segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O câncer de Lula

Nosso ex-presidente está com um câncer (tratável, segundo as informações). E há uma polêmica forte nas redes sociais, sobre seu tratamento, uns defendendo que ele use a rede pública, outros defendendo o direito de Lula a escolher onde e como se tratar.

O câncer é uma doença terrível, ainda naquele patamar que assusta só pela ameaça de existir. Lula deve ter o direito de decidir onde se tratar, como fugir dessa imensurável fonte de medo.

Mas seria um desperdício de história se o cidadão médio não se valesse do momento para cobrar do ex-presidente ações que ele não tomou a respeito da saúde pública. Fosse esta uma afiliada importante de partido político, ganhando vida própria e influência, talvez a saúde pública tivesse ganhado alguns milhões a mais, entrando na linha dos aloprados, mas endinheirados. Lula foi tenaz e, como sempre professoral, ao defender os companheiros no famoso “todo mundo faz”. Fosse a saúde uma aloprada companheira, talvez tivesse tido mais consideração.

Na década de oitenta, ainda ingênuos, defendíamos Lula como a única possibilidade de mudar o Brasil. De acabar com a herança da breve democracia (recém retomada), que já derrubara um presidente sob acusações de desvios. Acreditávamos em Lula como o salvador, e no PT como num colegiado de notáveis que, inconformados com a ditadura e com a “democracia de mercado”, queriam mudanças na ética da política. Numa entrevista que fiz com Hélio Bicudo no início dos anos 90, o jurista ainda carregava o brilho da mudança nos olhos. Ainda era uma meta, um objetivo. O mantra da ética ainda imperava.

O discurso do PT, de Lula a todos que tivessem oportunidade de ter um microfone à frente, era contra a roubalheira, contra o fisiologismo, contra a impunidade. Mas, como se esse fosse um preço a pagar para manter o poder, foi justamente no governo do PT que essas coisas ganharam as manchetes e atingiram a tantos daqueles em quem depositávamos nossa fé (politicamente falando).

Lula, nordestino, trabalhador, cidadão classe remediada, seria aquele que valorizaria a educação, por ter sido negada a ele a facilidade de acesso. Assim como valorizaria a saúde pública, pois que da sua infância, acreditávamos, fantasmas de falta de atendimento e problemas de saúde mostrariam a ele quão importante era o tema. E assim, nessa linha de raciocínio, imaginávamos que Lula faria das dificuldades dos pobres e remediados suas bandeiras nas suas ações concretas. E acreditamos ainda mais nisso quando o deputado constituinte participou da elaboração da Constituição Cidadã, fazendo dessas premissas, mais do que direitos do cidadão, cláusulas pétreas da carta magna. O que rendeu (e ainda rende) tratados e mais tratados sobre a essência de uma cláusula pétrea, mas dúvidas não deixou sobre o que significava esse ato: que o direito era tão concreto, que deveria figurar como mandamentos imutáveis e indeléveis.

Mas, comunicador que é, Lula fez uma revolução na saúde, na educação, na segurança. Mas retórica apenas. “Nunca antes neste país”… Ou mentiram para o então presidente, ou este mentiu para nós e o mundo.

O fato é que Lula teve o poder (sim, assim como Fernando Henrique Cardoso, e pelo mesmo tempo). O fato é que nunca encaramos FHC como um “salvador da ética”. Lula sim. E, no poder, mimetizou-se a ele, ao menos na forma. Fisiologismos, abusos, escândalos, impunidade. Mais retórica que ação, mais justificativas que punições. Um triste fim para os sonhos daqueles que (ainda) acreditavam na ética na política.

Lula pode e deve tratar-se segundo sua consciência dita. Mas talvez fosse interessante ele receber a visita do fantasma de algum ex-companheiro, tornando-se o Lula Scrooge da Silva, e ver o quanto ele poderia ter feito e o quanto de fato fez. Que mostre a ele como foi boa a bolsa-família a curto prazo, mas como ela impediu que muitos brasileiros aprendessem a pescar. E como o dinheiro na cueca e Land-Rovers poderiam ter se transformado em benefícios reais, em vez de locupletação de companheiros.

Espero que Lula se cure. Mas bem que, junto com a cura, poderia vir um pouquinho de clarividência sobre o Brasil que ele (não) ajudou a construir. Ou é pedir demais?

Um comentário:

  1. O brasileiro só vai amadurecer quando, como a menina Grace do filme Manderlay de Lars Von Trier,descobrir que ninguém salva ninguém e que até talvez tenha o direito de continuar a ser escravo.Desnudar o rei é preciso.Até para que se deixe de esperar esse "pai da pátria", que virá nos salvar. Crianças que somos, ficamos esperando esse presente chamado liberdade, quando na verdade ele é uma conquista diaria, árdua, mas libertadora, a única capaz de conferir-lhe a estatura de ser humano//

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