quarta-feira, 6 de junho de 2012

A cômoda impotência da sociedade

No processo do impeachment de Collor, a sociedade saiu às ruas, de caras-pintadas ou de camiseta preta, para protestar contra a situação. Mas não foi isso que fez o presidente ser cassado. Senão, teriam sido cassados outros próceres envolvidos em tantos escândalos desde então.

O fato é nem as Diretas Já tiveram o desfecho que a grande maioria queria. A opinião popular foi derrotada no Congresso pelos… seus representantes.

Os representantes do povo, investidos como tais, tratam de representar seus próprios interesses. E a de seus compadrios, estejam onde estiverem. Assim, votam enfurecidamente seus aumentos de salários, suas equiparações com outros poderes, tudo que se relacione a seus privilégio. Enquanto o Projeto do Código Civil passou décadas para ser aprovado, e o foi já com um tanto de anacronismo em suas letras.

Aliás, se dependesse da quantidade de pendências legislativas, a semana legislativa não teria três, mas trinta dias por semana. Sob a desculpe de estar com suas bases eleitorais (seja lá o que isso significa) o Congresso se transformou numa espécie de clube, ao qual se vai para defender interesses próprios ou (mal) cumprir uma obrigação.

E a sociedade?

Acidentes de trânsito matam em níveis absurdamente altos. Decorrência direta de abusos de velocidade, de bebida e de irresponsabilidade. Cada vez que um acidente grave chacoalha a nação, surgem umas vozes, mal abafadas, clamando por melhorias. Vozes que logo se calam. Legisladores e governantes se omitem, a barbárie continua, e mais e mais mortes é o que se pode esperar.

E a sociedade?

O tráfico de drogas chega a ser um poder, clandestino, mas de presença maior que o estado. Afinal, procure-se um deputado ou um governante, e raríssimo será achá-los. Mas procure um traficante, sempre haverá quem indique um. E, nesse ponto, a contradição da sociedade é doída. Ao tempo em que criticam e atacam o tema “drogas”, faz passeatas pela legalização da maconha, o que, presume-se seja consumido por esses defensores. Como não é legal, de onde se compra? Dos traficantes, por certo. Esquecem-se aqueles que consomem a droga que ela é provida pelos mesmo traficantes de cocaína, de heroína, de crack, e de tantos outros males, inclusive a violência de assaltos, que às vezes terminam em mortes.

E a sociedade?

Nossos representantes, sejam eles legisladores, sejam governantes, têm vida muito calma. Amealham seus bens em nossa representação, e ninguém lhes cobra coerência com propostas de campanha. Aliás, quem se lembra de promessas de campanha além dos jornais? Aliás, quem se lembra em quem votou nas últimas eleições legislativas? Aliás, quantos votaram somente por ser obrigatório? Estamos todos delegando àqueles que queremos que sejam defenestrados o poder sobre nossas vidas. Nossos impostos então entre os mais altos do planeta, nosso IDH provocaria vergonha em países subdesenvolvidos, nossa segurança, saúde e educação são assuntos secundários para o governo, mas o que fazemos? O que a sociedade faz?

A sociedade, hoje, nada mais é que o oposto de governos e políticos. Não é uma entidade organizada, é um conceito moldado por exclusão. Ela deveria ser conhecida e reconhecida como a forma que elege pessoas para, em seu nome, identificar e resolver os grandes problemas nacionais. Mas de coletivo nada há, e o indivíduo, nesse quesito pensa como tal: nas suas próprias e exclusivas necessidades. Abre mão de ter contato com seus representantes, abre mão de brigar por seus direitos. Mal participa de reuniões de condomínio, que dizer dos grandes temas nacionais? Briga apaixonadamente por seu time, mas não toma conhecimento dos problemas de gestão de sua prefeitura.

O indivíduo – e por extensão a sociedade – delegou seus problemas. Mas no sentido imperfeito do termo. Delegou mas não acompanha, não cobra. Mas não se sente responsável pelo que daí decorre. Reza a ladainha do mau político, e senta-se sobre o problema do mau eleitor. Entra no comportamento multitudinal (somente assim) de que a culpa é dos outros – políticos, empresários, governantes, parlamentares - e não age nem reage contra esses problemas.

Ninguém se importa se hoje as pessoas mais votadas não são necessariamente as eleitas. Nem que uma pessoa com mil votos seja conduzida a cargo legislativo em vez de uma com cinquenta mil votos. Neste caso, mil votos valem mais que cinquenta mil? Parece que sim, mas ninguém se importa. Como não se importarão com o voto em lista, em que finalmente delegaremos (por omissão) aos atuais coronéis de partido a decisão de decidir em quem vamos votar.

Mas importar-se para quê? Importar-se causa incômodo, é mais fácil ignorar e reclamar.

Cada povo tem a democracia que merece.