segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O pato sou eu

Todos têm o direito de sonhar. E, cada um, o direito de ser o dono do seu sonho

Fernando Sabino

No conto “O Gato Sou Eu”, Fernando Sabino defendia a frase acima. E, qualquer que seja o contexto, concordo com ele.

Minha paráfrase é um pouco mais realista: todos têm o direito de acreditar, e, cada um, o de pagar pela sua fé.

Explicando: apanhamos tanto na vida que nos acostumamos a nos esconder, de tudo e de todos, e tal qual gato escaldado, nos acostumamos a ter medo de água fria. Sábias palavras, que nos privam, sem dúvidas, de vários momentos bons, simplemente porque nossas experiências nos mostram um lado deste mundo que preferimos e escolhemos não ver. Por outro lado, há um outro lado, ao menos possível, que esse tipo de decisão exclui. O lado bom das coisas. E, se eu sou o pato, é porque, um dia, escolhi procurar o lado bom. Procurar, repito, mesmo onde ele não exista. (Mas que bobagem, ele sempre existe).

O fato é que, exceto naquelas ocasiões em que alguém tenta nos vender um apartamento na lua, o preço a pagar é o da aposta na humanidade. Se desconfiarmos de tudo e de todos, nossa vida fica mais pesada, e nossos caminhos sempre mais difíceis.

Por isso, escolho pagar o pato. Ou melhor, ser o pato. Prefiro pagar a conta, ser tomado por otário, ser considerado ingênuo, a deixar de acreditar nas pessoas. Escolho que o sofrimento é um preço razoável a pagar para descobrir pessoas, e o lado bom delas. Isso, além da óbvia pieguice, quer dizer o seguinte: sofro muito.

Sim, sofro, pois as pessoas nem sempre são o que aparentam ser. Algumas, machucadas demais, ou por demais dissimuladas, procuram oportunidades como essas como infecções oportunistas, e se instalam como podem, o quanto podem, e por quanto tempo for possível. Parecem que nos consideram, às vezes nem com isso se importam mais. Mas, infelizmente, existem.

Por outro lado, por mais que proliferem os daquele tipo, há aqueles que fazem por merecer nossa confiança, e se há um deste para cada mil daqueles, é neste que nossa aposta vale a pena. Porque, a cada vitória na crença em uma pessoa, há felicidade bastante para superar qualquer decepção com os outros. Não somente nossa felicidade, mas a felicidade “agregada”, que, neste caso, é a soma das felicidades que nossa condição de pato proporciona. O pato, por ser pato, e sempre haverá os patos, encontra sempre alguém que vale a pena, e cuja reação à mão estendida é do tamanho do sol, o que compensa toda uma vida de decepções.

Sinto muito por ser pato. Muito mal pelas tantas vezes em que quebramos a cara por sermos usados, como ferramentas ou objetos, ou mesmo coisas mais facilmente descartáveisl. Mas me sinto muito feliz pelos poucos que merecem nossa atenção.

Ser pato, portanto, é apostar que cada pessoa pode ser a pessoa que gostaríamos de ser.

E, de novo e por isso mesmo: o pato sou eu.

domingo, 24 de outubro de 2010

Difícil mas necessário

Algumas vezes, deparamos nos com situações em que é exigida uma decisão. Pronta, rápida, mas não necessariamente correta, pois não existe previjsão para algumas coisas.

Mas a vida nos ensina, e algumas vezes ignoramos esses ensinamentos em nome de uma situação idealizada, desejada. E pagamos o preço. preço esse que, muitas vezes, inclui outras pessoas, e que não precisamo pagar pelos nossos erros, Ou indecisões. Ou pela falta de decisão.

O fato é que aqui estamos, com esse livre arbítrio de que tanto falam, o o usamos tão pouco naquelas coisas que realmente fazem a diferença. Deixamos que a carga venha, pesada, mesmo tendo o poder de recebê-la de forma diferente. Aceitamos situações  que não queríamos para as pessoas mais queridas, simplemente por vontade de ver o sonho realizado.

Pois bem, como já se disse alhures, coragem não é não ter medo. Coragem é saber enfrentar o medo.

Paguemos os preços de nossas decisões, não de nossa indecisão.

Foi ótimo, por um tempo. Depois, o brilho acabou.

Fui.

Ti

Au.

PS: a imagem? Pretende ser Akela, do Jungle Book de Kipling.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Nossas certezas

De tanto ter certeza das coisas, aprendi que se pode ter certeza de pouquíssimas coisa nesta vida. Porque cada certeza nossa, comparada com as certezas alheias, são mera quimera, e desvanecem como fumaça ao primeiro sopro.

Acontece que nossas certezas têm exatamente essa solidez: a de uma nuvem de fumaça. Porque nossas percepções são influenciadas e alteradas pelos paradigmas que a vida nos impôs, e que aceitamos passivamente, sem crítica, ao longo da vida, somente para não nos afastarmos de nossa zona de conforto.

Aliás, essas nossas certezas são mesmo definidas pela nossa zona de conforto. Porque é muito perturbador que aceitemos, por um minuto que seja, e nem que seja ao menos idealmente, que podemos estar errados. Mas podemos.

Nossa zona de conforto, entretanto, tão acostumada a ignorar aquilo que deveria nos incomodar, prefere mesmo fechar os olhos a estes nossos erros, numa avaliação mais maternal que real. E, nesse avalição, nega-nos a possibilidade de crescimento pessoal, sob a égide de nos proteger de aborrecimentos. Sim, talvez nos proteja mesmo de aborrecimentos. Mas nos impede de ver a realidade em si, e, nessa negativa, nos impede de promover a saudável auto-avaliação promovedora da evolução. E impede que nossas ações tenham as consequências naturais, simplesmente porque nos negamos a enxerga-las, e, enxergando-as, nos negamos a admitir o nexo causal dos fatos.

Enfim, nossas certezas são somente uma certeza de que somos míopes, e de que não enxergamos senão a árvore, perdendo a visão da floresta. É aquela sensação de que matamos a vaca para matar o carrapato, mas na crença de que essa é a ação necessária.

Lamento sempre a falta de um espelho que me mostro quando isso acontece. E torço para que essa falha seja sanada. Porque, ao longo das consequências de nossas certezas, decisões são tomadas, e são decisões que afetam vidas. E afetar vidas, numa vida tão complexa, é algo de muita responsabilidade. Vidas de pessoas que nos importam, mas, mesmo que não importassem, ainda assim, vidas. Não podemos ser tão irresponsáveis.

Que nossas certezas não nos impeçam de viver nossas dúvidas. E que nossas dúvidas nos permitam conhecer as verdades particulares de cada um, pois cada um as tem de acordo com suas crenças e necessidades.

Lamento que tenhamos tantas certezas. Torço para compartilhar dúvidas, com alguém que tenha dúvidas, fazendo, assim, uma parceria de vida: aprender juntos.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Nossas certezas

De tanto ter certeza das coisas, aprendi que se pode ter certeza de pouquíssimas coisa nesta vida. Porque cada certeza nossa, comparada com as certexzas alheias, são mera quimera, e desvanecem como fumaça ao primeiro sopro.

Acontece que nossas certezas têm exatamente essa solidez: a de uma nuvem de fumaçca. Porque nossas percepções são influenciadas e alteradas pelos paradigmas que a vida nos impôs, e que aceitamos passivamente, sem crítica, ao longo da vida, somente para não nos afastarmos de nossa zona de conforto.

Aliás, essas nossas certezas são mesmo definidas pela nossa zona de conforto. Porque é muito perturbador que aceitemos, por um ninuto que seja, e nem que seja ao menos idealmente, que podemos estar errados. Mas podemos.

Nossa zona de conforto, entretando, tão acostumada a ignorar aquilo que deveria nos incomodar, prefere mesmo fechar os olhos a estes nossos erros, numa avaliação mais maternal que real. E, nesse avalição, nega-nos a possibilidade de crescimento pessoal, sob a égide de nos proteger de aborrecimentos. Sim, talvez nos proteja mesmo de aborrecimentos. Mas nos impede de ver a realidade em si, e, nessa negativa, nos impede de promover a saudável auto-avaliação promovedora da evolução. E impede que nossas ações tenham as consequências naturais, simplesmente porque nos negamos a enxerga-las, e, enxergando-as, nos negamos a admitir o nexo causal dos fatos.

Enfim, nossas certezas são somente uma certeza de que somos míopes, e de que não enxergamos senão a árvore, perdendo a visão da floresta. É aquela sensação de que matamos a vaca para matar o carrapato, mas na crença de que essa é a ação necessária.

Lamento sempre a falta de um espelho que me mostro quando isso acontece. E torço para que essa falha seja sanada. Porque, ao longo das consequências de nossas certezas, decisões são tomadas, e são decisões que afetam vidas. E afetar vidas, numa vida tão complexa, é algo de muita responsabilidade. Vidas de pessoas que nos importam, mas, mesmo que não importassem, ainda assim, vidas. Não podemos ser tão irresponsáveis.

Que nossas certezas não nos impeçam de viver nossas dúvidas. E que nossas dúvidas nos permitam conhecer as verdades particulares de cada um, pois cada um as tem de acordo com suas crenças e necessidades.

Lamento que tenhamos tantas certezas. Torço para compartilhar dúvidas, com alguém que tenha dúvidas, fazendo, assim, uma parceria de vida: aprender juntos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

The show must go on – mas não era disso que eu queria falar!

De vez em quando, quando levamos aqueles tombos em que a vida se especializou em nos dar, parece que o fim da linha chegou. Parece que tudo fica sem sentido, que nada mais se encaixará. E que nossos esforços sempre serão em vão.

A nossa história fala por nós, e, segundo Covey, fala alto. O que somos fala sempre mais alto do que nossas próprias palavras, e não se consegue desmentir esse grito.

Tento criar minha filha, a única eterna pessoa de minha vida, num ambiente de verdade e compromisso. A verdade, entende-se. Não gostamos de mentiras, e evitamos-las, para que não sejamos suas vítimas no dia-a-dia sórdido a que nos entregamos. O compromisso, entregamos-nos a ele para que nossa palavra tenha algum sentido. Morreremos, esta é uma verdade. Mas, enquanto vivermos, que nossas ações sejam pautadas por aqueles pequenos ou grandes comprometimentos a que nos engajamos.

Na solidão de nossos momentos íntimos, é preciso que pensemos que nossa vida tem sentido e faz sentido. É nesses momentos que avaliamos se nossa palavra tem credibilidade, se nosso comportamento é fiel, se nossas palavras têm significado.

Sempre que entro nesta espiral, procuro recuperar pessoas caras, ao menos em algum momento, à minha vida. E que, em algum momento, riscamos de nosso cotidiano. sempre me arrependo disto, pois as condicionantes raramente mudam.

Mas podiam ter mudado. Pessoas mudam, algumas vezes para melhor. E, nesse anseio pela mudança, pode ser que nos sejam caras novamente, ou que, pelo enfrentamento de seus problemas, estejam necessitando de amigos. Mas, pelo sim, pelo não, faço-me presente, sempre com aquela disposição de ajudar característica daqueles que querem sofrer. Não que seja o caso…

Mas que é, infelizmente. Um amigo de muito tempo sempre dizia: “o lobo perde o pêlo, mas não perde o couro”. Com razão infeliz, tenho de reconhecer: é dar murros em ponta de faca.

Eu escolho quais facas esmurrar. Às vezes, escolhemos errado. Mas, se tinha sentido e valia a pena, valeu a pena o sofrimento.

Chega!

Músicas

 

A verdade – Carlos Drummond de Andrade

Uma amiga  muito querida e há muito perdida, a propósito do fim das ativadades deste blog, me liga e me conta, ou melhor, reconta, uma antiga história. E me pede, por conta das histórias conjuntas, que deixe um pouco mais os textos (até que ela tenha tempo para copiar alguns, dos menos sofríveis. Ok, por conta da amizade. E ela pede também, a abusada, que eu republique o texto abaixo, marcante em nossas vidas. Concedidos.

 

A verdade – Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.


Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Se concedo, é porque atendo ao nosso pacto, já amarelado pelo tempo, de contribuir para o crescimento mútuo. Pois que muitos dos textos concretizam uma preocupação compartilhada com crescimento pessoal e autoavaliação. E, como de praxe, que envolvia muitas gente, mas que o tempo foi deixando pelo caminho.

Nossas cãs, já predominantes, são o sinal de que o tempo está passando. Mas nossa dinâmica pessoal,  ao lado dos nossos e das pessoas que nos são caras tendem a desmentir as cãs. Sou pela fé na vida, que tudo coloca no lugar.

Obrigado pelas palavras amigas, que soam como luz guia quando a noite se faz mais escura.