sábado, 28 de janeiro de 2012

Pinheirinho, e a fuga de responsabilidades

Num artigo brilhante, como de hábito, Hélio Schwartsman, hoje, na Folha de São Paulo (para assinantes), lembra que todos fizeram sua parte. Defenderam a legalidade da situação, cada qual na sua área.

Lembro que no julgamento dos criminosos nazistas, em Nuremberg, a alegação premominante foi a de que todos “compriam ordens”. Em resumo, todos sabiam e concordavam que o que faziam com os judeus era errado, mas cada qual cumpria ordens, como se a ordem dada obliterasse nossa capacidade de julgar e escolher.

Na famosa experiência de Stanley Milgran restou provado que as pessoas adotam comportamentos sabidamente contrários ao seu conjunto axiológico, desde que outra pessoa assuma a responsabilidade. Para quem não conhece a experiência: uma pessoa era selecionada para operar controle de um equipamento que dava choques. Voluntários eram conectados ao equipamentos e tinham de responder algumas perguntas. Quando erravam, levavam um choque, e estes aumentavam de intensidade de acordo com a quantidde de erros. O que se viu foi pessoas aplicando alegremente os choques, já que foram ordenados a isso. Outras, embora fossem empáticos com o sofrimento do voluntário que levava os choques, eram facilmente convencidos a aumentar a intensidade e aplicar o choque quando o “pesquisador” assumia a responsabilidade. A grande maioria foi até o fim, a despeito da dor demonstrada pelo voluntário respondedor. O que ninguém sabia é que esse voluntário era um ator, e os choques não existiam. Mas não deixa de ser esclarecedor sobre a natureza dos atos de grande parte dos seres humanos. Desde que a “autoridade” se manifeste assumindo a responsabilidade, atos bárbaros são cometidos.

Foi o caso do Pinheirinho, e de vários outros no Brasil de macunaíma.

Como lembrou Schwartsman, desde o juiz que ordenou a desoupação até o motorista dos tratores que puseram abaixo as casas têm responsabilidade na vida ora arruinada dos despejados. Mas es escusam dela atrás das ordens ou da legalidade.

Passamos um período longo de ditadura (qualquer ditadura é longa, mesmo que dure somente um dia). Recriminamos aqueles que retiravam inocentes (suspeitos) de suas casas e sumiam com eles, e fomos às ruas contra esse padrão de governo. Hoje, democracia de velas infladas, não nos dispomos a colocar a vida acima da lei, como a própria lei faz (vide casos de legítima defesa, furto famélico, estado de necessidade). Estamos amparados na lei, e isso nos escusa de toda humanidade e sentimentos de compaixão que deveríamos ter.

Não importa se os habitantes foram avisados. Não importa se foram manipulados por pessoas sem compromisso com a solução do problema. Importa que estamos, com nossa omissão sobre essa ação, fazendo com que o estado de direito entre na fase da desumanidade. A lei deveria nos proteger, nos amparar. A quem ela protegeu e amparou no episódio? Com certeza não aos despojados despejados.

Triste.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O circo maior que o pão

A recente polêmica do estupro no Big Brother Brasil, na sua 12ª Edição, mostra a profundidade intelectual em que vive o Brasil neste início de século XXI. Com sua economia sólida, sua democracia a caminho de uma estabilidade jamais vista, o povo continua alheado dos problemas reais, mas totalmente comprometido com as questões menores. Se Luiza está ou não no Canadá, se a piada teve ou não graça, se é prudente criticar o humorista…

Há poucas reações contra os estamentos que se beneficiam da falta de vigilância. Há poucas reações contra os estamentos que se insurgem contra a vigilância, no caso do judiciário. Há reações pequenas contra a tragédia anunciada do caso da desocupação dos invasores de terras… mas há uma comoção nacional por causa do comportamento de personagens daquele programa da TV.

A emissora quis esconder, fez que nada teve, mas o público foi atrás. A emissora reagiu, e gostou: recordes de audiência…

A lei que não é votada, o compadrio que toma conta, a verba que não chega ao destino… nada parece comover o brasileiro. Se fosse a verba de uma novela que não chegasse ao destino talvez a população se engajasse mais. Se fosse Sucupira o país real, talvez os brasileiros se indignassem mais. Se os casos de desvios de verbas fosse apresentados como um reality show… Mas aí é que estaríamos perdidos mesmo: o povo poderia querer repetições ad eternum, para seu próprio deleite, dos escândalos palacianos…

O pão foi garantido pelo Fome Zero, seja lá o que isso quer dizer. O país viceja em suas contas, já estamos quase sendo convidados a entrar nos Estados Unidos pela porta da frente, sem visto, essa é a promessa, veja só… Nós, que tivemos um embaixador que teve de tirar os sapatos para poder entrar naquele país. E foi tão grave que não teve carteirada.

- Você sabe com quem está falando???

Óbvio que sim.

Macunaíma, o rei da preguiça, iria adorar este país em que o circo é tão mais importante que o pão… O herói brasileiro talvez tivesse companhia na indolência em relação a tudo… Menos à novela e ao BBB…

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Opções do poder–o verdadeiro líder

O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente.

Lord Acton

A história a seguir, do Livro “Os Sete Hábitos de Pessoas Altamente Eficazes”, de Stephen Covey, ilustrará o que quero dizer:

Dois navios de guerra, realizando uma missão de treinamento da esqua­dra, estavam no mar havia vários dias, enfrentando mau tempo durante as manobras. Eu servia no navio líder, e estava de sentinela na ponte ao cair da noite. A visibilidade era quase nula, devido ao nevoeiro, de modo que o capitão permanecia na ponte, atento a todas as atividades. Pouco depois do escurecer, o vigia da ponte avisou: - Luz à proa, a boreste.

- Parada ou movendo-se para a popa? - perguntou o capitão.

- Parada, capitão - o vigia retrucou.

Significava que estávamos em perigo; em rota de colisão com o outro navio. Imediatamente o capitão chamou o sinaleiro:

- Avise aquele navio: estamos em rota de colisão. Altere curso em 20 graus.

- É melhor vocês alterarem o curso em 20 graus. - A resposta veio logo.

- Envie a mensagem: Aqui é o capitão, mude a rota em 20 graus – o capitão retrucou.

- Aqui é um marinheiro de segunda classe. - Foi a resposta. - É melhor vocês alterarem o curso em 20 graus.

- Envie a mensagem: Este é um navio de guerra. Mude o curso em 20 graus - o capitão, àquela altura, já furioso, disse rangendo os dentes.

- Este é um farol terrestre - o homem sinalizou de volta.

Nós mudamos o rumo.

Não é raro percebemos um componente comportamental diferente em pessoas que conhecemos, e não é raro que essas mudanças aconteçam com pessoas que, de uma forma ou de outra, detenham algum poder. Basicamente, políticos apresentam esse componente, que é a arrogância. Mas supervisores, gerentes, diretores e presidentes de empresa também passam por esse processo. Que, como no caso dos políticos, começa com a arrogância.

O problema é que o poder vem cheio de adjetivações. Entende-se que o “poderoso” tenha que saber tudo, que ter resposta a tudo e, pior, muito pior, que tenha se antecipado a tudo. Por isso, conversar com um “poderoso” pode ser uma tortura sem fim. A arrogância atrai o que há de pior no ser humano, e torna-se difícil conviver com uma pessoa que se define pelo poder em si.

Porque o líder tem poder. Mas é um poder diferente do poder que procura subjugar. Em vez de mandar, convence. Em vez de desconfiar, aposta. E normalmente ganha. Em vez de diminuir seus circunstantes, transfere seu poder a eles, para que eles possam crescer, pessoal e profissionalmente. É o poder de sedução, de chamar a atenção, de ser ouvido. É o poder de ter a palavra e, utilizando-a, arrebanhar parceiros para seus caminhos. E, líder que é, não se sente obrigatoriamente certo. É humilde, reconhece seus erros, ouve os demais, ajusta suas percepções. E caminhos. Mas é líder por opção, não como meio de vida. Percebe seu poder de transformar, para melhor, a vida de seus liderados. E convive com o medo de estar errado, sem permitir que isso o paralise. Arrisca, dá seus passos, lembra-se de cada derrota, pois em cada uma há um aprendizado. E descarta suas vitórias, para evitar a soberba, e porque a vitória tem vida curta mesmo.

Podia optar pelo poder negativo. Podia obrigar, mandar, exigir. Podia humilhar, mas sua opção é o contrário. São pessoas que não necessariamente têm cargos, posses ou influências políticas traficadas. Mas são pessoas que, com seu sorriso, asserção e extrema atenção, nos fazem querer fazer parte de alguma coisa. Sua responsabilidade é dar vida a essa coisa. Pois há pessoas que ali dependem dele.

Aos poderosos líderes, vida longa. Aos poderosos egocêntricos, nada.