta de consciência que grassa nesta “sociedade”, doente e carente.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O insulto do PSDB

O PSDB parece estar querendo nos insultar. Seus caciques vieram a público reclamar do Ministro da Justiça por causa do escândalo dos trens. Foi uma jogada mal ensaiada.

Parece que o que desagradou o partido foi o fato de a investigação estar andando. Talvez não nas melhores direções, nem na maior velocidade, mas está tendo sequências. Será que é disso que têm medo os caciques?

É de se lembrar que os mesmos não vieram a público reclamar quando a imprensa mostrou que o Suíça encerrou a investigação por falta de colaboração do Brasil. Estava nas mãos de quem, mesmo?

Uma cortina de fumaça para nos fazer olhar para o outro lado do mensalão mineiro? Parece que sim. Pois de concreto sua reclamação não teve nada.

Reclamam que o ministro da justiça é que quer que os olhares se desviem dos petistas presos. Ou seja, um lado reclama que o outro o está copiando, só pode ser isso.

Não estamos comemorando a prisão dos petistas. Estamos satisfeitos (os que estão, claro) com o fato de um crime envolvendo políticos ter chegado a tão surpreendente desfecho. Que paguem o que devem, não mais. Mas há outros nessa fila. Se há justiça, ela deve ser aplicada também para os casos de outros fatos de comprovado crime. Se envolve uma figura com a respeitabilidade de um José Genoíno, pode ser lamentável, mas deveria ser exemplar.

Os fatos não parecem agradar os peessedebistas. Quem se lembra da privatização “no limite da irresponsabilidade” de Fernando Henrique Cardoso? Mas as apurações não evoluíram. Assim como a compra dos votos da reeleição de outros menos famosos.

O Brasil está no momento em que os culpados já têm medo. Talvez não paúra, mas somente um medinho, mas já é uma mudança.

Esse comportamento daqueles que tentam desmentir o que já está confessado à justiça suíça ofende a inteligência dos eleitores. Parece que os caciques do PSDB estão a tratar com uma manada que, a seu comando, vai de um lado para outro sem poder de crítica. Parece que o “rebanho” não tem discernimento para separar o fato da versão.

Ofende minha inteligência quererem que acreditemos neles por causa de um teatro mal ensaiado.

Fica óbvio que os partidos políticos, no fundo e na superfície, são a mesma coisa. Discursam para atingir o poder. E agem para mantê-lo, a qualquer custo. Diferenças entre os partidos, se há, são ínfimas. Nada que lhes desminta os piores comportamentos.

Depois de tantos anos no poder, parece que PT e PSDB (além do PMDB, DEM, e outros) precisam é de um choque de votos. Ou do choque da falta de votos. O fato é que precisamos de novas cabeças, com novos objetivos. E com alguma moral. Não precisa muito, mas alguma moral já seria uma bela mudança.

PSDB: menos um voto!

domingo, 24 de novembro de 2013

Preso político ou político preso?

George Orwell retratou bem a classe política. Com seu Ministério da Verdade, o poder estabelecido editava a realidade, transformando seus venenos em puro mel.

José Genoíno e José Dirceu, braço esquerdo levantado, querem nos fazer acreditar que são presos políticos. Do governo do qual fizeram parte, sem que haja notícia de dissidência.

Os que defendem os políticos presos não apresentam senão tergiversações para embasar sua tese. Os que os repudiam aplaudem as medidas adotadas pelo nosso poder judiciário sem entrar no mérito, com adesismo a priori.

Se formos separar uns e outros por partidos políticos, teremos o PT e o PSDB. O primeiro clamando pelo julgamento do mensalão mineiro. O segundo defendendo as penas dos políticos já presos e negando o mensalão mineiro. E, de novo, grupos defendendo e atacando sem entrar no mérito da questão.

Do lado tucano, há a mal explicada denúncia do cartel do metrô. Que, embelezada pelos tucanos, parece ter sido uma demonstração cabal de lisura e honestidade.

Se dependesse das declarações dos envolvidos, nada errado foi feito. Até mesmo o dinheiro que transitou por becos e vielas é honesto. Mas n nós, cidadãos, o interesse deveria ser bem outro. Deveríamos estar engajados na busca da verdade. A verdadeira, não a embelezada, num mundo surreal em que a verdade se pauta pelas versões, não pelos fatos.

Assim, aos tucanos não interessaria se denúncia é contra seu partido. Interessaria, sim, apurar se procede. E, procedendo, interessaria a imediata punição dos envolvidos. Assim como aos petistas. Que, podendo se gabar de prender políticos envolvidos em tramoias, prefere atirar contra o sistema judiciário composto por seus indicados.

Sim, apoio a prisão dos petistas. Não por serem petistas, mas porque passaram por processo lega e foram condenados. Assim como apoiarei a prisão de tucanos, se o tribunal entender que há razões para tal. Paixões à parte, o Brasil ainda é uma grande coleção de capitanias hereditárias, em que todos são amigos do rei e os reis se protegem e a seus amigos.

Vivemos num ecossistema de partidos políticos. Lula abraçando Collor parece ser o exemplo mais representativo disso. Quando nos livraremos disso? Não se sabe sequer se sairemos.

Mas a mudança parece exigir que nossos posicionamentos sejam menos futebolísticos e mais objetivos. Cometeu ato criminoso? Punição! Independente de suas cores ideológicas.

sábado, 16 de novembro de 2013

Ressaca moral: o mensalão e o PT

Foram presos os condenados pelo mensalão. Mais precisamente, alguns dos condenados. Dentre eles, próceres de nossa república em algum momento histórico.

Diante da reação dos acólitos dos presos, duas possibilidades emergem: o poder judiciário militou contra o PT, ou o PT não reconhece o poder para o qual mais indicou ministros desde a ditadura.

No primeiro cenário, estamos à beira do caos jurídico. Se a mais alta corte do Brasil milita, e não o faz em nome do direito e da justiça, é preciso intervir. É preciso resgatar aquele sentimento que todos temos de que, no fim das contas, justiça será feita. Ou, no mínimo, que a lei será aplicada. Mas se outras ideologias ou interesses norteiam as decisões de nossos magistrados, o cidadão está desamparado. E não digo aqui cidadão “comum” porque o adjetivo perde a força perante o de que um político (tido, principalmente pelos próprios, como cidadão especial) foi condenado e iniciou cumprimento de pena.

No outro cenário, estamos à beira do caos, igualmente. Se o partido que tem onze anos no mais alto cargo legislativo do Brasil e alianças com 99% dos partidos não consegue mudar a realidade do poder judiciário, composto por pessoas que indicou, conclui-se que o Brasil não tem jeito mesmo. As alianças seriam somente para outros fins, não para reformas e assuntos importantes, como estruturação do país. E interesse nessa mudança o PT tem, pois seus pessoas importantes em sua história foram vítimas desse desvio de objetivos.

O fato é que o cidadão continuará a acreditar no poder judiciário. É ele quem deve nos socorrer em nossas necessidades e é a ele que sempre recorremos quando nos sentimos injustiçados. Sem essa crença, o indivíduo teria ganas de fazer justiça pelas próprias mãos, e o pior cenário se apresentaria.

E fato também é que o PT precisa espernear contra as decisões do Supremo Tribunal Federal. A alternativa seria admitir que o que fizeram seus membros é aceitável e alguma forma. Admissão, aliás, que as turbas avermelhadas parecem assumir. “Condenados políticos”, é sob essa definição que foram homenageados os neopresos. Se até  líder máximo alegou que “todos fazem”…

O fato é que é triste ver as prisões daqueles que já foram esperança de milhões. Representantes do partido que lutou contra a ditadura, e que instaurou sua própria, sem violência física, mas ditadura. A coincidência das prisões com o dia da Proclamação da República não poderia ser mais emblemática: a república assumiu uma democracia imperfeita, que beneficia e transforma aqueles a quem confere o poder.

Triste!

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Não estamos ficando mais jovens…

… mas devíamos estar mais sábios!

A experiência que nossos anos  nos trazem deveriam fazer de nós pessoas mais sábias. Deveria permitir que identificássemos, de pronto, quais pontas de faca queremos esmurrar. Deveria nos ensinar  identificar aquelas pequenezas que valem mais a pena serem ignoradas. Deveria nos ensinar a calar quando palavras são demais, e deveria nos dar eloquência quando necessário. A experiência deveria nos ensinar que não é errado desistir, que errado é não avaliar serenamente uma situação e, dessa serenidade, gerar a decisão de insistir (persistir) ou desistir. Deveria nos ensinar a batalhar as batalhas certas, as que queremos lutar, não aquelas que outros querem que nos embrenhemos. Ah, a experiência, que nos dá nossas cãs, nos leva a visão, vai tirando lentamente nossas forças, não pode dar essas coisas todas de que sinto falta.

Porque essas coisa não são herdadas, adquiridas ou recebidas por imposição. São uma decisão que tomamos.

E cada um as toma de acordo com sua própria convicção, ou falta dela.

Há os que escolhem se questionar, se reinventar, mudar suas convicções de acordo com o que a experiência lhes mostra. Há os que celebram, os que buscam, os que caem e levantam.

Mas há os que  escolhem deixar a vida fora de seu controle, que culpam os outros, que alimentam mágoas, que se escondem atrás de convicções anacrônicas, medos ainda infantis.

Para os primeiros, o passado é amigo. Para os segundos, o passado é algoz.

Desapeguemos, principalmente das mágoas. Afinal, não estamos ficando mais jovens. Mas podemos ser mais sábios.E, por consequência, mais felizes.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A função “esposa” do meu GPS

Você está acima do limite de velocidade.

O grifo é dela, já que tem uma forte reprovação no tom de voz, e, ao falar “acima”, acentua com um olhar característico das broncas uxórias.

Meu GPS automotivo tem voz feminina. Já teve vários nomes, mas me fixei em Sheila depois de assistir a este vídeo. Sheila, portanto!

Ela não conversa, não responde, não puxa assunto… só abre a boca quando estou acima da velocidade ou quando me aproximo de radares. Alguns, imaginários. Outros, concretos, ela não reporta. Talvez porque nem faça mais diferença.

Às vezes, ela me alerta sobre caminhos errados. Ora, o que sabe ela de caminhos? Por diversos chego aos meus destinos. Mas ela parece ter somente um, o que não nos ajuda quando o trânsito empaca feito mula. Feito A Sheila…

Aliás, quando mudo de caminho (intencionalmente, sempre), ela avisa incontinenti:

Recalculando rota…

E sou capaz de jurar que complementa, entre dentes e sussurrado:

Não pergunta e nem me obedece

Enfim, são coisas como essas que me fazem ativar ou desativar o que eu chamo de “função esposa” do meu GPS. Juro que nos alertas dela há sempre o tom de reprovação resignada, a condescendência para com o pobre coitado que nem se orientar direito sabe. Sua falta de assunto se concretiza na idéia (é, sou contra a reforma) fixa da velocidade e caminho. Já nem abro mais a porta para ela, e já a traí, preciso confessar. Outras vozes foram tentadas, mesmo de outras nacionalidades, resultando numa volta quase envergonhada àquela com a qual já estou acostumado.

Mas essa “função esposa” precisa evoluir. Sonho com o dia em que eu fale “rua Tal, número tal”, e ela já programe o caminho, sem que eu precise tocá-la, o que é perigoso no trânsito. Também sonho com o dia em que ela mostre flexibilidade, em caso de eu precisar ir a algum lugar, mas precisar passar por outro antes. “Sheila, preciso ir ao Shopping, mas primeiro preciso passar no açougue”. Mas, não! É muito. O processador da Sheila, aqui chamado de Rico e Reco, não deve estar preparado para tanta modernidade. Já pensei em trocá-la por uma bem mais nova, mas conclui que não tenho condições financeiras para isso. Deve ser disso que reclamam aqueles recém divorciados: as pobres finanças depois da separação.

Enfim, já que não há possibilidade de divórcio, vou dirigindo pelas ruas, ouvindo as reclamações sobre velocidade e roteiro,  negando ora com as mãos, ora com a cabeça, discutindo sem resposta com a Sheila e jurando que ela um dia há de falar:

Recalculando rota… seu burro, errou de novo

Coisa de um casamento feliz!

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Todos são iguais perante a lei

… mas alguns são mais iguais que outros…

O pai da jornalista assassinada Sandra Gomide quer receber a indenização a que foi condenado a pagar o assassino.

A família de Amarildo vai receber pensão do governo pelo sumiço do pedreiro. Absurdos R$ 300,00.

Problemas financeiros levam cabelereiro a matar família e se suicidar.

E mais dezenas de notícias semelhantes que lotam os noticiários.

Homem é condenado à prisão e pede aposentadoria. Por invalidez. Míseros R$ 26.000,00. O homem é José Genoíno. Atualmente deputado. Brevemente presidiário. Estava trabalhando. Normalmente. O coração, ao que parece, batendo bem. Andava meio assustado, meio preocupado, sua fotos mostram isso. Mas estava bem, pois estava “trabalhando”.

De repente, trabalhar não era mais possível. Alguma coisa deve ter se agravado no coração do deputado.  Já não bate com a mesma força, será? Mas algo mudou, e trabalhar parece uma impossibilidade total. O jeito, a contragosto, imagino, é pedir aposentadoria. E ir descansar, sei lá onde.

Mas o interessante é a coincidência. Trabalhar não era mais possível somente depois que o Supremo Tribunal Federal apreciou lá uma coisa dele. Parece que contra ele, sei lá.

Deve ter sido isso.

O coração, magoado, não bate como antes. É preciso descansar. Ou garantir o pagamento, qualquer pagamento.

O deputado é, em essência, como as demais pessoas mencionadas aqui. Uns são vítimas, outros são autores, mas todos são iguais, diz a lei. Mas os primeiros não têm a quem pedir aposentadoria. nem tem uma trupe a defender-lhes o direito ao direito, com o perdão da repetição.

Iguais, mas diferentes. Tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais.

Que país, o nosso!

Pão e circo–a informação tratada como massa de modelar

Na transmissão da corrida de Fórmula 1 em Monza, neste domingo último (08/10), as notícias no paddock davam certa a saída de Felipe Massa da Ferrari. Um Galvão Bueno irritado afirmou, várias vezes, que o piloto lhe dissera que o presidente da Ferrari prometera a ele, Massa, que ele seria o primeiro a saber se a decisão de não renovar seu contrato fosse tomada.

E, ainda irritado com a propagação da notícia ruim para um brasileiro, reiterou várias vezes que não passava de boato.

Hoje, Felipe Massa anunciou sua saída da Ferrari.

E como fica a afirmação de Galvão Bueno? Não fica.

Uma reportagem de 16/06/2013 na Folha de São Paulo, um artigo exaltava as qualidades do jornalista Galvão Bueno, chamando de “gênio da comunicação”.

Traz também uma afirmação feita por Galvão à Revista Veja:

Eu sou um vendedor de emoções. O esporte é basicamente emoção. É o meu produto. Eu tento vendê-lo da melhor forma possível. Narrar é andar no fio da navalha. Usar tudo que você puder para passar emoção ao espectador sem faltar com a verdade dos fatos, a realidade.”

Se você esperava que as transmissões de eventos esportivos fossem notícia, se enganou. O resultado é notícia, mas a transmissão é circo. Puro circo. Senão, como ignorar que a Fórmula 1 está cada dia mais chata? Não. Os patrocinadores não aprovariam. Como dizer que o jogo de equipe é uma vergonha? Não, os patrocinadores (ao menos um em especial) não aprovariam.

E por aí vai. Como o jornalismo da rede de Tv que detém os direitos de transmissão da Copa vai poder se posicionar adequadamente contra os escandalosos estádios? Ou contra os barões do esporte, esse grupo que enriqueceu e montou um feudo todo seu?

Não, isso é notícia. O que importa é o “Hino da Vitória”, loas aos brasileiros (no plural? Desculpe, ato falho) restantes no decadente esporte de ex-garagistas.

Aliás, apoiando-se no ídolo maior de boa parte dos brasileiros, as transmissões são recheadas de menções ao “Ayrton”, o inesquecível. Falecido há dezenove anos, diga-se de passagem.

E quando a notícia, repetindo e frisando, notícia foi dada, Galvão, o vendedor de emoções, duvidou.

Conforme o site da Veja (aqui), essa é a reprodução da transmissão ao vivo:

Durante transmissão pela TV Globo do Grande Prêmio da Bélgica 2009, o jornalista Reginaldo Leme afirmou que Flavio Briatore, ex-chefe da ING Renault F1 Team, havia tramado o acidente de Nelsinho Piquet no GP de Singapura 2008 para beneficiar o piloto Fernando Alonso. O apresentador Galvão Bueno duvidou da informação e preveniu o companheiro de eventual processo.

Reginaldo Leme: Muita coisa ruim deve vir a tona nos próximos dias. Essa é uma delas.

Galvão Bueno: Peraí, você está querendo me dizer que o Nelsinho bateu o carro de propósito? Não pode ser. O Nelsão, o Nelsinho devem estar ouvindo a transmissão. Isso não é possível.

Galvão Bueno: Quem espalhar essa notícia vai levar um tremendo processo. Isso vai dar uma confusão, eu nunca ouvi uma história tão escabrosa na história da Fórmula 1.

A direção da transmissão, na sede da emissora no Rio de Janeiro, ordenou que dois encerrassem o assunto.

Informação boa, a verdade, pode não comover ou animar, mas, geralmente, não dá processo.Quando dá, ganha. Não se pode dizer o mesmo da censura.

Por Antonio Ribeiro

Duvidou e tripudiou. Mas admitiu seus poderes mediúnicos a Jô Soares, pois ele, Galvão, sempre sabe o que pensam jogadores de futebol, pilotos e outros esportistas, isso em plena transmissão. Notícia? Não, emoção.

Falar o que o outro quer ouvir: manipulação. Se “o outro” é toda a assistência, é circo.

Juntemos aos arroubos ufanistas de Galvão as novelas, as notícias pasteurizadas, o proteção conivente aos amigos do rei, e temos mais e mais circo.

O pão? Ora, o pão! Circo"!

Aqui, o vídeo da transmissão.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A Rede Globo e a ditadura e Ricardo Boechat

Em tom contrito, a rede Globo admitiu, recentemente, ter sido um erro seu apoio à ditadura. Aparentemente, concordando com os motivos da intervenção limitar, o veículo de comunicação mais assistido do Brasil aderiu, de primeira hora, aos golpistas. Não seria problema algum se fosse um ato de pessoa física. Mas foi o posicionamento de uma poderosa empresa, formadora de opinião (queiramos ou não), e cujo alcance é o maior do Brasil, mesmo àquela época.

A pergunta é: e como isso alterou a vida do brasileiro?

Nunca saberemos. Só podemos mesmo especular. Por exemplo, que resultados teriam ocorrido se a Poderosa divulgasse, com toda sua força televisiva, as manifestações pelas Diretas Já? teria sido diferente a votação da emenda Dante de Oliveira? O resultado manteve a eleição indireta no país, contrariamente à vontade do povo e de interesse direto do governo militar. Como exercício de imaginação, visualizemos o ocorrido no Rio Centro, em 1981, sendo objeto de longas e demoradas análises sobre imagens dos militares mortos no ocorrido. Será que o monstro acordaria ali?

Pelas suposições do que sabemos, extrapolamos para o que não sabemos. O que mais teria escondido da população essa empresa concessionária de comunicação? A chave aqui é o termo concessão. Quem concede é o governo, ao qual aderiu adrede. Medo de perder poder?

E falamos aqui de esconder, ou mal mostrar. E o que dizer daquele debate entre Lula e Collor, cuja reportagem, manipulada, mostrou um delles vitorioso e ou outro cabisbaixo? O que mais estava na pauta da rede Globo para ser também manipulado? Onde mais a informação foi maltratada e transformada conforme o interesse da Poderosa?

Toda manhã, por hábito, escuto o jornal da BandNews, que tem em Ricardo Boechat seu âncora. E ele abra o jornal todos os dias com uma arenga sobre um caso qualquer do Brasil e do mundo. É editorialista, e trata-se de opinião. Nada mais. Nem sempre é possível concordar com tudo o que fala Boechat, sendo mais provável que discordemos mesmo de muita coisa. Mas é um alívio à alma ver um respeitado jornalista falar o que pensa. Fugindo do padrão estéril dos âncoras de telejornais mais sérios, que comunicam sua aprovação ou a falta dela somente com um movimento das sobrancelhas (que deselegante!).

(Claro que não vamos colocar num mesmo patamar os programas policialescos que assombram as tardes e noites do Brasil).

O resultado é que dialogamos com as informações, levados pelo raciocínio do Boechat, a favor ou contra. Suas opiniões trazem a ele tanto elogios como críticas. Mas o destacam por dar profundidade à notícias, mesmo contra o senso geral de que as redes de comunicações, ávidas pelo dinheiro de propaganda do governo, calam-se onde deveriam gritar.

Claro, nem tudo são flores mesmo na rede Bandeirantes. Mas esta rede cresceu, e muito, desde o nosso primeiro presidente eleito pelo voto direto.Esperamos que a mesma força assole as demais emissoras. E que a Globo, arrependida, faça jornalismo total, e não aquele que serve a senhores de seu interesse.

Dá-lhe Boechat.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Programa Deputado Zero

Depois do Fome Zero, precisamos urgentemente do Programa Deputado Zero.

Não me refiro somente à nota, que talvez seja excessiva para o que fazem. Refiro-me à quantidade.

Pois a pergunta que não quer calar é: para que precisamos de deputados?

Discussões de interesse do povo brasileiro, como reforma de leis e códigos, e proposição e votação de novos são atropelados pelos assuntos de interesse dos deputados e senadores, que pouca ou nenhum atenção dão para o que não for seu umbigo. Negociações com governos (qualquer governo) e com lobistas (de preferência, todos) são o que mantém o atrativo das votações, no fisiologismo de sempre.

A semana começa na terça-feira, e termina na quinta. Obviamente, na tarde de terça e na manhã de quinta. As despesas, mesmo as não ocorridas, são “ressarcidas” (perdoem-me os puristas). E outras são geradas, sempre no interesse maior do país, segundo os próprios.

As Excelências se respeitam e se protegem. Interessados estão em blindar sua espécie, naquela máxima de que “todos são iguais perante a lei, mas alguns são mais iguais que outros”.

A lei, ora, a lei, que prevaleça o dito de Fernando Sabino “dura lex, sed latex” (a lei é dura, mas estica). Mas somente para os de placa de bronze.

Então, o que temos é uma realeza nos moldes da britânica, mas sem a velhinha simpática. Ao contrário, oligarcas de vastos bigodes, ou de belas amantes mantidas com dinheiro espúrio, suas faces se fundem e estão longe de ser simpáticas. Alguns dizem mesmo que a opinião pública não os amedronta. Outros não dizem, Mas afirmam a mesma coisa com uma bela banana ao que recomenda mesmo a moral de bandidos.

Se essas pessoas nos representam, o recado é claro: a sociedade, toda ela, é corrupta. É desidiosa, gosta de negociatas. É amoral, chegando mesmo a ser imoral. E é predadora, na pior demonstração de que o interesse pessoal é mais importante que qualquer interesse público.

Hoje nossa produção legislativa é na base de medidas provisórias. Que se acumulam, contra a previsão constitucional, sem apreciação das casas legislativa.

A conclusão, óbvia e deprimente, é que somos o legislativo se fundiu ao executivo, e a zona de conforto já se estabeleceu.

É preciso reiterar a pergunta: precisamos de deputados?

Programa Deputado Zero: eu apoio.

sábado, 17 de agosto de 2013

Compras insensatas: A Apple e seus produtos

Na década de 70, o mercado de informática se debatia com o conceito de solução proprietária, em que os insumos destinados à manutenção do equipamento dependiam do fornecimento exclusivo do fornecedor original. Assim, equipamentos IBM, por exemplo, somente aceitavam pentes de memória da IBM, o que tornava o TCO (total cost of ownership) alto demais. A COMPAQ, fundada no início dos anos 80, baseou sua estratégia na convergência da compatibilidade entre os diversos fabricantes de equipamentos, liderando uma série de consórcios destinados a atividades de padronização. Até mesmo seu nome carregava esse direcionamento: COMPAQ: COMPAtibilidade e Qualidade. E essa estratégia refletia o desejo da maioria do mercado consumidor, principalmente o mercado corporativo.

A expansão da COMPAQ levou ao consumidor final o conceito a padronização: qualquer um que adquirisse os equipamentos poderia adquirir insumos de qualquer outro fabricante, pois já estava garantida a compatibilidade.

E assim o mercado foi evoluindo, colocando para escanteio as marcas que insistiam nas soluções proprietárias, fazendo com que elas, cedo ou tarde, migrassem para o novo modelo demandado.

Até que… a Apple ressurgiu das cinzas. Na segunda investidura de Jobs, a Apple se reinventou e relançou seus produtos e inovações, tendo inicialmente apelo mais como fetiche do que como produto. Mas o fetiche era forte, e no lançamento do Ipod houve o “sequestro do emocional”, como diria Daniel Goleman no seu Inteligência Emocional. O desejo pelo produto inovador não permitiu ao comprador avaliar alguns problemas que poderiam surgir, e o sucesso voltou às mesas da Apple. No lançamento do Iphone, o fetiche aumentou, e a razão foi cada vez mais se distanciando do processo de decisão da compra, fenômeno que se repita a cada relançamento do Iphone ou do Ipad.

No entanto, o que a Apple fez foi, através de soluções proprietárias, aprisionar o cliente em sua teia de produtos. Não se colocam músicas nos equipamentos móveis sem passar pelo iTunes. Não se adquirem aplicativos sem que seja pela App Store. Os aplicativos de “inimigos” ou concorrentes da Apple sofrem discriminação na oferta, como se viu com o Google Maps, que todos usavam e a Apple baniu autoritariamente pelo seu próprio (num vexame, que resultou na demissão de um executivo por falhas no produto).

Há relatos em grande número sobre o botão iniciar do Iphone: simplesmente não funciona. Os Ipods sofrem de oxidação interna que inviabilizam sua utilização. As telas do Iphone, de vidro, quebram com uma facilidade absurda. E, como o conserto é exclusivo com peças Apple, em política de concessionária de automóveis, os preços são absurdamente altos. Os insumos em que há possibilidade de fabricação “alternativa”  mostram a distância de valores: um cabo de comunicação custa  no mercado alternativo um quinto do preço do oficial. Mas funciona com a mesma qualidade.

Voltamos, portanto, à era da solução proprietária. Mesmo grandes empresas, iludidas pelo fetiche do produto/marca já distribuem Ipads a seus executivos. Mesmo que esses equipamentos não tenham entrada USB (padrão e mercado) para conexão a outros equipamentos; mesmo que seu Bluetooth (padrão de mercado) só permita ligações (completas) com outros equipamentos Apple; mesmo que não se consiga portar documentos sem passar por um App obtido na App Store.

Na medida em que outros fornecedores copiem as inovações da Apple e as aperfeiçoem, o fetiche tende a diminuir. E a razão deve voltar a imperar. Até lá, nosso destino é assistir essa escravidão autoimposta.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Carandiru: eu confesso!

É errado, eu sei. É politicamente incorreto, eu sei. É moralmente indefensável, também sei. Mas eu não consigo reprimir o sentimento sobre o assunto.

Nosso dia a dia é repleto de medos. Que vão desde coisas  bobas, como a possibilidade de o elevador em que estamos despencar no fosso, como coisas tristemente concretas, como ser assaltados – e mortos – por assaltantes.

Os recentes exemplos de latrocínios justificam esse medo. Assassinos que não têm justificativa para o ato – claro, não se justifica um assassinato – atiram sem dó. Onde querem e tantas vezes quantas sejam necessárias para garantir a morte. Não tem horário, não têm lugar; matam democraticamente crianças, adultos ou idosos. Os que reagem e os que não reagem. O que entregam  seus bens e os que não entregam. Enfim: não basta roubar. O assassinato está fazendo parte do “protocolo do assalto”.

A nós, as vítimas, resta chorar nossos mortos e temer nosso futuro. Nosso e dos que nos são caros. Pois muitas vezes esses assassinos permanecem para sempre indeterminados. Portanto, impunes. Outras vezes, apostam nisso somente: a impunidade. E, meses após sua efêmera prisão, voltam às ruas para mais da mesma maldade. E nossos familiares, amigos poderão jazer, em alguma rua escura ou calçada iluminadíssima vítimas dessa insanidade.

Aqueles que poderiam e deveriam nos proteger não o fazem, seja por limitações inerentes, seja por incapacidade muitas vezes consciente. A lei não ajuda nossos policiais, e nossos policiais não respeitam muito as leis.

Enquanto isso, às dezenas por dia, caímos, e nosso sangue colore tristemente a paisagem da impunidade.

Por isso, não consigo, no âmago do meu ser, declarar que reprovo a ação dos policiais do massacre do Carandiru. Tento reprimir o sentimento ruim de achar que o assassinato de 111 bandidos é justificável. Mas não consigo. Confesso que o massacre me leva a experimentar um sentimento de vingança que não condiz com meus credos pessoais. Mas eu não consigo deixar de  saborear a ideia de que ali, naquele momento, ao menos um dos bandidos tenha experimentado a mesma sensação que infligiram a outrem. Quero acreditar que seus últimos momentos foram em agonia, iguais aos de suas vítimas, acuados, subjugados e humilhados, usurpados de sua humanidade pela falta de capacidade de reação.

Sei que é uma generalização absurda. Sei que ali havia alguns cujos crimes eram de menor potencial ofensivo. Mas não consigo deixar de iconificá-los pela óbvia comparação: eram os bandidos! Nós, escondidos em nossa casa, ou pelas ruas, esperando não ter o azar de cruzar com algum desses facínoras, estamos indefesos perante eles. Escalam prédios, invadem restaurantes, atiram na cabeça. Mas quando é contra eles a bandeira dos direitos humanos é brandida com veemência. Não, os direitos são HUMANOS. Essas pessoas que nos retiram a vida, a nossa e dos nossos, deixaram de ser humanos. Passaram a ser somente os animais, dificilmente racionais, que atiram para matar sem motivos.

A punição do criminoso é um poder-dever do estado. O direito de vingança só é dado ao estado, que tem o dever de punir segundo as regras legais. Não o faz. E, em o fazendo, limita-se pela lei, indevida e insuficiente, incapaz de acompanhar a progressão da maldade.

Por isso, confesso: foi uma fugaz vingança. Talvez injusta, com certeza ilegal. Foi imoral, talvez somente amoral. Mas foi uma das poucas vezes em que o mal sentiu um pouco do seu próprio veneno.

Droga, como foi difícil admitir isso! Talvez o problema seja eu!

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Comportamento no trânsito, este nosso predador

Viajando diariamente para a cidade de São Paulo, saindo de Campinas (SP), já é surpreendente a quantidade de automóveis transitando pelo mesmo percurso. Aumentou significativamente esse número nos últimos anos.

Fosse somente o aumento da densidade de tráfego, não seria problema. Mas aumentou também a velocidade com que circula uma boa parte desses carros, em todo o trajeto.Carros mais novos, vias mais largas, parece ser um convite à alta velocidade.E não só: ultrapassagens pela esquerda, trânsito pelo acostamento, conversões proibidas, manobras arriscadas, ameaçando ou mesmo gerando acidentes.

Quando começaram as obras de adequação das pistas da Bandeirantes e Anhanguera para sua concessão, olhava com um misto de apreensão e medo para aquelas câmaras de vigilância instaladas ao longo das rodovias. Pensava que agora EU seria punido por qualquer manobra ilegal. Pensei, ainda, que com essas auxiliares, nossas polícias teriam muito mais elementos para fazer seu trabalho.

Quanta ilusão. A concessionária se dedica arrecadar, sua grande preocupação. A polícia se preocupa em… em… em que mesmo? A polícia sumiu. Não se vê mais, nem mesmo nos postos oficiais, a atuação desses policiais. Como se fosse uma discussão administrativa, Pôncio (as concessionários) e Pilatos (a polícia) lavam as mãos. Quer um exemplo? veja quantos são os veículos que passam em velocidade acima do permitido ou ultrapassam pela direita na frentes desses postos policiais. Se é assim na frente do posto (antigamente uma catedral onde o motorista diminuía a velocidade) imagine-se no resto do percurso.

Quanto aos motoristas, a grande responsabilidade é deles. Seja em carros “populares”, seja em carros de luxo, ou nas superpotentes “SUV”s, é democrático o abuso das regras de trânsito. Sem esquecer, claro, caminhões e ônibus, e o perigo mais novo: motos.

O abuso de velocidade não é empreendido pelas concessionárias ou guardas, mas por cidadãos que podem ser nossos conhecidos. Tomam seus cafés perto de nossa padaria, almoçam próximos ao locais onde almoçamos, têm cônjuge e filhos esperando-os na volta. Mesmo assim, trafegam em altas velocidades ultrapassam pela direita, realizam manobras irresponsáveis.

A autoridade, neste caso, muitas vezes tem a imagem da infração. Não é uma imagem de radar, e a das câmaras de vigilância. Imagem com movimento, ainda melhor. A pergunta é: por que não se usam essas imagens para coibir esses abusos?

A presença de “abusadores” de interesse pode explicar. São muitas as placas de bronze (autoridades) em alta velocidade nas estradas. E em manobras irresponsáveis. A quantidade de ônibus também é alta, assim como caminhões de frota. Será que não há interesse em multá-los?

Vejo, tristemente, que o perigo de viajar aumenta a cada dia. Nossas autoridades e, pior, nossos motoristas, parecem não se preocupar com isso.

Até que morra uma pessoa querida, aconteça uma grande manifestação, acendam-se velas, prateiem-se mortos… e o tempo passa, e estão todos prontos para outra… Infelizmente.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Depois do “Mais médicos”, que tal: “Mais Professores”, “Mais Policiais”, “Menos políticos”?

Se a lógica dilmista tem lógica, resolvamos de imediato outros problemas do Brasil.

O programa “Mais professores” acabará com os problemas de educação do Brasil. Programa “Mais policiais” acabará com problemas relacionados à insegurança. E o programa “Menos políticos” acabará com os problemas de falta de dinheiro para resolver outros problemas…

O reducionismos do governo ou é de um cinismo ofensivo, ou é de uma estupidez galopante. Ou, pior, ambos. Desde antes da Teoria Geral dos Sistemas se sabe que nada é isolado. O contexto não pode ser abstraído, e os problemas não são resolvidos a golpes verbais. Há que trabalhar muito para resolver questões que são estruturais e estruturantes.

Com as políticas brasileiras, sejam lá de que área forem, o foco é nos próximos quatro (se tanto) anos. Ninguém enxerga o longo prazo, e isso significa que nossas infraestruturas estão entregues à erosão. Com o tempo, entram em colapso, e não bastam esparadrapos para consertá-los. Como defende Stephen Covey, para haver produção é necessário ter a capacidade de produção (P e CP). Sem essa lição básica, não basta querer produzir: é necessário ter ferramental hábil para tal.

Por essa lógica já passou Rui Barbosa e seu famoso Encilhamento, que deveria ser uma lição de fato e não somente uma página triste da história. À necessidade de médicos há que se somar necessidade de postos de saúde, hospitais, centros de diagnóstico e terapia, farmácias para distribuição de medicamentos, equipamentos, etc., etc., etc.

Mas tragamos somente os médicos, torcendo para que os cidadãos, alienados pelos BBB, não percebam o embuste. E aproveitemos e tragamos também professores, policiais, juízes, e outros ícones que possam reproduzir o engodo em outras áreas.

Fossem alunos aplicados (se não tivessem sido vítimas dessa educação mal estruturada do Brasil) nossos governantes fariam uma incursão diagnóstica pelos problemas do país. Não só aqueles gritados pela turba dita ignara,  mas aqueles que impedem que o amanhã chegue (Brasil, o país do amanhã). Talvez nossos maganos chegassem a conclusões mais realistas e menos reducionistas.

Reducionismo que pode ser feito por qualquer médico importado:

- Qual é o problema, doutor?

- Simples! Você está doente! Próximo!

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O direito de Renan Calheiros

Renan diz que tem direito de usar avião da FAB e se recusa ressarcir cofres públicos, segundo a Folha de São Paulo. A pergunta é: quem deu a Renan Calheiros esse direito?

Essa é uma daquelas coisas com que sonha a maioria dos brasileiros. Aumentar seu próprio salário, criar ressarcimentos de despesas que inexistem, ressarcir custos que são de sua própria responsabilidade, trabalhar quantos dias quiser, eliminar a necessidade de se justificar a quem quer que seja… Mas somente uns poucos têm essas prerrogativas. Alguns são donos de empresas, e pagam esses luxos com o lucro de seu empreendimento, ou arcam com o prejuízo. Outros são nossos representantes, que repassam as despesas aos cofres públicos, segundo sua própria vontade.

Eu não votei para isso acontecer. A esmagadora maioria do povo brasileiro não participou dessa negociata, senão indiretamente. Votamos em pessoas que julgamos, acertada ou erradamente, que iriam nos representar com equidade, justiça, bom senso, honestidade e outras quimeras. Mas fomos surpreendidos, ao longo dos sucessivos mandatos, com o aumento das benesses em benefício próprio.

Pois que nossos representantes têm autonomia para votar em que quiserem, e da maneira que quiserem. Observados os valores éticos, deveria mesmo ser assim. Mas estamos reféns da ganância desses nossos representantes que acham mais importante votar o aumento de suas verbas pessoas que o código civil brasileiro.

Renan Calheiros tem esse direito? Eu acho que não. E, principalmente, acho que não se foi autoconcedido. E, aqui, considero que todo o Congresso (ou assembleia, ou câmara) que vota em favor do seu estamento, autoconcede-se. Isso deveria ser errado, impedido, proibido. Mas esse impedimento depende da avaliação e votação dos nossos representantes, que só votam a favor daquilo que os favorece, gerando um evento tostines…

É disso que estamos falando. Queremos deputados, senadores, deputados estaduais, vereadores, juízes, etc., trabalhando cinco dias por semana, todas as semanas. Que suas férias sejam iguais às nossas, e também seus benefícios. Que seus carros não tenham placas diferenciadas, e que seu comportamento seja público, como é a carta branca que a eles concedemos.

Queremos que essas pessoas nos representem votando conforme nossa vontade, não conforme seu interesse. Queremos que nossa representação tenha uma finalidade maior, não que seja instrumento de locupletação pessoal. E, principalmente, queremos que essas pessoas tenham a capacidade de sentir vergonha, e que essa vergonha possibilite a eles concluir que seu comportamento é errado. Não queremos aquelas pessoas que vendem terrenos na lua, e que declarem com a maior desfaçatez que é absolutamente normal.

Enfim, queremos pessoas que entendam que seu maior direito, e que o que condiciona todos os demais, é o de traduzir a voz das pessoas que representa. E essa tradução não pode ser surda, ao contrário. Ela tem de ouvir a voz rouca, às vezes muda, mas sempre presente, dos cidadãos que lhe afiançam o poder.

Chega, Renan Calheiros!

terça-feira, 2 de julho de 2013

O plebiscito de fumaça, e o congresso rindo à toa

A pergunta é: qual das propostas apresentadas pela presidente ao congresso resolve os problemas do nosso congresso?

A resposta: nenhuma!

Financiamento de campanhas, sistema eleitoral (voto proporcional ou distrital), coligações partidárias, suplentes de senador, voto secreto… Essas são as preocupações da presidente. E, enviadas por ela ao congresso, podem compor o TOTAL de perguntas do plebiscito.

Essa não é a agenda do Brasil. É, inicialmente, a agenda do PT. E, na esteira, é uma agenda conveniente para o congresso. Se analisar somente essas questões, escapa da grande mudança pretendida, que é na sua própria atuação.

Não tenho procuração ara falar em nome de outrem, mas minha adesão às manifestações foi por:

  • eliminação dos gastos absurdos do congresso;
  • fim da possibilidade de nossos representantes votarem (e apresentarem) matéria de seu interesse próprio;
  • fim dos carros oficiais;
  • fim da im(p)unidade parlamentar;
  • fim da semana de 3 dias;
  • fim do político de carreira;
  • fim da falta de produtividade: 30 anos para votar o código civil?

Enfim, a agenda dos manifestantes está sendo usurpada, por um partido que esteve sempre na defesa da ética, e hoje escancara oportunismos.

O que presidência e congresso estão fazendo é “mudar para não mudar”. Ou seja, algumas concessões para nos iludir, fazendo-nos acreditar que estão ali por nós. Não estão.

A agenda mudou…

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A lei, ora, a lei…

Notícia festejada: o Senado aumenta penas por corrupção. A realidade: não precisamos de novas leis. Precisamos mesmo é que as leis existentes sejam aplicadas. Se a existência da lei bastasse, não haveria mais homicídios.

Ora, com a im(p)unidade parlamentar o problema é que os políticos acusados de crime de corrupção não chegam a ser julgados e, portanto, não têm pena a cumprir. É mais uma daquelas medidas oportunistas e populistas que costumam aparecer em épocas como a que estamos vivendo.

Veremos, pelos próximos dias, várias e várias ações do tipo “mais do mesmo”, ações travestidas de reformas, mas que no final das contas se prestam mesmo é a apresentar nuvens de fumaça. Os nossos representantes devem apostar na perda de fôlego das manifestações, querendo confirmar que o brasileiro não tem memória.

Leis, temos aos montes. Já a aplicação da lei, já é outra história. Cada qual as interpreta à sua conveniência, e essa dualidade (se pouco) se reproduz até e principalmente no poder judiciário,  que deveria ser um alento. Não chega a ser, como visto no recente julgamento do mensalão, em que pareceu que cores partidárias estavam sendo brandidas.

Antes de votarmos novas leis, poderíamos aplicar as existentes, ao menos a título de experiência, para saber se têm o condão de incutir medo nos que as infringem.

Portanto, foco errado do nosso congresso! O que precisamos para garantir a execução das leis? A responder.

terça-feira, 25 de junho de 2013

A arte de tergiversar: Dilma e seu discurso vazio

Oco. Assim foi o discurso da presidente.

Nos transporte, parece que o problema é o diesel. Desonerá-lo é a preocupação. Na saúde, importar médicos. E assim foi. Até um plebiscito foi sacado da manga. A presidente pareceu apostar na perda de fôlego das manifestações. Triunfalmente anunciou medidas que não efetivará. Se nos lembrarmos do PAC, que era a salvação da lavoura, e formos ver a quantas anda, veremos que nada se deu conforme o discurso.

Aliás, discurso de político é assim mesmo. Diz o que quer, descomprometido com a vida real.

As coisas estão como estão por causa de desmandos de anos. Desde a queda de Collor  esperamos que o cenário mude para melhor. Mas só piorou. Desconsiderando a efemeridade de Itamar Franco, temos oito anos de PSDB e coligações, e agora 10 anos de PT e coligações. E as coisas só pioraram.

Collor foi convidado a se retirar por causa de escândalos de corrupção. E o que aconteceu depois de sua saída? Escândalos e mais escândalos de corrupção. Há o mensalão petista e há o tucano. Os dois partidos principais destes anos de democracia igualmente enlameados.

O plebiscito

Vozes alertam para a impossibilidade jurídica da realização do plebiscito. Apontam regras e limitações, de ordem mesmo constitucional. Neste país em que a presidência da república indica (nomeia) os ministros da mais alta corte, parecendo mesmo contar com sua simpatia, fico com a máxima de Fernando Sabino: “dura lex, sed latex”  (a lei é dura, mas estica). Aplicada, clara, aos interesses do poderoso da vez.

Não dá para acreditar que essas leis reformantes/estruturantes sejam aprovadas de forma isenta pelos nossos atuais representantes. Que espernearão incansavelmente contra todo tipo de restrição de seus inúmeros e absurdos benefícios. Por isso, não há outra forma senão delegar essa tarefa a outrem. Mas a quem?

De mais a mais, será que há dúvidas sobre essa vontade popular?

Mas é um processo longo. Não será um 30 dias que se efetivará qualquer mudança nesse ponto. Mas seria catártico ter pessoas desvinculadas de partidos políticos fazendo a definição de como deveriam ser nossos partidos políticos, eleições, funcionamento das casas, etc.

Qualquer que seja a solução, ela precisará superar essa ambiguidade jurídica.

A Solução Dilma

Desoneração é matéria legislativa. Não incumbe à presidência. Mas vários dos fatores dependem dos executivos (federal, estaduais e municipais). A falta de coordenação entre eles é o maior óbice para sua implementação. Mas medidas como controle de qualidade (e quantidade, claro) do transporte não dependem de um discurso presidencial. Dependem de mãos na massa.

Investimentos em saúde precisam ser analisados. Há casos em que há verba, mas não é utilizada. Ao menos não na saúde. Ou seja, de novo uma competência do executivo. No fundo, se analisarmos todas os problemas revolvidos pelas manifestações, vamos enfrentar uma grande quantidade de incapacidade gerencial. E, na sua esteira, falta de controles que mostrem à população quem é quem. Talvez porque não interessa a ninguém mostrar competência, para que não se elimine a possibilidade de alegar “motivações política” dos críticos (como fizeram os governadores de São Paulo e Rio de Janeiro).

Então, o que a presidente fez foi reunir imprensa e dizer o que todo o arcabouço de governos deveria fazer, à exceção do executivo federal. A Solução Dilma é ficar tocando o bumbo e gritando “remem!”.

Governança nos governos

Não se sabe o que ocorre, em termos de custos, nas contas do governo. Se a presidência quis esconder os gastos com viagens após denúncias o que não dizer de contratos milionários, com aditivos igualmente milionários? Se os transportes coletivos dão prejuízo, por que há tantos interessados?

A Lei 8.666 precisa de revisão, e já há muito tempo. Assim como precisam de revisão os procedimentos voltados a dar transparência aos atos e fatos dos governos contratantes. Licitações forjadas com ágio precisam ser eliminadas. Talvez daí já surjam os recursos necessários para o financiamento de tantas melhorias.

Impostos no Brasil

Não se falou nada sobre impostos, os pagos por empresas e pessoas físicas. Pagamos altíssima taxa de impostos, mas nossos serviços são de qualidade baixíssima. Esse descompasso deveria ser toda a tônica da reforma. Avanços na utilização dos recursos, em vez de financiamento de selos para as correspondências de deputados e senadores não entraram na pauta de ações da presidente. Em ano pré-eleitoral, talvez fosse mesmo utopia pensar nisso: de onde sairiam recursos para as obras eleitorais e eleitoreiras? E de onde sairiam as verbas para as emendas de deputados?

Utopias de quem quer ver tudo resolvido…

terça-feira, 18 de junho de 2013

Utopia que promete

Na democracia brasileira ainda jovem, os problemas já são crônicos. E os eleitores estão sem força, sem moral para enfrentá-los e resolvê-los. Ou estavam?

Embora todos saibam, é bom elencar algumas de nossas distorções.

Sistema político

Multipartidário, prolifero não em razão de ideologias, mas em razão de verbas públicas, seja diretamente aos partidos, seja para aqueles que detêm cargos em coligações. Oportunisticamente, agora o Congresso quer dificultar a criação de novos partidos.Hoje são 30 partidos, e as tentativas de Marina Silva em criar um novo que acomode sua candidatura está enfrentando resistências dos demais partidos.

Hoje o governo federal tem 39 ministérios. Alguns com a utilidade exclusiva de acomodar alguém de partidos coligados, para garantir os interesses do governo nas votações do Congresso.

É difícil imaginar uma quantidade tão grande de ideologias. Como matizes, poder-se-ia reduzir a quatro ou cinco, cada qual com suas correntes. Mas dessa forma não se atingiriam os objetivos (obviamente pessoais) dos políticos brasileiros.

Senado e Câmara dos deputados

O sistema no Brasil é bicameral, onde a proposta é uma casa regular a outra. Mas nossos senadores têm oito anos de mandato. Oito. Com que explicação? Precisamos de senadores com mandato tão longo?

Cada estado tem igual número de senadores. Isso quer dizer que no senado a divisão de poder pelos representados (eleitores) é tremendamente desigual. Senadores de estados poucos populosos têm o mesmo peso que senadores de estados muito populosos, o que transfere aos primeiros poder indevido. É justa essa desproporção?

Os trabalhos começam na terça. E se encerram na quinta. Essa agenda foi estabelecida por eles mesmo, pois parece que estar na “base política” é mais importante que as deliberações e votações.

A propósito, que deliberações e que votações? O Brasil esperou quase 30 anos pela votação do Novo Código Civil. Matérias importantíssimas estão aguardando regulamentação e/ou revisão, como é o caso atual da menoridade penal. Mas nossos representantes só se debruçam sobre as questões quer lhes interesse diretamente. E votam somente as causas que não lhes impute nenhum tipo de responsabilidade (ou acabe com alguma benesse).

O presidente do Senado mandou pagar dos cofres do tesouro o Imposto de Renda que a casa não retinha dos senadores. Seu poder, quase que absoluto, não tem contrapartida e suas ações se justificam por si mesmas. Quem é que tem poder para regular a ação dos deputados e senadores? Somente eles mesmos. Ou seja, amarramos o cachorro com a linguiça.

Infraestrutura de educação, saúde e segurança

A bolsa-família gera voto. Hospital e escola não. Por isso, o assistencialismo tomou conta do novo paradigma do poder. A distribuição de renda era necessária, assim como necessárias são ações efetivas no campo de educação, saúde e segurança, Mas estas últimas estão solenemente ignoradas, seja por qual partido for. A cada problema, aparece um querendo mais leis. Leis que os próprios senadores e deputados não geram.

A saúde, apesar de ser aclamada como uma das melhores do mundo, só o é no conceito. Pois não adianta ter fama e deixar que 25 bebês morram em 12 dias em um hospital público. A falta de médicos é notória, e o ministro da saúde vem prometendo agir, junto à Agência nacional de Saúde, para resolver o problema. Esquece-se de dizer: da Saúde Suplementar. Porque dos Hospitais do SUS, cuja situação já passou do ponto de desespero, não há ação, e nem menção. Mas explica-se: cada hospital SUS tem ligação com aliados, estejam eles no governo estadual ou nas prefeituras.

Sobre segurança, os últimos acontecimentos dizem por si. Policiais com agenda própria, acéfalos, atirando contra a multidão. Como pessoas com esse grau de (des)comprometimento podem agir eficazmente contra a marginalidade?

Corrupção

É de antes da ditadura essa percepção da corrupção, tanto que teve o candidato que “roubava, mas fazia”. Os partidos políticos dos últimos 16 anos no governo federal (PSDB e PT) sempre clamaram contra essa situação. Mas em vez de diminuir parece ter aumentado a parcela de pessoas que se locupletam às custas do dinheiro público. Seria por outro motivo que o Brasil buscou com tanto afã a realização dos Jogos Pan-Americanos, Copa e Olimpíadas?

Aliás, seria outro o motivo de tantas obras serem feitas, e as empreiteiras serem as maiores doadoras de campanhas eleitorais?

Vimos nesses anos muita gente sendo flagrada até mesmo ensinando a esconder o dinheiro indevido. Até nas roupas íntimas se flagrou político com dinheiro. Mas como entre bois não há chifradas, não existe punição.

De quem é a conta do superfaturamento? Mas quem se beneficia?

Descaso

A polícia derramando sangue em São Paulo e, na maior coincidência, governador e prefeito comendo brioches, quer dizer, estavam em Paris. O governador daquele estado pagando à superestrela do axé por um show em frente a um hospital desequipado. E ainda vocifera contra aqueles que o criticam.

Um dia, a nação se indignou contra um presidente, e a voz mais forte contra ele foi a de um ”trabalhador”. Eleito, esse “trabalhador” confraternizou-se com o então ex-presidente, mostrando muito fair-play (como parece gostar Blatter), muita cara de pau, ou muita necessidade política de apoio.

Coronéis

Resquício das capitanias hereditárias, o Brasil ainda tem seus feudos familiares. Sintoma da presença de algumas pessoas nos partidos políticos, algumas regiões ainda se encontram sem alternativas a pessoas que detêm o poder e dele se valem para sua eleição. E para defesa de seus interesses. E essas pessoas ocupam cargos de respeito, e deles se utilizam para mais… ganhos pessoais.

Não por acaso,esses coronéis são os donos das cadeias de comunicação de sua região: jornais, rádios e emissoras de tv. Já vimos como a mensagem bem trabalhada pode ser proselitista.

Sim, o povo os escolhe. Porque recebem deles empregos, terrenos, comida, pequenos subornos que causam dependência. Financeira, o que é pior.

Ressaca pós-ditadura

Aquelas pessoas que saíram da ditadura, tendo vivido seus horrores ou convivido com suas consequências, na prática tiveram dois momentos de exercício do poder de manifestação coletiva (sem considerar, claro, copas de mundo e outros eventos esportivos): o movimento Diretas Já e o impeachment de Fernando Collor. Todo  resto do tempo foi destinado a tentar sobreviver com a inflação galopante, ou tentando usufruir de sua extinção. Os anos FHC foram anos de trabalho árduo visando consolidação financeira. E os de Lula foram, fora os sustos internacionais, tentando não regredir nesse ponto.

O fato é que aqueles que tanto queríamos ver no poder lá estavam, diretamente ou por seus pupilos. E sua leniência aos podres da república nos fez acreditar que não havia solução alguma para nossos problemas.

Achamos que nossos doentes morreriam de qualquer forma, então não fazia diferença que hospital não houvesse. Por vezes, não havia equipamento. Noutras, não estava lá o médicos. Isso quando não faltavam todos esses elementos. Mas a saúde não emocionou o brasileiro. Nem a falta dela.

A falta de infraestrutura de educação foi, de certa forma, contornada pela classe média, através das escolas particulares. Não tinham mais a qualidade de outrora, mas eram infinitamente melhores que as escolas públicas. Na comparação, o brasileiro não se preocupou em cobrar mais educação. E mais qualidade na educação.

Na segurança pública, a impotência social foi decuplicada, se pouco. Lamentamos a morte do João Hélio, nos revoltamos com tantos assassinatos e violências gratuitas. Unimos-nos aos nossos amigos quando as vítimas nos eram próximas. Escondemos-nos em casa quando o crime, mais organizado que o governo, mandou fechar tudo. Escondemos e escondidos ficamos, reféns da falta de ação daqueles que nos deveriam proteger. A sociedade foi se recolhendo ao seu domicílio, ou foi à vida com medo. Mas a insegurança não tirou o cidadão de seu torpor. Não nos tirou de nossa posição passiva.

Quem sabe R$ 0,20 façam isso?

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Governador, contenha sua tropa!

Stanley Migram já mostrou que a capacidade de obedecer, mesmo quando a ordem é ilógica e irracional, tem mais a ver com quem assume a responsabilidade que com o mal que se causa.

Nosso governador Geraldo Alckmin, por ação ou omissão, está endossando toda e qualquer ação da tropa paulista de policiais militares. Pois cada um deles, submerso na multidão de iguais (PMs), acha que a responsabilidade não é sua, mas de quem os lidera. Ou não lidera, no caso. E cumprem ordens, dadas ou não. E usa seu repertório de rotina, que é o abuso da força que lhes empresta o uniforme, mas não só: também os cassetetes, as bombas, o spray de pimenta e as balas, não importa que sejam de borracha. A eles não importa que a maioria da multidão está desarmada, ou armada somente de vinagre defensivo. O fato é que esse repertório da tropa está caduco, é anacrônico, e é imoral. Mas a crença de que o seu chefe supremo, o governador e seu staff, apoiam essa ação fora de medidas reforça esse comportamento como válido. E os policiais acham que, cumprindo o que imaginam ser ordem, estão fazendo o bem.

Ou não. Sabem ser errado, mas não é sua responsabilidade. Ora, então que quem tem a responsabilidade que a assuma.

Aqueles que deveriam agir para proteger a multidão a atacam. Cumprem ordens, como os soldados de Hitler alegaram em Nuremberg. Arrependimento nenhum. Resta o sorriso sádico daqueles que portam armas. Com balas!

Ao vinagre, que se tornou o símbolo desse imbróglio, irão os votos de Geraldo Alckmin, justificando, portanto, diluir esse ácido perigosíssimo.

Abaixo, um pedaço da experiência de Milgram.

domingo, 16 de junho de 2013

O governador Alckmin e sua polícia orwelliana

O governador afirmou que vai apurar “eventuais excessos” da polícia paulista nas manifestações. Tentando dizer “ se houve” algum excesso…

George Orwell descreveu a polícia em 1984 da forma mais fiel à realidade, a Polícia das Ideias. Mas, como crime não havia, essa polícia cuidava somente de oprimir, buscando patrulhar inclusive pensamentos. No estado de São Paulo crimes há, e aos montes. Não só pequenos crimes, mas também os imensuráveis. A polícia é inepta para enfrentá-los, sejam do tamanho que forem. Mas enfrentar manifestantes é diferente, é a ocasião propícia de achar os “inimigos” agrupados, sendo desnecessário até mesmo mirar.

Geraldo Alckmin não viu problema no comportamento da polícia. Com seu discurso, suas ações e, principalmente, suas omissões, reforça o comportamento de um grupo várias vezes mais poderoso que o dos manifestantes. Com armas de efeito moral, esse grupo é imoral na sua utilização: manifestantes, transeuntes, o cidadão que está em casa, todos são alvos. Fáceis, diga-se.

O comandante dessa tropa deveria ser o governador do estado. Mas os acontecimentos mostraram que poderia não haver comando algum. Desde a agressão gratuita dos que andavam até a destruição de patrimônio público, a polícia parece que se divertiu em mostrar seu poder àqueles que clamavam por ausência de violência. Pedindo, portanto, para que ela eclodisse?

Alckmin tratou logo de acionar seu Ministério da Verdade (secretaria, no caso). Maquiando os fatos, faltou somente negar a presença da polícia, acreditando que acreditaríamos. Como na guerra a primeira baixa é a verdade, não se furtou em apresentar sua versão dos fatos. Claro, tão logo voltou de Paris. Mas o Big Brother que imaginou Orwell evoluiu nesta nossa verdade, e as teletelas estão presentes também nos smartphones dos manifestantes, que filmaram e fotografaram os desmentidos ao que afirmou o governador. A polícia batendo e perseguindo manifestantes. A contraprova necessária, a dos manifestantes em baderna, não foram apresentadas pela polícia ou pelo governador.

Mas voltando à questão do comando, concluímos que a violência é, conceitualmente, decorrente de opção do governador. Se não por ordem direta nesse sentido, pela falta de ordem direta contra. Se o comandante não age, nem ao menos reage, a tropa tende a repetir sua violência. Mário Covas deve estar se revirando no túmulo vendo seu pupilo tão à mercê.

Em meio aos manifestantes, parentes e amigos nossos. Ou no seu caminho, o que os torna, ao menos aos olhos da polícia e do governador, baderneiros e criminosos, merecedores no mínimo de agressão por cassetete, se pouco.

Sim, este desabafo tem motivação política. Pois sou eleitor do nosso atual governador, e ele esta rasgando o compromisso comigo com esse patrocínio da covardia.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A preguiça essencial

A preguiça é a mãe do progresso; se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.

Mário Quintana

 

É verdade que muitas das grandes invenções foram por acaso ou por vontade de deixar a vida mais fácil. Deveríamos seguir essa máxima em nossos relacionamentos interpessoais (com o perdão ao Shinyashiki pela apropriação do título).

Senão, vejamos.

Quando temos à frente uma pessoa que defende suas ideias de forma obstinada, emocionada, apaixonada, dificilmente teremos sucesso em apresentar a ela um argumento oposto. Não digo nem convencer, que é uma utopia nestes casos. A simples menção de alguma discordância coloca essa pessoa em alerta, e aí a razão sucumbe.

Essas pessoas se dizem autênticas, de opinião firme, convictas. Na verdade, acho que beiram a falta de educação, pois não é raro que nem ouçam argumentos contrários à sua posição. Contra argumentos não fatos, disse o poeta. Então, entrar numa discussão com pessoas assim, no auge da paixão, me dão uma tremenda preguiça psicológica. Além do que mostra a experiência que não adianta.

Assim, mesmo por preguiça, é melhor deixar que a temperatura esfrie, que os ânimos se acalmem, e que a pessoa baixe sua guarda nesse assunto. E, tal qual um predador, quando ela menos espera, terçar um argumento que a faça conversar sem contaminações.

Algumas pessoas são mestres nisso. E conseguem muito mais convencimento que aquelas que, ofendida a sua verdade, partem para o ataque, atacando e revidando argumentos viscerais e nada racionais

Claro que não estou falando daqueles momentos em que a busca da verdade se impõe. Pois há esses momentos, em que a verdade exige sair à luz, precisa ser desvendada. Mas a tensão envolvida nessa exploração é grande, pois cada um tem sua verdade, pode ser que nenhum esteja errado, como naquela estória clichê dos cinco cegos e o elefante.

Mas também há os momentos em que é preciso deixar passar, em nome de algo melhor. Nada de passar para sempre, mas para depois. É a preguiça a favor das relações interpessoais.

Não é que não devamos dar murros em ponta de faca. Mas, ao menos, escolhamos as facas que valem a pena ser esmurradas.

Tinha mais para escrever, mas deu preguiça…

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Felicidade é uma decisão, um estado de espírito

Há aqueles que nunca estão satisfeitos, e não ser permitem isso. Acham que a vida é uma cenoura atrás da qual se deve correr sempre, e por mais que conquistem, querem sempre mais. Não estão errados, o objetivo do ser humano deveria ser sempre a conquista do algo mais, do quilômetro extra, do mais um pouquinho. Seja o que for esse mais: material, conhecimento, reconhecimento.

Mas há aqueles que, consolidada a conquista, não desfrutam de seus benefício, nem mesmo dos psicológicos. Porque conquistar uma meta pode ter nenhum componente financeiro, mas somente aquele gostinho especial de chegar aonde queria. Dentre estes, há uma parcela que se diz infeliz…

E há aqueles que não atingem metas, aqueles para quem a vida não é fácil. Não andam de carro importado, nem ao menos novo, não viajam ao exterior, talvez nem à praia. Sacolejam por horas, de manhã e à noite, para ir e vir do trabalho. Não têm bônus de desempenho, não têm vaga na garagem. Têm, com exceções, plano de saúde e vale-alimentação, e a vida não lhes sorri com muita frequência. Ainda assim, há uma grande parcela destas pessoas que se dizem felizes.

Pois eu acho que é isso mesmo: a felicidade não se traduz exclusivamente e conquistas, ou a questões financeiras. A felicidade deveria ser – e é, efetivamente, para algumas pessoas – um estado de espírito. É o exercício solerte da arte de olhar o lado bom, de enganar a dureza da vida, de encontrar motivos para rir e sorrir. É uma posição a priori, é uma atitude, é a firme decisão de alguém que não deixa que as pedras o afastem do caminho.

Um dos maiores exemplo de felicidade por decisão que já vi o do piloto Alex (Alessandro) Zanardi.Depois de perder as duas pernas num acidente da Fórmula Indy, teve forças para confortar a esposa ainda no hospital, e ainda ganhar medalha de ouro em uma competição de ciclismo para amputados anos mais tarde.

Alguns, perante a adversidade, se encolhem a uma fração do que realmente são, e soçobram aos problemas, às dificuldades, às angústias. Outros, sem se importar com as dificuldades, resolvem, escolhem ir em frente e mudar a realidade que se lhes apresenta. Ou seja, tomar a mais sábia decisão, a de ser feliz. A despeito de…, sem se importar com

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Estamos ganhando?

Crescemos e vivemos com aquela ideia, que nos acomete de forma muito natural, de que a raça humana evolui, está evoluindo e continuará assim, de forma que um dias as iniquidades inerentes a classe, cor, etc., sejam somente uma má lembrança.

Vivemos nessa crença de que o bem sobrepujará o mal, pois é a noção que nos foi inculcada desde a mais tenra infância, e que nos serve de lenitivo nas nossas crises existenciais.

Mas a pergunta se impõe: estaremos ganhando essa guerra? Será que o bem prevalece mais hoje que há 100 anos, por exemplo? Será que o mal sucumbe como as doenças infecciosas cederam aos avanços das ciências?

Não é uma resposta fácil e não há resposta certa ou errada.

Como se sabe, “bem” ou “mal” são avaliações subjetivas. O que é “bem” para uns pode ser mortalmente “mal” para outros. E há, ainda, aqueles que se situam, em diversas situações, na parte neutra da avalição: nem bem, nem mal.

Não transitamos pelo acostamento, não avançamos a faixa de pedestres. Jogamos o lixo no recipiente de cor certa, não sujamos a rua. Isso, para alguns, é “bem”. Para outros, que fazem essas coisas, pode ser nada, bobagens dos politicamente corretos.

Mas, assumindo-se que sejam bobagens, vamos a outros exemplos: não aceitamos propinas e não as oferecemos. Recusamos negócios escusos, e denunciamos aqueles que encontramos. Não colocamos nossos interesses acima dos interesses coletivos, e agimos sempre com base em valores aos quais aderimos firmemente.

Não, não é assim. Nos casos mais drásticos (propinas e denúncias), pode ser que ajamos assim mesmo. Mas os pecadilhos do dia-a-dia, ah, estes são os que nos assombram. Baixar músicas e filmes pela internet, mentir para pais e filhos, guardar o troco dado a mais, fazer aquela conversão em local proibido, parar “por um minutinho” em vagas de deficientes e idosos… Numa análise distanciada, essas coisas pareceriam daquelas a serem evitadas. Entretanto, convivemos com elas, seja em nossas ações, seja nas de pessoas bem próximas.

Na medida em que aceitamos que as coisas erradas (ao menos consideradas assim há alguns anos), estamos perdendo a guerra. Isso se reflete nos inúmeros exemplos de falta de respeito a professores e aos mais velhos, na falta de cerimônia com as coisas sérias, na falta de compromisso com a pessoa. Perdemos, e deixamos que pessoas queridas percam batalhas dessa guerra contra o mal.

A sensação mais forte é a de que a multiplicação da quantidade de pessoas na Terra afrouxou nossos valores, que estão se adequando na direção de aceitar coisas que nossos avós se esforçaram muito para que não permitíssemos. A luta de determinada classe profissional, que fecha ruas, agride pessoas, e destrói bens, que muitas vezes apoiamos, é um exemplo de como essas “coisas erradas” estão relativizadas.

Mas essa é uma guerra de pessoas unidas por um ideal, não por proximidade, raça, religião. Essa é uma guerra que só pode ser vencida com um verdadeiro pacto social e, mais, moral. É uma guerra de consciência, não de força bruta.

Até o momento, estamos perdendo. Aqueles que seriam crianças há cem anos estão matando. Os políticos já nem pejo têm, assumiram o lado sujo como se fosse o único. Compramos embalagens, mesmo que os produtos sejam ruins. E nos mobilizamos por futilidades, indo às ruas protestar por qualquer coisa, em vez de protestar pelas coisas certas. Opção de cada um? Verdade. cada um faz o que quer. Parece mais uma entropia comportamental, que nos levará, indefectivelmente, a uma crise da qual teremos de sair maiores, e com o ideal do “bem” renovado.

Mas estamos perdendo…

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Menoridade penal: a quem estamos protegendo?

Em sua coluna de 05/05/2013 (aqui, para assinantes), Elio Gaspari defende a adoção de algo como “Second Strike” para os hoje menores de idade. Pela ideia, baseada nas leis dos “Three strikes and you are out” americanas (Três chances e você está fora, na tradução do próprio), o menor de idade que cometer um segundo crime será tratado como adulto.

Meio-termo entre a menoridade aos 16 (mudança desejada por 93% dos paulistanos) e 18, como é a atual legislação, a proposta é inteligente e tentadora, no sentido de estabelecer uma terceira via na discussão apaixonada que se iniciou nos últimos dias.

Mas há fatores a considerar para enriquecer a discussão.

O menor de 18 anos é considerado pela lei penal como inimputável. Ou seja, ele não existe aos olhos dessa lei de 1940, remendada de lá até hoje pelos nossos laboriosos representantes legislativos. Resta a abordagem paternalista e inadequada hoje adotada, acreditando os políticos que a mudança de nome de FEBEM para Fundação Casa resolvem magicamente os problemas.

O fato de ser menor de 21 anos (e acima de 18, óbvio), na data do ato criminoso, é considerado pelo Código Penal como circunstância atenuante, sendo esse fato considerado pelo juiz singular para redução da pena.

Então, de um lado, os menores de 18 anos não têm punibilidade pelo Código Penal, e até os 21 a têm de forma reduzida. E as pessoas reclamam de crianças que se comportam mal nos shopping centers, dizendo que os pais não lhes dão limites.

Àqueles que defendem as condições sociais dos criminosos-mirins, seria conveniente lembrar que outras crianças/adolescentes, nas mesmas condições, ESCOLHERAM não delinquir. Passam pelas mesmas necessidades, pela mesma falta de estrutura familiar e pela mesma falta de oportunidades, mas resolveram que trabalhar é o caminho certo. E se sacrificam, por horas a fio, no trajeto para/do trabalho/casa, acreditando que o trabalho os diferenciará, não o cano de um revólver, fumegante ou não.

E é bom que lembremos, ainda, que a maior parte dessa população que estamos considerando mal amparada pela sociedade é composta por gente do último tipo, ou seja, estudantes e trabalhadores que não se entregaram à violência. Mas que são vítimas dela. E em grande número. São as vítimas de furtos e roubos, pequenos ou grandes, são as vítimas das chacinas do tráfico. Não punindo os delinquentes, expomos os estudantes trabalhadores a eles. Que noção de justiça será esse?

E há o fato de que os que roubam não são somente esses de vida menos favorecida. No caso da dentista morta por fogo, um dos rapazes usou o carro da mãe, um importado nada barato. O que dizer, neste caso, da falta de oportunidades?

Não defendo a menoridade aos 16 anos. Defendo que o juiz, ou uma junta, ou seja lá que mecanismo for, avalie se o indivíduo entendia ser criminosa sua ação, e mesmo assim a perpetrou. Vá lá, concedo essa proposta do Gaspari, pois ele mesmo a justifica: raramente o primeiro crime é um de grande potencial lesivo.

Nossas famílias, nossos amigos, amigos de amigos e familiares, enfim, essas pessoas que trabalham para pagar por seus desejos, sejam eles o que forem, estarão à mercê dos nossos “protegidos” se nos deixarmos envolver pelo paternalismo. Há situações que precisam ser mudadas, de fato. Mas não apagará os atos e as dores que esses criminosos precoces nos causaram. E que, infelizmente, não parece ter um horizonte de diminuição…

terça-feira, 30 de abril de 2013

Se a vida te der um limão…

No afã de ajudarmos, acabamos sendo impositivos. Nossa experiência fala alto, mas fala mais alto nossa inexperiência quando nos deparamos com um problema.

Explico: aos problemas que já enfrentamos, temos a tendência de repetir a solução adotada. Não porque seja, comprovadamente, a melhor. Simplesmente porque é o caminho já percorrido, é o conhecido. Variamos quando o vírus do arrependimento já nos abatera, e mudamos com a segurança do jogador de pôquer: nenhuma. Mas é inerente ao ser humano essa tendência de evitar o desconhecido.

E, nessa tendência de vida, acabamos por tentar influenciar os que nos rodeiam. Se nossa solução foi fugir, recomendamos a fuga. Se foi brigar, incentivamos a peleja. Dificilmente nos colocamos no lugar do “ajudado” e ponderamos, racionalmente, qual é a melhor solução para as suas circunstâncias. Aliás, dificilmente nos permitimos questionar nossas próprias decisões, talvez temendo nos flagrar em erro, ferindo de morte nosso ego sensível.

Mas não é anormal esse comportamento. Como o gato escaldado, evitamos aquilo que nos causou sofrimento (ou medo), para embarcar tranquilos e ignorantes no iate do comodismo.

Muitas das diferenças ditas de opiniões não são somente a exteriorização de temores que carregamos em nosso inconsciente.

Com isso, lidamos com frequência com pessoas que têm todas as soluções, embora não saibam quais são exatamente os problemas. E, desdenhando de sua condição, acabamos por sentar em nossa cauda de nossa própria porção de salvadores do universo, papel que encarnamos com mais frequência que nosso senso de ridículo gostaria de admitir.

Pais e filhos, cônjuges, colegas de trabalho, todos têm essa obnubilação na percepção. Daí que achar que outra parte está tentando impor sua opinião/experiência é o mais normal dessa vida comunicativa. Imposição essa que é um fato em diversas áreas da vida, não devendo ser justamente na questão do trato pessoal. E é esse justamente o ponto de encontro dos problemas.

Como se diz, para a bactéria, a penicilina é um veneno. Como podemos querer saber então a verdade de outrem?

Ah, se a vida te der um limão… não sei! Se você gosta de limões, o sábio ditado popular perde todo o sentido, certo?.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O mito da menoridade penal

No Brasil, o critério é cronológico. Assume-se que o menor de idade não tem condições de entender a reprovabilidade do seus atos.

É um mito. O “menor”, assim entendido aquele com menos de 18 anos, tanto entende seu ato como até o pratica para proteger seus comparsas, ou é por eles escolhido justamente por essa característica. Ele sabe que a demonstração de reprovação que vai receber é, comparativamente, menor que a dos “maiores”, e usa isso como argumento social para se aproximar do bando e prevalecer no crime.

O menor, aquele que queremos proteger, inexiste naquele que friamente atira na vítima indefesa, algumas vezes até mesmo sem reação. Este que atira e mata sem titubeios não é mais merecedor de proteção, senão de punição. Romanticamente, pode-se defender que suas oportunidades de vida não foram a que merecem qualquer criança. Que sua estrutura familiar, se existiu, não atendeu às necessidades mínimas que se espera para qualquer criança e adolescente. Mas considerações dessa espécie não mudam o fato de que, transformado ou mal-formado, ele decidiu-se por um caminho sem volta. Afinal,  depois de ter matado um, o que o impedirá de matar mais? E ainda mais se a punição, se é que pode chamar assim, será uma mal sucedida tentativa de proteção?

Sim, queríamos todos que nossas crianças e adolescentes ainda desfrutassem daquele ímpeto juvenil de se divertir e crescer feliz. E queríamos, também, que cada pai e mãe (e professores, parentes e adultos em geral) assistissem-nos na formação do caráter dessas crianças e adolescentes mostrando-lhes limites.

Mas que limites seriam esses? Às brigas com irmãos responderíamos com veementes e longos sermões. Às suas traquinagens, castigos como aqueles de nossa infância: sem sair, sem brincar, sem internet… Mas, no evento assassinato, uma provação relativa de liberdade, em um prazo mínimo, ensinando-os o quão banal é a vida, em especial a tirada de outrem. Protejamos aqueles que nos ameaçam, é a lógica de nossa lei.

Sim, carece saber: quantos se recuperam? Mas carece também arguir: quantos assassinos se recuperam, perto de quantas famílias de vítimas que não se recuperam?

A lei precisa se complementar com processos de atenção a essas crianças e adolescentes em formação. A sociedade os largamos à sua própria mercê e, quando a conta chega, queremos lavar nossas consciências com mitificações de que a inocência ainda pode ser resgatada. Infelizmente não pode. Assim como a vida tirada.

É urgente que nossa legislação (principalmente a constituição) adote outra forma de interpretar a condição de punibilidade desses criminosos, adultos ou adolescentes. Se o autor do crime entende a reprovabilidade do fato que pratica, ou seja, sabe ser errado e reprovável, e o pratica mesmo assim, deve ser punido. Como aliás é o sistema de países mais desenvolvidos que o Brasil.

Perdoem-me os puristas, mas a menoridade não deveria existir. Deveria existir a avaliação da condição de desenvolvimento mental. Isso não trará de volta aquelas vítimas pranteadas, e talvez nem mesmo evite novas vítimas e novos prantos. Mas afinal, estamos falando do poder-dever do estado em promover a punição daqueles que praticam atos ilícitos e reprováveis. E me parece que reprovável mesmo ´´e essa nossa lei, que protege nossos predadores.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O poder da diferença

Da discussão nasce a luz.

Ptolomeu

 

No campo pessoal, tendemos a procurar pessoa que têm afinidades conosco. Gostar das mesmas coisas, partilhar um esporte, preferir uma bebida, sempre são pontos de partida para uma amizade. E, para casar, dizem, essas afinidades são essenciais.

Na vida profissional, as pessoas tentam se aproximar de pessoas com as quais também tenham afinidades. Mas como não se pode sempre escolher um colega de trabalho, as pessoas com diferentes opiniões se aturam, na medida em que necessitam, ao menos, manter as aparências na empresa.

Há um ditado que diz que “religião e futebol não se discute”, referindo-se, claro, àqueles que torcem por times diferentes ou que têm fé em religiões diferentes.

O fato, triste, convenhamos, é que a falta de contato com a diferença nos fez perder, ao longo do tempo, a habilidade e disposição para argumentar na discordância. A discordância evoca imagens de confronto, enfrentamento, discussão acalorada. É o início do conflito, parece ser como é percebida a discordância.

O fato é que a diferença é a base da evolução de nossos conceitos. Sem expor os porquês, não temos acesso ao seu contraditório, sem o que nosso posicionamento depende apenas da posição cartesiana da dúvida sistemática para evoluir. Posição essa que nem todos têm vontade e talento para exercer.

Lembro-me de uma dinâmica de grupo em que um grupo tinha de defender uma ideia e o outro atacá-la. O tema era o aborto. Os grupos eram escolhidos pelo posicionamento em relação ao tema. Depois de uma grande discussão, onde os grupos ativamente defendiam sua posição real, os grupos recebiam o comando de inverter a posição. Quem defendia passava a atacar, e vice-versa. O objetivo era fazer com que o indivíduo pudesse mentalizar uma possível explicação e argumentar com base nela, mas na posição contrária à que acreditava. Embora polêmico, na hora da virada todos assumiram seu novo papel e puseram-se a argumentar. Menos uma pessoa, que afirmou que nunca defenderia a posição contrária, e retirou-se.

A cena foi muito forte e ajudou o grupo a entender a dinâmica proposta. A pessoa que se retirou se negou permissão para sequer pensar nos argumentos da outra parte. E, com isso, nem discussão houve. Exploramos, os sobreviventes, ao máximo essa ideia. Tentar entender o “diferente” para que possamos somar, em vez de negar oportunidade ao entendimento.

Estamos acostumados a viver, isolados, cada qual a sua tese. Não permitimos mais a antítese, entendemo-la como insulto. Nesse contexto, como se esperar que novas e mais sólidas teses surjam?

Abdicamos da discussão saudável. Gritamos nossas razões, seja pela internet, seja pela nossa omissão, seja pela ação exacerbada. E esse grito é tão estridente que nos impede de ouvir outras razões. E o outro lado, nessa gritaria, se vê obrigado a também gritar, tentando ser ouvido. Como resultado, todos gritando e ninguém se entendendo.

Política, futebol, religião: tudo isso é feito por grupos diferentes. Que se negam a ouvir um ao outro, e na verdade nenhum desses grupos está preocupado em se fazer ouvir, na sua necessidade de se impor. E vai daí que vivemos nesse mundo de surdos que não querem ouvir, gritando nossas próprias verdades esperando que todas as ouçam.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

As amizades Tambaqui - Republicação

No Livro da Jângal, Kippling narra uma deliciosa estória sobre animais indianos. E tem os nobres e os não tão nobres. Dentre estes, o Tambaqui, que vem a ser a hiena que borboleteia Shere-Khan, o tigre vilão.
Sabemos da amizade que a hiena tem com os tigres: ela se apodera das carcaças deixadas pelos tigres, roendo o que sobrou dos ossos. E é tão somente isso a amizade entre eles. Enquanto há osso, há amizade.
Na crueza da vida, temos vários desses amigos-Tambaqui. Quem nunca reparou que há amigos que se aproximam nas horas boas, jurando amizade eterna e que somem na hora da necessidade?
Numa era em que são poucos os afortunados, e em que o tráfico de influência é grande, é de se esperar que as hienas se aproximem, não somente dos tigres, das de qualquer um que lhes dê oportunidade de roer ossos, ou mais, que lhes permita sair dessa vida. As hienas não querem trabalhar, não querem construir, querem pronto para desfrute, e apostam nas amizades, espúrias ou não, para lhes proporcionar essa vida.
É pelo espírito do Tambaqui que aconteceram grandes escândalos nacionais: o irmão do presidente, a esposa do vice-prefeito, o presidente do partido… todos que tinham seu quinhão de osso, e mais, mas que foram contrariados com a subtração desse óbolo. Viraram, então, em inimigos mortais, negando a amizade recém-finalizada.
Não dá para saber quem são, infelizmente só se descobre esse tipo de amigo quando eles somem. E, quer saber? Melhor mesmo que sumam.