terça-feira, 21 de setembro de 2010

Mea culpa

Uma amiga, em uma crise pessoal, me ligou indignada:

- Onde você está desta vez? Porque você não está aqui quando eu preciso?

É verdade, mas não é somente quando ela precisa.Eu preciso reconhecer: há muito minha vida profissional me leva para os mais distantes pontos do país, e não só os amigos que se ressentem.

Minha ausência é um peso no meu relacionamento familiar, por exemplo. Minha filha com quem minha convivência é riquíssima, está suportando estoicamente esta fase de maior tempo ausente. Sabemos que não é fácil. Acostumados a compartilhar angústias, estas se acumulam, pela simples inexistência de caminhos de vazão. Nós que por vezes nos sentamos no sofá somente para conversar, sobre qualquer coisa, e somos capazes de passar horas assim, sem tv, sem internet, somente aproveitando a doce convivência de quem se ama. Neste momento, eu afastado, perseguindo uma meta profissional, nossa maior emoção é saudade. E é uma emoção que dói como ferida aberta, principalmente porque somos muito próximos.

Reconheço: estou sendo um péssimo pai. Ausente, longe, que tipo de suporte posso dar a ela?

Mas é preciso reconhecer mais. Estou sendo um péssimo filho, de minha mãe que sente a falta, e do meu pai há muito levado. Estou sendo um péssimo irmão, daqueles que não participa do dia-a-dia, que se espanta com a novidade e com a velocidade da vida.

Estou sendo um péssimo amigo, já que não posso dar sempre o desprazer de minha presença àqueles que resolveram assim me chamar. E não estou nos momentos bons, nem nos momentos ruins. Simplesmente não estou.Não vejo seus filhos crescerem, não acompanho as reuniões semanais ou quinzenais que tínhamos, mas os chateio como antes, exceto por telefones, mais parecidos com mensagens telegráficas, para me sentir presente, mas me sabendo ausente.

E essa amiga precisa de um ombro, um anteparo, proteção e conforto. E onde está seu amigo? Ela não sabe.

E eu aqui, morando num hotel, sozinho maior parte do tempo, rodeado por pessoas que têm seus amigos, e todas as responsabilidades acima, só que aqui, onde quer que seja esse “aqui”.

Certa vez, perante uma oportunidade de uma carreira internacional, escolhi ver minha filha crescer. Com poucos meses, jamais me perdoaria se não a tivesse acompanhado, e talvez eu não tivesse hoje essa grande amiga que muitas esqueço ser filha.

Mas a vida urge. E se o acaso me levar, para onde terei conduzido minha vida? Nesta ausência, nesta negligência no meu papel de pai, de irmão, se tio, de filho, se tudo se acabasse, como é que justificaria a distância daqueles que me são mais caros?

E essa amiga, assim como minha filha, a quem ofereço minha presença para tentarmos, juntos, superar as agruras da existência, como posso justificar o ombro negado?

Acho que não posso. Por vezes, a sobrevivência fala muito alto. Por vezes cobra preços altos demais. E, aqui, dentre as paredes frias deste quarto insosso de hotel, sozinho com estas angústias e algumas outras, me pergunto: valerá a pena?

Minha culpa. Minha exclusiva culpa. Que me perdoem pelos rumos da vida, meus amigos, minha família, minha filha. Isto vai mudar.

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