domingo, 25 de setembro de 2011

A terceira via na vida pessoal

“Se alguém assumir posição defensiva, é porque sua força é deficiente; se alguém atacar, é porque sua força é mais do que suficiente.”

Sun Tzu, em A Arte da Guerra

Esse livro, A Arte da Guerra, se tornou famoso no início dos anos 90. Trata de estratégias para lidar com inimigos e adversários. E no mundo corporativo, passou a ser referência, junto com outros livros surreais.

Em nossa vida pessoal, a posição pode ser neutra em relação a ataques e defesas. Deveria ser essa a normalidade de nossas vidas. Mas há situações, precisamos reconhecer, em que há necessidade de entrarmos em embate. O conflito é inevitável, ou é o jeito mais eficaz de tratar de alguma diferença de posição.

A citação acima, infelizmente, reproduz o ditado: “a corda sempre estoura do lado do mais fraco”.

E, no mundo corporativo, sempre há os mais fracos. Inútil buscar equilíbrio de forças. O que se obtém, na maioria das vezes, é a suspensão condicional das hostilidades. Mas, quando o mais forte acha que há necessidade, ataca. E ataca pesado.

Somos inteligentes, ao menos na definição. Precisamos assumir que essa inteligência também precisa e pode ser emocional. E precisamos, igualmente, assumir que somos interdependentes. O que quer dizer que nosso equilíbrio pode, sim, ser influenciado por algumas pessoas em nossas vidas. O cônjuge, os colegas de trabalho, os amigos… Sim, falamos de equilíbrio e este é o resultado de várias forças, vindas do trabalho, família, amizades, meio social, etc. Assim, sempre que uma das forças se apresenta fora do normal, as outras podem se juntar para trazer o equilíbrio de volta.

Mas, pois bem, há horas em que o conflito é inevitável, e a Lei da Selva (Kippling) nos mostra que ela é necessária ao menos como aprendizado. E precisamos estar prontos para ele.

Mas continuo afirmando que há a terceira via. O conflito tempestuoso, agressivo, predador, pode ser substituído pelo regido pela racionalidade. E é por ele que clamo. Por preguiça, pois dá menos trabalho. Por pragmatismo, pois dá melhores resultados. Por princípios, pois o olho-no-olho, o fio do bigode, ainda não encontraram substitutos à altura.

Todos temos um demônio interior. Que pode ser predador, tempestuoso e agressivo. Mantê-lo sob controle é o grande desafio de nosso dia-a-dia. Solto, esse demônio pode fazer coisas que não diriam que faríamos. Mas, a depender do que está em jogo, pode ser a única saída, ao menos para os olhos distorcidos pela raiva do demônio.

O direito penal nos mostra que em estado de necessidade ou em legítima defesa algumas ações são perdoáveis (exclusão de ilicitude da conduta). Aquele que rouba comida e está em estado de fome deve ser perdoado (furto famélico). A utilização de força (na medida certa) é a legítima defesa. Mas essas são condições individuais e subjetivas. Se o contexto, ou a sociedade se dispuser, tais medidas legais não passarão de anacronismos.

Assim como nossos conflitos pessoais. Precisamos e podemos chegar ao entendimento. Acreditando nisso, estamos a meio caminho dele. Sem essa crença, estaremos mais longe do que nunca.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Quando será a próxima corrida?

Nunca sabemos o que nos espera. Mas podemos escolher a atitude com que vamos enfrentar esse porvir desconhecido. Nesses ocasiões, sempre me lembro do texto de Lourenço Diaféria, "Quando será a próxima corrida?". reproduzido (novamente) abaixo.
Nossos dias estão sempre cheios de momentos em que deveríamos parar e pensar se aquilo é o que esperávamos da vida. Nem sempre é, e nem sempre tomamos as ações necessárias para que sejam. Ou seja, não estamos no comando de nossas vidas. Achamos que o mais fácil é esperar, aceitar, resignar. Como neste texto de Marina Colasanti.
Mas há os momentos em que, por ação ou reação, saímos de nossa zona de conforto e passamos à ação. Nesse momento, parece que nossos olhos se abrem, e as obviedades que sempre escondemos debaixo do tapete, saem para a luz do dia. Enxergamos os jogos, as falsidades, as omissões. Enxergamos nosso papel, triste, 'as vezes decisivo, nessas negações da moralidade. E podemos escolher, entre o peito inflado, iniciando uma nova jornada, ou o olhar baixo, procurando esconderijos...
Escolho o peito inflado.

Quando vai ser a próxima Corrida?

Lourenço Diaféria

Você venceu!
Você chegou onde queria.
Se lembra quando lhe disseram que a parada iria ser dura?
Muitos nem tentaram.
Muitos desistiram.
Muitos desanimaram.
Muitos falaram que não valia a pena.
Mas você chegou onde queria.
Foi difícil, a pista estava escorregadia.
Quantas pedras no meio do caminho.
Não eram todos que aplaudiam. Alguns o olhavam com olhar de descrença, diziam: - Coitado, é um sonhador.
Bolhas nos pés, tênis apertado, o suor escorrendo pelo rosto, a ladeira íngreme, e o dramático instante da dúvida: paro ou continuo?
Uma decisão apenas sua.

Alguns estavam caídos de cansaço e tédio.
Havia ainda um longo caminho pela frente,
e havia mais curvas do que retas.
Alguém o animou - Força, cara.
Alguém o provocou - E agora, cara?
Alguém tripudiou - Larga disso, cara.

Lembra?, você teve uma baita vontade de ir embora, de pegar suas coisas e dizer - Tchau mesmo, quero que tudo se lixe, pra mim chega, já dei minha cota, não tem mais jeito - e virar as costas à luta, à incompreensão, ao sacrifício.
Você teve vontade de ir para uma ilha deserta onde vertessem leite e mel.

Você olhou em frente. O horizonte era uma sombra parda.
Mas mesmo nessa hora tensa, pelo sim pelo não, você não parou de correr.
Talvez tenha diminuído o tamanho do passo, porque ninguém é de pedra e o coração da gente não pode ser medido com trena e compasso.
Mas você não parou porque sabia que no meio da multidão havia um recado mudo aguardando a sua decisão.
De sua decisão dependia a esperança de gente que você nem conhecia.
Então você tomou um fôlego, abriu o peito, e com os pés no chão e os olhos lá na frente, mandou ver.
Não importava tanto a colocação.
Você lutava para construir a sua parte no edifício do destino.

E foi seguindo.
Sem perceber, arrastou com seu exemplo muitos que pensavam em ficar no meio do caminho.
E você venceu.
Você chegou onde queria.

Ou você não venceu.
Você não chegou onde queria.
As coisas não deram certo, você tropeçou, havia um buraco, e outro buraco, e mais um buraco no chão feito de armadilha.
Você caiu, rolou, ah, houve gente que riu!
Alguém vaiou.
Você não venceu. Você não chegou onde queria.
Esfolou a pele, abriu ferida, em vez de estrelas o cobriu um manto cravejado de ridículo.
O suor de seu rosto foi em vão.
Em vão seus músculos latejaram.
Tudo em vão.
Apanhe seu embornal de mágoa, fique de mal com o mundo, abandone a pista.
Você teve a tentação.

Mas na multidão alguém esperava seu gesto de conquista.
Vamos, rapaz, esfregue a perna. Levante os ombros.
Não deixe que se apague o brilho dos seus olhos.
Escute o bater abafado do coração que insiste.
Você está vivo, e não está vivo à toa.

Você se levantou, se lembra?, e a vaia lhe soou como sinfonia.
Recomeçou a corrida e quando, por fim, você chegou - não em primeiro, como sonhava - mas chegou, o suor de seu rosto parecia purpurina.
Todos pensavam que você estivesse satisfeito por haver chegado.
Então você recolheu os retalhos de suas forças e perguntou:
- Quando é que vamos disputar a próxima corrida?
E foi neste momento que você venceu e chegou onde queria!


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O dia da Pátria e a independência

Desfiles e desfiles. Festas, comemorações e feriado. Esse é o teor do “dia da pátria”. A comemorar o dia em que o alquebrado Príncipe-regente, rebelando-se contra ordens da corte portuguesa, declarou a independência do Brasil. Menos por amor à pátria, mais por amor ao poder, O Brasil era independente, seja lá o que isso quer dizer. E o 7 de setembro virou o dia da pátria.
Um governante de olho nas suas próprias necessidades e interesses, com um grande poder de convencimento de massas, foi o 7 de setembro. Mas, orwelianamente, o história se repete, como se fosse uma maldição do povo e um imperativo aos governantes: a história se repete mais e mais.
O povo brasileiro é independente. De tudo. inclusive dos próprios problemas do país. Quando os “representantes” eleitos agem contra sua vontade, a resposta é sempre o mesmo ensurdecedor silêncio. Na ditadura, entenda-se: havia risco à vida. Não só de quem se insurgia, mas de quem se suspeitava insurgente. Seu último capítulo foi uma enorme manifestação em apoio às “Diretas Já”. Como resposta, nossos representantes, claro, a rejeitaram.
Na manifestação dos Caras-Pintadas houve uma coincidência: o resultado desejado pelas “massas” era o mesmo que o desejado pela classe política. Mas por razões distintas. Enquanto o povo estava ofendido com as denúncias de malversação do dinheiro público (sim, um eufemismo), a classe política estava se ofendida porque se enquadrava na clássica definição de “negociata” do Barão de Itararé (“todo bom negócio para o qual não fomos convidados”).
Depois, nada de manifestação. Política, ao menos. Marcha da Maconha e Parada Gay, sim. Mas insignificantes protestos contra o presidente do congresso (vários: pode-se deixar em branco, para completar os espaços); nada de protesto contra o mega-consultor 20x; nada contra escândalos no turismo, nada contra escândalos nos transportes. Como se esses escândalos, ao longo do tempo, desde o impeachment, se transformassem em algo como um simples resfriado na lista de patologias contra a res publica. Ou como se a sociedade, cansada de derrotas por pontos, já nem entrasse nos ringues.
Isso para não falar de governos e prefeituras. Adicionam gravidade à situação já caótica em diversos indicadores da sociedade. São recursos da educação, saúde e segurança que, malversados, transformam o Brasil no país dos estamentos.
Mas, surpresa! Os mesmos envolvidos nos escândalos são representantes legítimos do povo. A grande maioria está com cargo eletivo garantido pelo voto daqueles a quem agridem com suas ações e omissões. Como não levam nenhum time a perder a Libertadores, não são objeto senão de indiferença, pelo povo que torce à base de pão e cerveja somente para esse circo.
A independência é uma quimera, em todos os pontos da vida. Vivendo em sociedade, a noção de ser independente é uma fuga acolhedora de nossa necessidade de privacidade, e talvez somente nesse ponto impere de fato. Em todos os demais aspectos, somos interdependentes. Votamos naqueles que nos roubam, e continuamos votando, e negamos a relação de causa-e-efeito? Olhamos para o outro lado para as “não conformidades” do dia-a-dia (contrabando, venda sem nota, amigos se locupletando, violações de regras de trânsito…) e achamos que isso é inconsequente? Não é, suas consequências são a ampliação da base de fatos que justificam a frase “todo mundo faz”, que até um presidente já sacou…
O dia da Interdependência, em que, conscientes, comemoremos o fato que as coisas são como são porque agimos ou deixamos de agir, mas são também responsabilidade nossa, esse é o dia que devemos comemorar. Sendo este o país do amanhã, quem sabe, se amanhã


Update: segundo isto aqui, não devemos desistir.