sábado, 12 de março de 2011

Relato do terremoto no Japão

Por Thiago Junqueira de Castro Bezerra

Algum lugar de Fukushima-ken, 12 de Março de 2011 – 8:55 AM

Olá família e amigos,

Primeiramente quero agradecer muito os e-mails e mensagens enviados até agora e por vir. É muito bom que, mesmo apesar da grande distância, há pessoas com quem podemos contar e que estão preocupadas como nosso bem estar.

Aqui está tudo bem, estou dentro de um carro há pelo menos 15 horas, ao sul de Sendai, na prefeitura de Fukushima, numa parada para descanso, onde resolvi escrever este relato do quese passou até agora.

O dia começou normal, tirando o fato de que nos dois dias anteriores tivemos terremotos pela manhã. Eu estava no laboratório, quando, um pouco antes das 3 horas da tarde tudo começou a sacudir. Diferentemente das outras vezes, esse foi muito mais forte e longo, e a única coisa que pude fazer foi esconder-me debaixo da mesa, de onde podia ver as impressoras caminhando e uma chuva de livros. Digo longo, porque durou minutos, em vez dos segundos habituais. Logo que tudo acalmou saímos do prédio, todos muito assustados, e aguardamos por informações do que era para ser feito daquele momento em diante. Nisso o fornecimento de eletricidade já não estava disponível, além de estar muito frio e nevando.

Depois de um tempo, houvido notícias pelo rádio de pilha, fomos informados para retornar para casa e verificar se estava tudo bem, além do básico, de que deveríamos desconectar os aparelhos elétricos e fechar os regitros de água e gás. O celulares não estavam funcionando, não sei se por causa de congestionamento do sistema ou por garatir que pelo menos as chamadas de emergência pudessem ser feitas. Isso, pois a rede 3G estava acessível, e foi quando consegui enviar alguns poucos e-mails para avisar que estava tudo bem.

O próximo passo, foi entrar no carro com os Pos-docs do lab: Furuta-san e Thomas. O trânsito estava terrível. Gastamos, de carro, de 2 a 3 vezes mais tempo do que levaria se fossemos andando. E sempre havia âmbulancia e carros de bombeiros tentando passar.

Nisso, conseguimos deixar o Thomas na casa dele e fomos para o apartamento para onde me mudei. Quando chegamos lá já estava escuro. Difícilmente, com a luz do celular, consegui pegar umas coisas básicas e ver que estava tudo bem, tirando o fato da bagunça total. Pelo menos não havia vidros/janelas quebrados. Só na parte do banheiro que tinha água acumulada em torno do vaso, mas não consegui averiguar se ainda tinha algum vazamento, mas creio que não, já que o abastecimento de água e gás também foram cortados. Assim, rumamos para a casa do Furuta-san, onde conseguimos preparar uns cup-noodles salvadores e juntar mais alguns itens.

Foi então que decidimos rumar para o sul, onde aparentemente o terremoto deixou menos estragos. O tempo todos estamos com o rádio ligado e acompanhando as notícias. Por sorte, na área onde moro, entre a estação de trem de Sendai e o campus de Kawauchi da universidade de Tohoku, todos os prédios estavam intactos, e por estarmos há uns 10~15km da praia, os constantes alertas de tsunami não foram tão preocupantes. Infelizmente não tiveram a mesma sorte os que moram no lado leste, entre a estação e a praia. No inícios os alertas falavam de centímetros, até chegar nos atuais 10 metros. Tirando o rádio, não tenho como ver imagens ou saber como está tudo lá, provavelmente vocês sabem mais.

Enfim, conseguimos chegar numa região com eletricidade e uma loja de conveniência, lá pela 1:30 da manhã. Foi a primeira vêz que vi uma loja dessas quase sem nenhum produtos, devido a alta procura e falta de abastecimento. Dormimos no carro, pois também conseguirmos achar um posto de gasolina, e usamos o aquecedor.

Saímos lá pelas 7 da manhã pegamos a estrada de novo. No caminho até aqui, vimos alguns dos resultdaos do terremoto: um deslisamento de terra numa rodovia paralela que atingiu um caminhão, várias rachaduras, fissuras e elevações na estrada, casas que foram destelhadas, algo que parecia ser uma fábrica que os andares colapsaram, só o último ficando intacto, o resto parecia um sanduíche, além de um posto que o teto caiu e muros parciamente destruídos.

O mais surreal de tudo é que até agora conseguimos sentir, de tempos em tempos, terremotos menores, mas que quando estamos com o carro parado, ele sacode consideravelmente.

Bom, estamos tentando chegar numa cidade maior e encontrar um hotel. O que mais me deixa preocupado agora é não conseguir me comunicar com os outros e a falta de informação mais detalhada. Antes da bateria do celular acabar, consegui receber algumas mensagens deles falando que estavam bem. Acho que todos estão em abrigos, como ginásio de escolas, onde há comida e água. Também consegui muita informação pelo Facebook, já que só tínhamos acesso a rede 3G, e foi onde todos postaram informações que estavam bem.

Não estou me sentido nada confortável com essa situação, e o que mais penso agora é em voltar, ver como todos estão e poder ajudar no que for possível. Mas, Furuta-san acha que devemos continuar, achar o hotel, fazer a ligações e esperar que as coisas se acalmem. O trânsito no sentido oposto, rumo ao norte, também está todo travado, com um congestionamento gigantesco.

Apesar de todo o surrealismo da situação e transito infernal, quando estava em Sendai, a pessoas estavam calmas e fazendo que deve ser feito

Por fim, novamente obrigado pela conseideração de todos e desculpe pela demora. Quando der, mando também as pouquíssimas fotos, umas 3, que consegui tirar e o vídeo que fiz, quando consegui pensar em alguma coisa, quando o terremoto estava quase no fim.

Um grande abraço a todos,

Thiago Junqueira de Castro Bezerra, em frente a um MiniStop da rodovia 4 em Fukushima-ken.

9:30AM – a terra continua a tremer...

Nenhum comentário:

Postar um comentário