quarta-feira, 30 de novembro de 2011

CEPRE–Clube Etílico de Pescaria, Recreação e Entretenimento

No início, era somente uma turma que se reunia de vez em quando para tomar caldinho de feijão e comer porquinho de leito no Boteco do Vandeco tomando a indefectível cervejinha. Ao longo do tempo, a tensão sempre aumentando, surgiu a ideia de uma pescaria. Capitaneados pelo Edson, lá fomos nós para Pirassununga. Rio cheio, após uma temporada de chuvas, fomos apenas eu, Edson, Durval e Mário. Este foi jurado de morte após a pescaria, por causa da Chama da Verdade. Rápido e esperto, ainda hoje dorme com um olho aberto perto de nós.

A pescaria seguinte já foi na nossa sede. Piraju, rancho do Saudoso Dorinho, cunhado do Edson. Mas, ainda desta vez, um grupo pequeno (era um feriado prolongado de Páscoa). Mário e família, Edson e família, eu e apêndice, queríamos mesmo é ver a Rê presa, ops, a represa. Jurumirim, que viria a sediar boa parte de nossos encontros.

Depois, só mesmo o CEPRE. O pessoal, motivado pela primeira pescaria (e pela segunda, em termos), se reuniu e iniciou preparativos para a primeira de uma série. Teve até caderno com as músicas que cantaríamos. Sertanejas, do tempo da moda de viola, e Raul Seixas, mestre do Paulim. Nesta, já com presença do Zema, do Ari, do João (que mais tarde viria a ser o Ribanceira, história para outro dia). E a esta turma foram se juntando outros pescadores, como Wilson, Minoru, José Sérgio, o Léo, o João…

Pescarias inesquecíveis, fatos memoráveis. Como o caiaque que virou, a pedra de 600 toneladas que se movimentou e derrubou um cepreano no rio; o leme perdido em águas profundas; o dia do encontro especial: um caiaque, uma lancha, um barco a remo, alguém no jirau, e o Zema de teco-teco…

  • O cigarro de palha que o Ari fez para o Zema…
  • Meu chapéu que se perdeu na represa…
  • O carro do Zema, que só funcionava com ele…
  • Os óculos do Ari…
  • O frango com epocler do Ari…
  • O carro encalhado do Wilson…
  • O arrozinho bom prá cachorro…
  • A bala na boca…
  • Sapo seco, mão de anjinho, carovinha…
  • A 107, música que selecionávamos por horas a fio no posto da entrada da cidade (Piraju), até que alguém reclamasse…
  • O Durval, que aprendeu a tocar violão (só tocava a 107, mas cantávamos todas com ele tocando)…
  • A 107, claro, era Fio de Cabelo.

 

Tinha até uma discussão, em toda pescaria, para saber quem ia ficar comigo na beira do rio, porque eu fazia questão: vou pescar. E, ali, na beira do Rio Paranapanema e proximidades, comendo isca de peixe e batendo papo com os amigos, nossa amizade foi se estreitando, se fortalecendo, e ainda hoje é palpável o elo que nos une. Tínhamos nossos problemas na estatal em que trabalhávamos, mas ali eles não nos acompanhavam. E, mesmo sem combinar, cada um tinha seu papel na pescaria, assumidos e delegados de forma silenciosa. Nós nos tolerávamos como nunca, em nome da diversão. Alguns iam de madrugada, por causa do horário de trabalho, o que não impedia nossa perfeita interação.

Pessoas de diversos cargos na estatal em que trabalhávamos, isso nunca interferiu nas nossas pescarias. Ali éramos todos, como somos agora, uma turma de amigos reunidos. E como seremos em breve, no encontro que estamos agitando.

Por isso, o CEPRE se renova. E, mesmo longe uns dos outros fisicamente, prova que amizade mesmo, a verdadeira, ainda existe. É uma questão de escolha.

sábado, 19 de novembro de 2011

Quem entende o consumidor?

Na década de 70 houve o grande boom das computadores. Ainda os mainframes, mas foi quando as grandes corporações, a maioria financeiras, passaram a basear atividades repetitivas e de alto volume em PED (processamento eletrônico de dados). Houve uma revolução silenciosa na forma de trabalhar, e a vida ficou um pouco mais fácil nas organizações. Mas o grande problema com que se deparavam as empresas eram as chamadas soluções proprietárias, pois na hora de comprar insumos ou mesmo peças de reposição obrigatoriamente precisava-se recorrer ao fabricante. Várias tentativas de fugir dessa situação eram perceptíveis nas negociações de compra, mas a força da indústria ainda era muito forte nesse sentido. Afinal, gastava-se muitos milhões de dólares para adquirir equipamentos, trocá-los por causa da escravidão em relação ao fornecedor era praticamente impossível.

Quando o mundo viu a explosão dos então chamados PC, os computadores pessoais, o caminho ainda era o das soluções proprietárias. As compras de peças ainda eram na base do padrão utilizado, e eram muitos. A COMPAQ, uma integradora de soluções, liderou diversos consórcios de padronização para que essa diversidade tivesse uma convergência. Os modens, por exemplo, tinham padrões que alcançavam velocidades diferentes, e a padronização superava esses problemas. O mundo, então, iniciou sua convergência para as soluções abertas,fugindo daquelas que escravizavam o cliente. Isso tudo numa lógica corporativa, claro.

No meio da briga dos PC, uma empresa que fabricava um equipamento ótimo enfrentou o problema da solução proprietária: a Apple. Seus computadores pessoais, embora tivessem apelo de uso, acabaram se afastando do que o mundo estava adotando como padrão.

Por uma ironia, uma tal de Microsoft tornou quase que obrigatório seu sistema operacional, o Windows, contra outros aventureiros e marcas de renome (como a IBM). E ajudou, com esse padrão, a empurrar a Apple ao isolamento.

E então, quando o planeta entendia que as soluções abertas eram a solução (afinal, qualquer peça de reposição cabia em qualquer computador), eis que surge de novo a Apple com um padrão fechado. O iPod, sucesso de vendas, não tem sequer possibilidade de troca de bateria pelo usuário. Seus aplicativos somente podem ser adquiridos pela loja Apple, o iTunes. E somente quem recebe autorização da Apple pode vender por essa loja.

O sucesso foi tamanho que a Apple avançou para novos modelos e gerações de iPod, gerou o iPhone e o iPad, todos dentro da mesma filosofia restritiva. O consumidor, seduzido pelo design revolucionário e pela usabilidade, pouco se importou com as restrições, e a Apple se firmou como a rainha da solução proprietária no mercado. Outras empresas não conseguem sequer ter esse sonho. O Windows enfrenta forte resistência em alguns meios, e até usuários domésticos já usam o Linux, por exemplo. Mas os produtos da Apple passam ao largo de tais reações dos consumidores.

A situação será irrelevante se a prestação de serviços e os problemas que a família de produtos da Apple continuarem nos patamares em que se encontram hoje. Mas caso aconteçam com frequência problemas como na nova versão do sistema operacional do iPhone (IOS 5), que causava um superconsumo de bateria, os consumidores poderão começar a reagir.

Hoje a marca é um fetiche. Há celulares, por exemplo, com facilidades tão abrangentes quanto o iPhone, ou até mais. Mas não é um iPhone. E isso faz a diferença. Se a ausência de Jobs não abalar a prestação de serviços, a marca sobrevive. Mas já vimos essa situação uma vez: sem Jobs, a Apple mergulha no lugar comum das empresas produtoras de equipamentos.

O consumidor, por enquanto, está alheio a tudo isso.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Bullying como regra–o caso da USP

Com frequência assustadora, o jornalismo brasileiro engaja discussões baseadas em preconceitos. Não poderia ser diferente, já que jornalistas são humanos, e é imanente ao ser humano ter ideias preconcebidas.

Mas aos jornalistas cumpre – ao menos esperamos que seja assim – verificar a veracidade dos fatos que publica. Caso contrário, não é notícia, é opinião.

Já há muito tempo se noticiam crimes na UNICAMP e USP, ambos com vasta área aberta e com muita gente circulando. Por si só, este fato já seria capaz de gerar adesão imediata dos estudantes à presença da polícia nos campi, certo?

Errado!

O paralelo pode ser estabelecido com a invasão das favelas do Rio: sai o traficante, entra a polícia, mas o medo maior era o da polícia. Tanto que a última invasão, a da Rocinha, teve esquema especial para evitar abusos dos… policiais! Por exemplo, foram impedidos de entrar com mochilas, para que não houvessem saques. Isso quer dizer somente o seguinte: há aqueles que não seguem a orientação do comando, e abusam. Cometem os mesmos crimes que deveriam combater. E, se partiu do comando essas ações preventivas, é um reconhecimento de que, infelizmente, alguns ainda têm algo a esconder.

Os alunos da USP, chamados de baderneiros, bandidos, maconheiros, elite mal-criada, riquinhos, de daí por diante, queriam uma coisa muito básica: respeito.

Um respeito que eles não mostram? Talvez. Mesmo assim, merecem respeito. Nem todos são de classe média, ou resolvidos. Nem todos vão trabalhar em carrões. Nem todos apoiam o consumo da maconha. Mas todos querem que o policial os respeito da forma como preconiza a Constituição: “todo mundo é inocente”… E o desrespeito acontece mesmo sem a prova contrária.

A generalização do que alguns acham ser a verdade é a negação da democracia. Ao menos daquele inicialmente imaginada, a utopia “do povo, pelo povo, para o povo”. E quem não convive com a democracia, conviverá (conviveu) melhor com a ditadura?

Pessoalmente, sou contra esse tipo de violência cometida pelos estudantes. Somos inteligentes e criativos para sair dessa lugar comum de invadir e quebrar. Mas reconheço que a palavra nem sempre comove aqueles a quem dirigida.

O que houve como reação, entretanto, foi desmedida e irracional. Os “maconheiros”, “baderneiros”, “elite mal-criada”, sejam de qualquer classe social, são alunos de uma instituição de ensino que tem problemas. Não são (necessariamente) os causadores desses problemas, na maior parte das vezes são vítimas. Mas imprensa e parte da sociedade os condenaram antes de julgar seus atos e argumentos. Foi um bullying cometido pela forte imprensa, ecoado pela camada social que se faz ouvir pela imprensa. É de lembrar que o caso da Escola Base, em que a condenação antecedeu à apuração dos fatos, e os atingidos tiveram a vida devastada.

E, de mais a mais, como bem lembrou Ricardo Boechat na Band News: se estudantes, ou empresários, ou médicos, enfim, qualquer grupo (ou indivíduo) quiser discutir uma lei, quem somos nós para negar essa discussão? Afinal, a Teoria Tridimensional do Direito (Miguel Reale) dá suporte a esse tipo de discussão. A sociedade define, pelos seus valores, quais comportamentos são desejados ou indesejados, é a própria extração dos valores vigentes. Sem discussão, nunca se chegará a aprimorar (ou produzir) lei alguma.

Mas não era esse o caso dos estudantes da USP. Contra argumentos não há fatos, diria o cínico, e os argumentos dos valentões que têm a palavra se encarregou de sumir com o fato: a polícia precisa respeitar os alunos. Nem só direitos, nem só deveres: equilíbrio. De todos.

Chega de histórias mal contadas. Já basta o caso Luriam, o filho não noticiado do FHC, a Escola Base. Passamos dessa fase. Ela deveria ser uma triste memória, finda com a ditadura das armas. Infelizmente, teremos de combater a ditadura das palavras e versões. É demais, para o Brasil contemporâneo, que debate o fim do sigilo eterno dos documentos do governo, aturar tanta desinformação…

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Obrigado, e até breve

A vida me ensinou a dizer adeus às pessoas que amo, sem tirá-las do meu coração.

Charles Chaplin

Na virada de mais página da vida profissional, em frente a uma página nova e virgem, não seria justo deixar de agradecer as pessoas que, de uma forma ou de outra, ajudaram a escrevê-la.

Então, a gradeço às pessoas que, de forma fugaz ou duradoura, passaram pela minha vida nesse período. Por serem seres humanos, e por serem comportamentos imanentes a eles, há que agradecer àqueles que foram sinceros, leais, fiéis, verdadeiros. Aqueles que, sem prejulgamentos ou condicionantes, me ofereceram amizade e companheirismo. Aqueles que me ofereceram verdade, mesmo que pontiaguda, porque estes privilegiam o ser, em vez do estar. Agradeço àqueles que, mesmo distantes, se fizeram sempre presentes, pela amizade irrepreensível, ou pelo apoio consciente, ou pela simples história. Agradeço àqueles que criticaram, pois a crítica é a revisão da alma, que nos permite crescer (se quisermos). Agradeço àqueles que, além do profissional, se aproximaram da pessoa, que tem tanto a oferecer quando aquele, ou talvez mais. Agradeço as pessoas que olharam além das aparência, procurando a forma real, mesmo no nevoeiro, com o benefício da dúvida. Agradeço a todas as pessoas que, de uma forma ou outra, acreditaram contribuir para o meu crescimento, mesmo à custa de conversas mais ásperas, feedbacks necessários e opiniões sinceras. Estão são as pessoas que fazem com que o copo esteja sempre meio cheio.

E às pessoas que preferiram o outro lado da relação interpessoal, qual seja o da dissimulação, o conchavo, a fofoca, a crítica infundada, a semeação de intrigas, a supressão da verdade, a introdução da mentira, também a estas devo agradecer. Primeiro, porque elas nos dão aquele choque de realidade, lembrando que o mundo é mesmo cruel, e temos de estar preparados para tudo. E, acima de tudo, porque valorizam ainda mais os primeiros, pelo contraste triste e óbvio, aqueles que escolheram entre o ser humano racional e total. Normalmente, quem prefere a dissimulação à verdade não escolhe, é escolhido. Não decide com base em princípios, mas com base em alguma relação perde-ganha. Não enxerga o longo prazo, somente o prazer instintivo do momento. Não constrói relacionamentos, embora os tenha, mas frágeis a ponto de não suportar a verdade. Nem a ponto de reconhecê-la, por questão de princípios.

Mas somos seres humanos, dotados de capacidade de análise e discernimento, necessários para decisões e escolhas. Por isso, DECIDO que, não importa o passado, nem qualquer outro fato, todas as pessoas que passaram por esta fase de minha vida são do primeiro tipo. ESCOLHO interpretar pelo lado positivo todos os fatos e atos. ESCOLHO enxergar somente o lado bom, deixando todo o resto de lado. DECIDO que todos foram importantes, e, portanto, merecedores de minha gratidão.

Principalmente porque todos suportaram, à sua própria maneira, meus defeitos e intempestividades. E, como sabemos que não são poucos, agradeço.

Mas falando de defeitos, aqui um mea culpa: não sei fazer nada a não ser com compromisso total. Procuro a perfeição, e sempre me dedico além do possível, aquém do desejado. Há sempre paixão em excesso nas coisas que faço, e por esses defeitos peço desculpas a todos.

Enfim, obrigado e até breve.

Despedida

Rubem Braga

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.
Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.
E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?
Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.
Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.
A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A verdade, nada mais que a verdade

É extremamente fácil enganar-se a si mesmo; pois o homem geralmente acredita no que deseja.
Demóstenes

De todos os males dos relacionamentos, sejam pessoais, sejam profissionais, o mais avassalador deles é a mentira, ou a verdade que é escondida. A falta de sinceridade agride, machuca, faz com que todo o esteio do relacionamento se torne pó. E, das reconstruções, a confiança é a que mais se ressente da falta da verdade, pois o precedente grita aos nossos ouvidos o que foi o passado.

As pessoas mentem por diversos motivos, alguns até mascarados de boas intenções. Mas não há resultados louváveis na mentira, embora com ela alguns se locupletem. Há as mentiras proferidas por piedade, por maldade, por puro hábito. E há aquelas proferidas pela crença de que uma pequena mentira faz mais bem que qualquer verdade, o que pode ser defensável, mas não é verdade. E, não sendo verdade…

Os amigos deveriam se tratar apenas pela verdade, assim como cônjuges e familiares. Claro, na forma e no conteúdo, ou seja, sem agredir com a verdade, mas sem ferir com a mentira. A tentativa de manter uma paz artificial, uma paz forçada, uma calmaria falsa através da mentira é a zona de conforto falando alto, evitando que haja fluidez na conversa. É o medo, que nos faz esconder, em vez de enfrentar o problema.

Mas há aqueles que mentem porque, de tanto mentir, acreditam na mentira. Ou a rodeiam de circunstâncias tais que a mentira posa de verdade, fazendo com que até o mentiroso nela acredite e por ela morra. É a autoenganação, que é a precursora da enganação dos outros. Aqueles que acreditam nas sua próprias mentiras defendem-se da verdade, que lhes parece tão aterradora que não a conseguem encarar.

Assim, há os que acreditam-se injustiçados, os que acham que a mentira protege de um mal maior, os que acreditam que a mentira salva. Não há moral na história mentirosa, principalmente quando se acredita nessa mentira. Mas não há reflexão, e não há a manifestação daquela inteligência que pretensamente nos difere dos outros animais do planeta. Na verdade, essa esperteza da mentira, sempre baseada na Lei de Gerson, nos coloca no mesmo patamar de inteligência daqueles predadores que, por puro instinto, emboscam e capturam suas presas.

Ao homem na era da informação não caberia esse tipo de comportamento. Mas, como já se disse alhures, “consciência nada é senão o medo de estar sendo observado”.

Na era da informação, com computadores como itens básicos da vida, a consciência do ser humano deveria ter eliminado a compulsão pela mentira. A moral deveria imperar, e gerar mais compromisso com honra, lealdade e honestidade. Mas a era da informação também é a era da economia de mercado. Mais rigorosa que a Lei da Selva, ela mata quem não sobrevive, e uma das armas dessa sobrevivência é justamente a versão aceita. Verdade? nem pensar.

Por isso, muitos de nós vamos morrer pobres. Mas com uma jornada que terá valido a pena.

Mais uma vez, Drummond:

A Verdade (Carlos Drummond de Andrade)

A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E a sua segunda metade
Voltava igualmente com meios perfis
E os meios perfis não coincidiam verdade...
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual
a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho,
sua ilusão,
sua miopia.