segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A verdade, nada mais que a verdade

É extremamente fácil enganar-se a si mesmo; pois o homem geralmente acredita no que deseja.
Demóstenes

De todos os males dos relacionamentos, sejam pessoais, sejam profissionais, o mais avassalador deles é a mentira, ou a verdade que é escondida. A falta de sinceridade agride, machuca, faz com que todo o esteio do relacionamento se torne pó. E, das reconstruções, a confiança é a que mais se ressente da falta da verdade, pois o precedente grita aos nossos ouvidos o que foi o passado.

As pessoas mentem por diversos motivos, alguns até mascarados de boas intenções. Mas não há resultados louváveis na mentira, embora com ela alguns se locupletem. Há as mentiras proferidas por piedade, por maldade, por puro hábito. E há aquelas proferidas pela crença de que uma pequena mentira faz mais bem que qualquer verdade, o que pode ser defensável, mas não é verdade. E, não sendo verdade…

Os amigos deveriam se tratar apenas pela verdade, assim como cônjuges e familiares. Claro, na forma e no conteúdo, ou seja, sem agredir com a verdade, mas sem ferir com a mentira. A tentativa de manter uma paz artificial, uma paz forçada, uma calmaria falsa através da mentira é a zona de conforto falando alto, evitando que haja fluidez na conversa. É o medo, que nos faz esconder, em vez de enfrentar o problema.

Mas há aqueles que mentem porque, de tanto mentir, acreditam na mentira. Ou a rodeiam de circunstâncias tais que a mentira posa de verdade, fazendo com que até o mentiroso nela acredite e por ela morra. É a autoenganação, que é a precursora da enganação dos outros. Aqueles que acreditam nas sua próprias mentiras defendem-se da verdade, que lhes parece tão aterradora que não a conseguem encarar.

Assim, há os que acreditam-se injustiçados, os que acham que a mentira protege de um mal maior, os que acreditam que a mentira salva. Não há moral na história mentirosa, principalmente quando se acredita nessa mentira. Mas não há reflexão, e não há a manifestação daquela inteligência que pretensamente nos difere dos outros animais do planeta. Na verdade, essa esperteza da mentira, sempre baseada na Lei de Gerson, nos coloca no mesmo patamar de inteligência daqueles predadores que, por puro instinto, emboscam e capturam suas presas.

Ao homem na era da informação não caberia esse tipo de comportamento. Mas, como já se disse alhures, “consciência nada é senão o medo de estar sendo observado”.

Na era da informação, com computadores como itens básicos da vida, a consciência do ser humano deveria ter eliminado a compulsão pela mentira. A moral deveria imperar, e gerar mais compromisso com honra, lealdade e honestidade. Mas a era da informação também é a era da economia de mercado. Mais rigorosa que a Lei da Selva, ela mata quem não sobrevive, e uma das armas dessa sobrevivência é justamente a versão aceita. Verdade? nem pensar.

Por isso, muitos de nós vamos morrer pobres. Mas com uma jornada que terá valido a pena.

Mais uma vez, Drummond:

A Verdade (Carlos Drummond de Andrade)

A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E a sua segunda metade
Voltava igualmente com meios perfis
E os meios perfis não coincidiam verdade...
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual
a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho,
sua ilusão,
sua miopia.

Um comentário:

  1. Já disse o saudoso jornalista Paulo Francis:
    "Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. É tão incumum isso na nossa imprensa que as pessoas acham que é ofensa. Crítica não é raiva. É crítica. Às vezes é estúpida. O leitor que julgue. Acho que quem ofende os outros é o jornalismo em cima do muro, que não quer contestar coisa alguma. Meu tom às vezes é sarcástico. Pode ser desagradável. Mas é, insisto, uma forma de respeito, ou, até, se quiserem, a irritação do amante rejeitado."/

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