segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Semeando no deserto

istockphoto_4295733-walking-in-the-gobi[1] Certo dia, deparei-me com um homem, a indefectível Bíblia na mão,  pregando aos ventos em São Paulo, no Viaduto do Chá. Literalmente aos ventos, já que platéia não havia. Só seu esforço por dizer o que a ninguém parecia interessar. Ainda assim, devia ser sua grande sua convicção, pois ele mantinha seu discurso como se centenas de pessoas estivessem a ouvi-lo.

Algumas vezes me perguntam se este Blog tem algum sentido senão o de expor o meu “eu”, coisa absolutamente desnecessária e indesejada. E, como no exemplo daquele homem lá do viaduto, concluo que não, não tem a pretensão de fazer acólitos, senão o de propagar minhas idiossincrasias, transformada em efemérides. É o meu boteco digital, onde todos falam o que querem, sem se incomodar se há alguém a ouvir, pelo simples sentimento catártico de ser ouvido.

O processo de comunicação é, muitas vezes, complicada. Não há backspace na conversa, e o dito o foi indelevelmente. Os textos nos dão tempo de reler, trocar palavras, revisar frases, censurar pensamentos e opiniões nossas mesmos, na extrema autocensura: discordar de si mesmo, ainda em tempo de pensamento.

Algumas pessoas que lêem estas mal digitadas nem sempre entendem os textos. Por que alguns deles se referem a coisas particulares, minhas somente ou compartilhadas com alguém (como o Conto do Pé Esquerdo). mas, como é meu boteco, faço as promoções que quero, e publico o que vai pela minha cabeça.

Muitas das coisas que publico são sérias, embora, talvez, irônicas. Mas acredito realmente nelas, e é uma forma de perpetuar o que sinto. Estes dias, por exemplo, reli um texto antigo, e me surpreendi comigo mesmo. Ou melhor, com as opiniões ali expressas. Como se fosse uma novidade para mim, essa produção sem limites de textos acaba, mesmo, fazendo com que me exponha.

Fico pensando sobre o alcance desse tipo de coisa. Quando criança, tinha uma amiga, Julie, minha pastora alemã, que me acompanhava e me ouvia quando tinha que falar algo com alguém. Muitas vezes me pego falando com ela, já há muito falecida.

Por outro lado, há alguns textos que são muito acessados, e parece que interessam a alguém. Saber que estas mal digitadas consegue ajudar alguém (pretensão, pode ser que nem gostem) é motivo suficiente para que eu mantenha o Efemérides. Mas mantenho firme um propósito: o de não publicar textos sobre minha vida profissional, embora daqui a alguns dias eu venha a quebrar essa regra, a pedido de uma amiga.

Mas continuo firmemente decidido a semear no deserto. Pode ser que eu não mude o mundo, mas o mundo não há de me mudar.

E, de mais a mais, se alguém não quiser ler, é só mudar de página. Essa é a beleza da internet.

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