sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Esse trânsito me mata!

Logo que se aproximam feriados prolongados, cresce a expectativa pelo trânsito nas estradas. Sabe-se que muita gente vai morrer ou se ferir em acidentes nas rodovias do país. E as estatísticas, com variações para menos ou para mais em relação às anteriores, confirmam a tragédia: muitos mortos, outro tanto de feridos.

Mas a ação que está em tela é a do consumo de álcool. Inegável que há uma relação, mas é de se perguntar: será que há um “monopólio” causal? As notícias dos acidentes vêm acompanhadas pela informação de que o motorista fez ou não o teste do bafômetro. Mas de forma geral, há a informação de que um dos envolvidos desenvolvia alta velocidade ou foi negligente. Ênfase, entretanto, somente para os casos da bebida. O que me faz lembrar da piada sem graça do cientista e da aranha.

Um cientista fazia experimentos com aranhas.
Ele pegou uma aranha, e falou:
- Anda aranha!
A aranha andou.
Então o cientista arrancou uma das pernas da aranha e falou novamente:
- Anda aranha!
A aranha andou. A seguir, ele arrancou outra perna da aranha, e ordenou novamente:
- Anda aranha!
A aranha andou, com certa dificuldade.

Uma a uma, ele foi tirando as pernas da aranha, e ordenando que andasse. Cada vez com maior dificuldade, a aranha andava.
Até que o cientista retirou a última das pernas da aranha, e ordenou novamente:

- Anda aranha!

A aranha não se moveu.

O cientista ordenou novamente:

- Anda aranha!

A aranha não se moveu.

E o cientista concluiu que, sem as pernas, a aranha não escuta!

O fato é que o motorista bêbado mata, mas também porque o carro transforma-se numa metralhadora giratória em suas mãos. Qualquer carro tem potência suficiente para atingir grandes velocidades, mesmo os sucateados, e o fator velocidade deve ser considerado como um dos componentes dessa matança.

O Brasil tem estradas onde a velocidade máxima, em algumas poucas, chega a 120 km por hora. E isto são somente as melhores, em trechos selecionadíssimos. Nas demais, velocidades máximas de 110, 100 e 80 km por hora. Mas os carros vendidos atingem velocidades duas, três vezes mais que 120 km por hora. A pergunta é: porque a disparidade? Se é 120 km/h o máximo que se pode desenvolver, porque há carros muito mais velozes?

Infelizmente, nossos representantes legislativos não se ocupam desse tema. Ao volante de seus carros oficiais, de placas de bronze, para os quais não há velocidade, não há regras de ultrapassagem ou estacionamento, limitar a velocidade dos veículos poderia ser somente um atraso, literalmente, de vida.

Propagam-se virtudes de veículos que vão “de 0 a 100” em poucos segundos. E para que precisamos disso? Para que, sóbrios, cidadãos ao volante dessas máquinas abusem da velocidade e arrisquem sua vida e de outros pelo caminho. E para outros, alcoolizados, transformem esses bólidos em armas mortais, normalmente atingindo, em alta velocidade, cidadãos que transitam alheios ao perigo que a irresponsabilidade alheia lhes causa.

Em dois casos recentes, automóveis em alta velocidade atingiram outros e causaram mortes. É de se especular se as mortes teriam ocorrido se a velocidade fosse menor. Sim, com certeza ainda haveria avarias e até mesmo ferimentos. Mas a letalidade poderia diminuir e muito.

Em nossas estradas, povoadas de radares, já não se vê a polícia rodoviária. Com algumas exceções, esta se posta em lugares estratégicos (conhecidos) e ostenta sua presença, na (vã) esperança de isso seja intimidatório o suficiente para que todos dirijam mais conscientemente. Prova da ineficácia disso é o posto da polícia rodoviária da Rodovia dos Bandeirantes, sentido interior, logo na saída de São Paulo. Passagens em alta velocidade e ultrapassagens pela esquerda são bastante comuns ali, e basta ficar ali por quinze minutos para comprovar que nem o posto da polícia os motoristas respeitam mais.

Caminhões em alta velocidade são o cenário normal. Hoje, a 110 km/h nessa mesma Rodovia dos Bandeirantes, já próximo ao Rodoanel, um caminhão me ultrapassou (pela direita) e rapidamente me deixou para trás. Bem à frente de uma câmera de vigilância da concessionária.

E a velocidade e irresponsabilidade não são privilégio dos caminhões, é democrática: carros “populares”, sedans de luxo, SUVs, carros sucateados, todos se sentem na obrigação de correr e ultrapassar pela direita.

A fiscalização, como se disse, não existe ou é somente burocrática. Em épocas de festas ela aumenta, sem aumento proporcional de eficácia. É preciso mais.

A questão “dirigir após ingestão de bebidas alcoólicas” está bem encaminhada. O que falta agora é coragem. A coragem de limitar a velocidade dos automóveis e coragem para punir centenas de motoristas que fazem das estradas (e ruas) uma roleta russa, apontando seus carros para os outros e atirando. Eventualmente o tiro sai pela culatra. Mas normalmente são os outros que recebem o tiro sem misericórdia.