sábado, 19 de novembro de 2011

Quem entende o consumidor?

Na década de 70 houve o grande boom das computadores. Ainda os mainframes, mas foi quando as grandes corporações, a maioria financeiras, passaram a basear atividades repetitivas e de alto volume em PED (processamento eletrônico de dados). Houve uma revolução silenciosa na forma de trabalhar, e a vida ficou um pouco mais fácil nas organizações. Mas o grande problema com que se deparavam as empresas eram as chamadas soluções proprietárias, pois na hora de comprar insumos ou mesmo peças de reposição obrigatoriamente precisava-se recorrer ao fabricante. Várias tentativas de fugir dessa situação eram perceptíveis nas negociações de compra, mas a força da indústria ainda era muito forte nesse sentido. Afinal, gastava-se muitos milhões de dólares para adquirir equipamentos, trocá-los por causa da escravidão em relação ao fornecedor era praticamente impossível.

Quando o mundo viu a explosão dos então chamados PC, os computadores pessoais, o caminho ainda era o das soluções proprietárias. As compras de peças ainda eram na base do padrão utilizado, e eram muitos. A COMPAQ, uma integradora de soluções, liderou diversos consórcios de padronização para que essa diversidade tivesse uma convergência. Os modens, por exemplo, tinham padrões que alcançavam velocidades diferentes, e a padronização superava esses problemas. O mundo, então, iniciou sua convergência para as soluções abertas,fugindo daquelas que escravizavam o cliente. Isso tudo numa lógica corporativa, claro.

No meio da briga dos PC, uma empresa que fabricava um equipamento ótimo enfrentou o problema da solução proprietária: a Apple. Seus computadores pessoais, embora tivessem apelo de uso, acabaram se afastando do que o mundo estava adotando como padrão.

Por uma ironia, uma tal de Microsoft tornou quase que obrigatório seu sistema operacional, o Windows, contra outros aventureiros e marcas de renome (como a IBM). E ajudou, com esse padrão, a empurrar a Apple ao isolamento.

E então, quando o planeta entendia que as soluções abertas eram a solução (afinal, qualquer peça de reposição cabia em qualquer computador), eis que surge de novo a Apple com um padrão fechado. O iPod, sucesso de vendas, não tem sequer possibilidade de troca de bateria pelo usuário. Seus aplicativos somente podem ser adquiridos pela loja Apple, o iTunes. E somente quem recebe autorização da Apple pode vender por essa loja.

O sucesso foi tamanho que a Apple avançou para novos modelos e gerações de iPod, gerou o iPhone e o iPad, todos dentro da mesma filosofia restritiva. O consumidor, seduzido pelo design revolucionário e pela usabilidade, pouco se importou com as restrições, e a Apple se firmou como a rainha da solução proprietária no mercado. Outras empresas não conseguem sequer ter esse sonho. O Windows enfrenta forte resistência em alguns meios, e até usuários domésticos já usam o Linux, por exemplo. Mas os produtos da Apple passam ao largo de tais reações dos consumidores.

A situação será irrelevante se a prestação de serviços e os problemas que a família de produtos da Apple continuarem nos patamares em que se encontram hoje. Mas caso aconteçam com frequência problemas como na nova versão do sistema operacional do iPhone (IOS 5), que causava um superconsumo de bateria, os consumidores poderão começar a reagir.

Hoje a marca é um fetiche. Há celulares, por exemplo, com facilidades tão abrangentes quanto o iPhone, ou até mais. Mas não é um iPhone. E isso faz a diferença. Se a ausência de Jobs não abalar a prestação de serviços, a marca sobrevive. Mas já vimos essa situação uma vez: sem Jobs, a Apple mergulha no lugar comum das empresas produtoras de equipamentos.

O consumidor, por enquanto, está alheio a tudo isso.

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