terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Conto do Pé Esquerdo

1208789_baby_feet_2[1] Era uma vez um pé. Esquerdo. Parceiro do direito, mas escondido.

Fazia tudo que o parceiro fazia, às vezes antes, às vezes depois, algumas vezes junto. Mas não tinha os mesmos privilégios. Pois não lhe tiravam a meia. Qualquer que fosse.

A não ser quando inevitável. E o Pé Esquerdo começou a sentir os efeitos do isolamento. Já não conhecia o mundo mais como seu parceiro, Pé Direito. Tropeçava mais, porque o caminho não via. Estava branco, pois não se expunha ao sol. Tinha já manchas de mofo, como se fosse da meia masmorra. Ou da masmorra de meia, sei lá.

Sua autoestima andava sumida, como se escondida na meia, pois o Pé Direito, senhor de todas as atenções, começou a se achar dono do pedaço. Não contribuía com o ânimo do Pé Esquerdo o ditado popular, que maldizia quem começasse… com o Pé Esquerdo.

Começou a se achar o pé errado. Começou a se sentir como se fosse dispensável, como se fosse uma aberração, e o Saci fosse o ícone de beleza. Não exageremos, racionalizava ele. O Saci não tem toda uma perna, não era o caso. Em todo caso, o Pé Esquerdo torcia para que a única perna do Saci fosse também a esquerda…

Nesse meio tempo, o Pé Direito começou, por causa de sua presunção, a “meter os pés pelas mãos”. O que ajudou o Pé Esquerdo na sua luta pela igualdade. Pois é claro que ambos os pés vão juntos nessa situação, mas o Pé Esquerdo, escondido na meia, nunca era reconhecido. Dizia-se apenas “enfiou o pé direito e um pé desconhecido pelas mãos”. Quando o Pé Direito passou a ser procurado pelas malfeitorias (tropeções, escorregadas, pé-de-atleta, etc.) o Pé Esquerdo passou a ser reconhecido pela discrição.

Dizia-se que não era justo ele ter o parceiro que tinha. E que, enquanto aquele “chutava o balde”, este era quase um pé-de-meia: sempre no colchão.

O Pé Direito, com o passar do tempo, perdeu credibilidade. E o Pé Esquerdo passou a exigir a atenção que merecia. Já saia da meia sozinho, meio assustado com a luz do sol, mas totalmente feliz. Passou a ser o pé de apoio, passou a ser a referência do passo. Passo a passo, o pé esquerdo ganhou seu espaço. Ainda meio assustado, mas considerando-se um pé-determinado, perdão, pré-determinado à liberdade.

E foi assim, pé ante pé, que o nosso Pé Esquerdo caminhou, a passos largos, para sua redenção. Ocupou seu lugar, e hoje dá equilíbrio às ações do Pé Direito. Que, pémido, perdão, premido pela realidade, passou a ser mais compénheiro, perdão, companheiro, mais humilde, mais pé no chão.

E nosso amigo Pé Esquerdo ocupou finalmente seu lugar na história. no Pé da história, mas que coisa, diferente não poderia ser.

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