domingo, 2 de outubro de 2011

O camaro e a hipocrisia no trânsito: é hora de limitarmos o poder de aceleração e velocidade máxima

De 0 a 100 em 4,8 segundos.

A força do motor de 406 cv …

No site da fabricante!

E por aí vai.

O que se vende é velocidade e potência. A velocidade final e o poder de aceleração são sempre itens destacados na propaganda desse tipo de carro. Não só dele. As SUVs, os esportivos de luxo, as versões especiais…

No Brasil, a embriaguez ao volante ainda é uma epidemia.E, associada ao poder de aceleração do automóvel (o tal do zero a cem em 4,8 segundos), tira daquele que não tem condições de reagir rapidamente qualquer possibilidade de evitar uma catástrofe. Para as vítimas dessa catástrofe, então, a reação é impossível.

As pessoas bebem e dirigem. Ou bebem muito e dirigem. Temos aí um componente comportamental socialmente aceito. Qual seria, então, a solução?

Paliativos, no máximo. Mas imaginemos que os automóveis tivessem um limitador de aceleração e de velocidade máxima. Quem precisa ir de zero a cem em pouquíssimos segundos? E quem precisa utilizar seus 406 cavalos para atingir 290, 300 km por horas nas nossas estradas que têm limite máximo de 120 km/h (isso as melhores)?

Mas os fabricantes são grandes financiadores de campanhas políticas. Têm, portanto, uma grande turma adulada defendendo seus interesses. Ou não querendo colocar o dedo na ferida. Quando Paulo Maluf obrigou a população de São Paulo a utilizar o cinto de segurança, foi primeiramente alvo de muitas críticas, mas manteve-se firme. Eu, que não sou fã desse político, tive de reconsiderar minha posição: a medida era utilíssima. Exemplos de pessoas próximas me mostraram que o cinto salva vidas.

Na questão da aceleração e da velocidade final, quanto é que alguém será corajoso o suficiente para sugerir restrições? Quando é que poderemos sair às ruas sem a preocupação de que, sem aviso, um carro super-esportivo surja sobre nós, nossos amigos e familiares e interrompa ou arruíne vidas para sempre?

Mas, pés no chão, vá sugerir que um carro como uma BMW ou um Audi tenha sua velocidade limitada a 120 km/h. Ou que sua aceleração lhe permita ir de zero a cem somente em, digamos, quinze segundo. Isso em nome da segurança. Acredito que ouviremos que isso contraria o fetiche que se cria em torno do carro. Mesmo que esse fetiche, associado ou não ao álcool, ceife vidas de nossos amigos e familiares.

Quando se diz que o estado intervém demais, eu sempre penso que esta é uma situação em que intervém de menos. Ou não intervém, simplesmente. A receita das multas, utilizada para milhões de coisas que não nos dizem respeito (até prova em contrário), até mesmo para comissionar o vendedor, poderia ser dirigida para essa  novidade: um limitador de aceleração e velocidade máxima.

Infelizmente só nos lembramos desse problema quando alguém próximo é atingido. Mas, analisemos: está cada vez mais próximo! Quem não conhece alguma família que perdeu alguém por causa de acidentes? E os acidentes tolos?

É preciso dar basta a essa situação. Acidentes de trânsito sempre ocorrerão, assim como sempre haverá aqueles que consumirão álcool antes de dirigir. Mas imaginemos qual seria o resultado se o automóvel que ele transformou em arma se transformasse de míssil para uma arma bem menos potente. Sim, ainda assim haveria mortos e feridos. Mas, creio, menos mortos, e menos feridos.

Já seria alguma coisa…

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