sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Sr. Governador Geraldo Alckmin: sobre a segurança em São Paulo

Em primeiro lugar, que fique claro: o senhor teve meu voto.

Suas declarações sobre a violência reinante em São Paulo, entretanto, deixaram-se na dúvida se foi bem dirigido esse meu voto.

Seria mentira dos órgãos de comunicação toda essa quantidade de assassinatos? Será que TODOS se uniram numa conspiração ardilosa para inventar uma crise de segurança? Será que os corpos, fotografados e filmados, são mera encenação? A julgar pelas declarações de representantes do governo, sim.

Então é isso, governador, que se espera da confiança em si depositada? Que o transformemos em contador de histórias, uma espécie de Forrest Gump governamental ? Que transforma os fatos em belos contos da carochinha, embelezando-os na medida de sua vaidade?

Eu me sentiria muito melhor, governador, se o senhor reconhecesse a crise. Pois do reconhecimento poderia (ênfase: PODERIA) vir uma ação corretiva. Mas se essa ação corretiva é apenas uma hipótese na aceitação do problema, ela parece ser uma impossibilidade no seu não reconhecimento. Afinal, se não existe problema, para que agir?

Há os que agem assim, governador. Negam o(s) problema(s) acreditando que isso os resolverá. Houve até aquele que “denunciou” que o Holocausto não existiu… Mas nem mesmo magicamente os milhões que nele sucumbiram voltaram à vida. Mas esse autismo fático não poderia ser traço de comportamento de alguém que, institucionalmente, representa milhões de pessoas. Essa miopia dirigida, escolhendo somente enxergar coisas boas, é comum aos escritores de auto-ajuda, que não seu caso.

Receio, governador, que passemos a ouvir discursos de que a saúde vai muito bem, obrigado. Que no estado de São Paulo ninguém mais morre de câncer, ou que os hospitais atendem, em menos de cinco minutos, aqueles que os procuram. E, como tal, que escolas têm vagas para todos, e que todos saem delas aptos para vida, com um aproveitamento excepcional, o suficiente para acabar com o desemprego no estado. Mas sabem os que vida é muito mais cruel que a vocação do governo em embelezar coisas.

Neste ponto, em que praticamente metade de seu mandato atual se completa, arrependo-me amargamente de meu voto. Gostaria que existisse um dispositivo que me possibilitasse retirá-lo e oferecê-lo ao seu concorrente. Mas o jogo democrático não é assim. Diz ele que, com o meu voto, passei-lhe um cheque em branco, pelo período de quatro anos. Mas, governador, quatro anos ouvindo que o rei não está nu parece-me um tempo longo demais. parece-me que esse fair play é ameaçador demais para nossa condição. Aceitando placidamente seu cruzar de braços pode fazer com que eu mesmo entre na linha de tiro da violência. Ou, menos egoísta, nos impedirá de fazer com que vidas sejam desperdiçadas. Tudo porque um muro foi construído para que a rainha não veja a favela…

A julgar pelo andamento dos fatos, senhor governador, minha disposição é de não mais confiar no que o senhor diz (ou seus assessores). Sim, ingenuamente ainda tinha essa visão. Mas os recentes fatos e versões me mostram que, não importa quem ocupe a cadeira, os discursos são motivados exclusivamente por interesses partidários e (contra)propaganda.

Por isso, senhor governador, no que depender de mim, o senhor não terá outra oportunidade em cargos eletivos. E nem fará seu sucessor.

Minha utopia de democracia me leva a confiar, cegamente até, que um dia ainda elegeremos alguém corajoso, que coloque os interesses comuns acima dos interesses estamentais. Que o projeto político seja o do bem comum, não o projeto de poder pelo poder.

Ainda assim, senhor governador, apelo à sua propalada veia pública: faça o que tem de ser feito. Mostre para nós que o senhor sabe que o problema existe, e que ele deve ser enfrentado. Como disse aquele filósofo de seu partido, “não se apequene” diante da crise. Reaja. E, por favor, não insulte minha inteligência. Estamos vendo o que está acontecendo. Negar os fatos, prezado governador, somente me aprofundará a sensação de que desperdicei meu voto.

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