sábado, 25 de setembro de 2010

Manifesto contra a distância

istockphoto_9479357-road-to-somewhere[1] Quando minha filha tinha menos de um ano, fui convocado a Brasília, e me ausentei pela primeira vez desde seu nascimento. Foram me deixar, e ela chorava dentro do carro, e eu, fora. Era a “ameaça” da distância.

Distância, o “delta e”, a diferença de espaço, o conceito da física. Mas, mais que isso, é uma realidade. É uma impossibilidade, uma restrição. É uma forma que encontrou a vida de afastar-nos concretamente das coisas que nunca saem de nossas mentes. É o desafio de qualquer um, quando tem uma distãncia, ínfima ou enorme, daquele com quem se deseja estar.

É a solução, reconheçamos, para os relacionamentos fracassados, para aqueles que precisam de perspectiva, para os magoados, para os seriamente machucados. Para eles, talvez, e somente talvez, seja um bálsamo, uma catarse. Porque para a maioria dos mortais, que estejam, claro, fora dessa situação, a distância é uma tortura, uma imposição, uma injustiça. É o supra-sumo da contradição, pois na era da internet, em que o mundo é global, a distância é real. É a concretização da física, tão esquecida, tão odiada, mas irritantemente correta.

É a forma de nos lembrarmos que nossas ações têm força e consequência, e que tudo que fazemos sofrerá o escrutínio regido pela distância. Façamos, portanto, aquilo que queremos que o tempo e ela, a (agora) maldita distância, julguem bem.

Mas, como tudo que existe, também a distância tem dois lados. Pois a distância de algo é a proximidade de outra coisa, e durma-se com um barulho desses.

Aproximamos-nos de coisas que queremos, pela distância das coisas que precisamos. Ou vice-versa. Mas a distância, esse prenúncio de saudade, é somente relativa, embora absoluta (ahn?, diria uma amiga. Bebeste água da louça?). Sim, pois a distância é medida em metros, ou kilômetros (absoluta), mas é mitigada pelas nossas ações e construções )relativa), em que a distância, compreendida como necessária, é mera questão de tempo, não de espaço. É um período em que o coração bate mais alto, mas somente para ser ouvido, onde quer que estejam os ouvidos.

Einstein e Hawking não concordariam, mas, ora, que diabos, eu não concordo com a Lei da Relatividade, e entretanto…

Não há mal que dure para sempre, não há distância que resista à vida… É tarefa nossa construir e lidar com isso.

Ou não?

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A Alegoria das Cavernas de Platão: em que posição estaremos?

istockphoto_13607459-cave-with-sunlight[1] Na clássica alegoria das cavernas, de Platão, há os que conhecem o mundo pelas sombras que a vida projeta em suas paredes, e somente por elas. Quando apresentados a uma verdade mais abrangem,te sua tendência é desacreditar, ou negar, aquilo que sua experiência não contempla. E, mais, distanciam-se daqueles que, conhecendo aquela realidade, lhes apresenta o contraste das idéias.

Em nossas vidas, vivemos, de diferentes formas e profundidades, da Síndrome da Caverna. Nossa experiência projetou, de acordo com nossa percepção dor-prazer, sombras da realidade em nossas paredes. E, mesmo que apresentados a realidades alternativas, emocional ou racionalmente, negamos a verdade, ao menos a nova verdade.

O que faz de nossas cavernas mais abrangente que a de Platão. Nossas cavernas têm níveis, e avançamos de nível cada vez que nos permitimos conhecer uma nova verdade. Ou, ao menos, uma nova percepção da verdade, e é disso que se trata.

O problema é que as sombras que nos condicionam não são representações objetivas da realidade. São percepções, caminhos, experiências. São resultado de um caminho construído, não um mero fenômeno físico. Por isso, mais complexas, e também por isso, de maior dificuldade de adesão. Como aceitar que a sombra que se projeta pode ser moldada, não por elementos objetivos, por por forças volitivas? E resultado de nossa volição, fruto de nossa vontade e de nosso esforço. Por isso, construção.

Tendemos a olhar nossos companheiros de caverna que ficaram para trás com uma ponta de piedade. Lamentamos sua restrição, sua limitação. Revoltamos-nos com sua negativa da realidade, evidente, real. Mas não percebemos que nós mesmos, mesmo nesse estágio, somente mudamos de caverna. Ainda há verdades fora de nossos alcance, mesmo aquelas que pertencem somente a nós. E, quando percebemos, não nos lembramos desse processo de análise de nossos ex-companheiros de caverna. Somente progredimos.

O processo de evolução da caverna poderia ser um grande aprendizado. Poderia ser a forma de percebermos que cavernas se sucedem, e nosso esforço está em aprender o que projeta as sombras que percebemos como vida, e, assim, enxergarmos o próximo nível. Mas não é. Nossa soberba nos faz sentir que, a cada evolução, está conquistado o mundo. E, talvez, não pudesse mesmo ser diferente. A angústia do ser perante sua perene falta de conhecimento poderia ser cruel demais. Em vez, vivemos a clássica tese das evoluções: tese-crise-antítese.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Mea culpa

Uma amiga, em uma crise pessoal, me ligou indignada:

- Onde você está desta vez? Porque você não está aqui quando eu preciso?

É verdade, mas não é somente quando ela precisa.Eu preciso reconhecer: há muito minha vida profissional me leva para os mais distantes pontos do país, e não só os amigos que se ressentem.

Minha ausência é um peso no meu relacionamento familiar, por exemplo. Minha filha com quem minha convivência é riquíssima, está suportando estoicamente esta fase de maior tempo ausente. Sabemos que não é fácil. Acostumados a compartilhar angústias, estas se acumulam, pela simples inexistência de caminhos de vazão. Nós que por vezes nos sentamos no sofá somente para conversar, sobre qualquer coisa, e somos capazes de passar horas assim, sem tv, sem internet, somente aproveitando a doce convivência de quem se ama. Neste momento, eu afastado, perseguindo uma meta profissional, nossa maior emoção é saudade. E é uma emoção que dói como ferida aberta, principalmente porque somos muito próximos.

Reconheço: estou sendo um péssimo pai. Ausente, longe, que tipo de suporte posso dar a ela?

Mas é preciso reconhecer mais. Estou sendo um péssimo filho, de minha mãe que sente a falta, e do meu pai há muito levado. Estou sendo um péssimo irmão, daqueles que não participa do dia-a-dia, que se espanta com a novidade e com a velocidade da vida.

Estou sendo um péssimo amigo, já que não posso dar sempre o desprazer de minha presença àqueles que resolveram assim me chamar. E não estou nos momentos bons, nem nos momentos ruins. Simplesmente não estou.Não vejo seus filhos crescerem, não acompanho as reuniões semanais ou quinzenais que tínhamos, mas os chateio como antes, exceto por telefones, mais parecidos com mensagens telegráficas, para me sentir presente, mas me sabendo ausente.

E essa amiga precisa de um ombro, um anteparo, proteção e conforto. E onde está seu amigo? Ela não sabe.

E eu aqui, morando num hotel, sozinho maior parte do tempo, rodeado por pessoas que têm seus amigos, e todas as responsabilidades acima, só que aqui, onde quer que seja esse “aqui”.

Certa vez, perante uma oportunidade de uma carreira internacional, escolhi ver minha filha crescer. Com poucos meses, jamais me perdoaria se não a tivesse acompanhado, e talvez eu não tivesse hoje essa grande amiga que muitas esqueço ser filha.

Mas a vida urge. E se o acaso me levar, para onde terei conduzido minha vida? Nesta ausência, nesta negligência no meu papel de pai, de irmão, se tio, de filho, se tudo se acabasse, como é que justificaria a distância daqueles que me são mais caros?

E essa amiga, assim como minha filha, a quem ofereço minha presença para tentarmos, juntos, superar as agruras da existência, como posso justificar o ombro negado?

Acho que não posso. Por vezes, a sobrevivência fala muito alto. Por vezes cobra preços altos demais. E, aqui, dentre as paredes frias deste quarto insosso de hotel, sozinho com estas angústias e algumas outras, me pergunto: valerá a pena?

Minha culpa. Minha exclusiva culpa. Que me perdoem pelos rumos da vida, meus amigos, minha família, minha filha. Isto vai mudar.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Comunicação é um processo. Confiança é uma construção

istockphoto_9994344-white-dove-carrying-message[1] Nem sempre comunicamos tudo que queremos. Ou como queremos. A comunicação, processo bidirecional,ainda depende dos tradutores mentais de que dispomos. Como na reação pavloviana, algumas mensagens podem ser interpretadas como nossa reações mais primordiais com relação ao conteúdo e mesmo emissor.

Como disse Stephen Covey sobre problemas de comunicação entre pessoas contaminadas por uma relação, o que a pessoa é às vezes fala mais alto do que a pessoa diz. Ou, a ironia moderna, contra argumentos não há fatos.

Ainda nos comportamos, e me incluo nisso, como escolhendo o pior cenário do que dizem. E, se me preocupo em esclarecer o conteúdo do que ouvi, sempre me fico com a impressão de estar demonstrando fraqueza, o que é intimidador no processo de comunicação. Por esse motivo, entendemos pelo lado menor, mais pejorativa, mais ameaçador, e dúvidas não esclarecemos, com medo de que a situação piore.

Na base disso, a confiança, ou falta dela. Como podemos esclarecer o que nos arrasa o peito se o próprio esclarecimento é ameaça? Como é que podemos clarificar o processo de comunicação se esse esclarecimento causa, ele próprio, uma cortina de fumaça mesmo naquelas pessoas nas quais confiamos?

E, assim, de decepção em decepção, colocamos o medo na comunicação, sendo sempre menos claros do que gostaríamos. Ou precisávamos. Escondemos-nos do que nos ameaça, mesmo que essa fuga nos cause decepções. Porque às vezes a decepção é preferível ao desnudamento, e menos invasiva.

Em “1984”, o livro de George Orwell, Winston se abre para O’Brien. E paga o preço por isso. Metaforicamente, os o’briens são essas pessoas em quem confiamos, mas que chama a polícia do partido para nos prender por causa de nossas opiniões. Estamos perdendo a capacidade de ouvir, interpretar,esclarecer, ou escolhemos não tê-la. Afastamos e afastamos-nos daqueles que nos são mais caros por causa dessa particularidade, e perdemos as pessoas.Ao menos, perdemos a proximidade, que uma morte, ao menos da amizade mais cara.

O ser humano saiu das cavernas, inventou a roda, as armas, e computador. Foi à lua, clonou um ser vivo, entendeu o átomo. Mas não consegue vencer as barreiras do medo, do preconceito, da comunicação. Ainda não existe remédio para a falta de disposição de ouvir, entender, viver harmoniosamente. O resultado são os divórcios, as inimizades, os assassinatos. E, menos trágicos, são os relacionamentos que terminam e as amizades que esfriam.

Eu queria poder ser o mais transparente possível, dizer das minhas angústias e percepções. Mas, droga, se isso me custar caro, obviamente vou evitar. Infelizmente, nossa casca de ostra nos protege. E nos impede de realizar , conjuntamente, um universo de coisas.

Droga!

 

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Semeando no deserto

istockphoto_4295733-walking-in-the-gobi[1] Certo dia, deparei-me com um homem, a indefectível Bíblia na mão,  pregando aos ventos em São Paulo, no Viaduto do Chá. Literalmente aos ventos, já que platéia não havia. Só seu esforço por dizer o que a ninguém parecia interessar. Ainda assim, devia ser sua grande sua convicção, pois ele mantinha seu discurso como se centenas de pessoas estivessem a ouvi-lo.

Algumas vezes me perguntam se este Blog tem algum sentido senão o de expor o meu “eu”, coisa absolutamente desnecessária e indesejada. E, como no exemplo daquele homem lá do viaduto, concluo que não, não tem a pretensão de fazer acólitos, senão o de propagar minhas idiossincrasias, transformada em efemérides. É o meu boteco digital, onde todos falam o que querem, sem se incomodar se há alguém a ouvir, pelo simples sentimento catártico de ser ouvido.

O processo de comunicação é, muitas vezes, complicada. Não há backspace na conversa, e o dito o foi indelevelmente. Os textos nos dão tempo de reler, trocar palavras, revisar frases, censurar pensamentos e opiniões nossas mesmos, na extrema autocensura: discordar de si mesmo, ainda em tempo de pensamento.

Algumas pessoas que lêem estas mal digitadas nem sempre entendem os textos. Por que alguns deles se referem a coisas particulares, minhas somente ou compartilhadas com alguém (como o Conto do Pé Esquerdo). mas, como é meu boteco, faço as promoções que quero, e publico o que vai pela minha cabeça.

Muitas das coisas que publico são sérias, embora, talvez, irônicas. Mas acredito realmente nelas, e é uma forma de perpetuar o que sinto. Estes dias, por exemplo, reli um texto antigo, e me surpreendi comigo mesmo. Ou melhor, com as opiniões ali expressas. Como se fosse uma novidade para mim, essa produção sem limites de textos acaba, mesmo, fazendo com que me exponha.

Fico pensando sobre o alcance desse tipo de coisa. Quando criança, tinha uma amiga, Julie, minha pastora alemã, que me acompanhava e me ouvia quando tinha que falar algo com alguém. Muitas vezes me pego falando com ela, já há muito falecida.

Por outro lado, há alguns textos que são muito acessados, e parece que interessam a alguém. Saber que estas mal digitadas consegue ajudar alguém (pretensão, pode ser que nem gostem) é motivo suficiente para que eu mantenha o Efemérides. Mas mantenho firme um propósito: o de não publicar textos sobre minha vida profissional, embora daqui a alguns dias eu venha a quebrar essa regra, a pedido de uma amiga.

Mas continuo firmemente decidido a semear no deserto. Pode ser que eu não mude o mundo, mas o mundo não há de me mudar.

E, de mais a mais, se alguém não quiser ler, é só mudar de página. Essa é a beleza da internet.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Conto do Pé Esquerdo

1208789_baby_feet_2[1] Era uma vez um pé. Esquerdo. Parceiro do direito, mas escondido.

Fazia tudo que o parceiro fazia, às vezes antes, às vezes depois, algumas vezes junto. Mas não tinha os mesmos privilégios. Pois não lhe tiravam a meia. Qualquer que fosse.

A não ser quando inevitável. E o Pé Esquerdo começou a sentir os efeitos do isolamento. Já não conhecia o mundo mais como seu parceiro, Pé Direito. Tropeçava mais, porque o caminho não via. Estava branco, pois não se expunha ao sol. Tinha já manchas de mofo, como se fosse da meia masmorra. Ou da masmorra de meia, sei lá.

Sua autoestima andava sumida, como se escondida na meia, pois o Pé Direito, senhor de todas as atenções, começou a se achar dono do pedaço. Não contribuía com o ânimo do Pé Esquerdo o ditado popular, que maldizia quem começasse… com o Pé Esquerdo.

Começou a se achar o pé errado. Começou a se sentir como se fosse dispensável, como se fosse uma aberração, e o Saci fosse o ícone de beleza. Não exageremos, racionalizava ele. O Saci não tem toda uma perna, não era o caso. Em todo caso, o Pé Esquerdo torcia para que a única perna do Saci fosse também a esquerda…

Nesse meio tempo, o Pé Direito começou, por causa de sua presunção, a “meter os pés pelas mãos”. O que ajudou o Pé Esquerdo na sua luta pela igualdade. Pois é claro que ambos os pés vão juntos nessa situação, mas o Pé Esquerdo, escondido na meia, nunca era reconhecido. Dizia-se apenas “enfiou o pé direito e um pé desconhecido pelas mãos”. Quando o Pé Direito passou a ser procurado pelas malfeitorias (tropeções, escorregadas, pé-de-atleta, etc.) o Pé Esquerdo passou a ser reconhecido pela discrição.

Dizia-se que não era justo ele ter o parceiro que tinha. E que, enquanto aquele “chutava o balde”, este era quase um pé-de-meia: sempre no colchão.

O Pé Direito, com o passar do tempo, perdeu credibilidade. E o Pé Esquerdo passou a exigir a atenção que merecia. Já saia da meia sozinho, meio assustado com a luz do sol, mas totalmente feliz. Passou a ser o pé de apoio, passou a ser a referência do passo. Passo a passo, o pé esquerdo ganhou seu espaço. Ainda meio assustado, mas considerando-se um pé-determinado, perdão, pré-determinado à liberdade.

E foi assim, pé ante pé, que o nosso Pé Esquerdo caminhou, a passos largos, para sua redenção. Ocupou seu lugar, e hoje dá equilíbrio às ações do Pé Direito. Que, pémido, perdão, premido pela realidade, passou a ser mais compénheiro, perdão, companheiro, mais humilde, mais pé no chão.

E nosso amigo Pé Esquerdo ocupou finalmente seu lugar na história. no Pé da história, mas que coisa, diferente não poderia ser.

O tempero da vida: vitórias e derrotas

istockphoto_2311855-trail-running[1] Publiquei este texto de Lourenço Diaféria, que ganhei em meio a uma grande crise, percebida por um grande amigo, que emprestou as palavras do texto para me animar. Desde então, sempre que necessário, recorro a ele, seja para servir da mesmo forma com que fui agraciado, seja para relembrar da atitude que escolhi para nortear minhas ações.
Seria pueril achar que a vida é feita só de vitórias.Mas, infelizmente, é o que todos gostaríamos que fosse. Que problemas não existissem, nem as soluções, por absoluta desnecessidade. Mas não é assim. E ainda bem que não é.
Mas só percebemos o valor da adversidade quando já a deixamos para trás. Somente quando é uma mera lembrança é que achamos que os problemas são úteis e importantes. No auge da crise, entretanto…
Problemas são as derrotas nossas do dia-a-dia. Mas são a motivação para que aprendamos, para que nos aprimoremos. São nosso teste da verdade, como que uma aferição do real valor que temos para atingir aos nossos mais altos ideais. E é tão difícil lembrar disso…
Pois bem! Se olharmos para trás, na busca de lições do passado, vamos lembrar que em todo problema, por maior que fosse, sempre tinha aquele momento em que tudo parecia perdido e sem saída. Aquele instante em que achávamos que nada mais se resolveria. Aquele momento de tensão tão aguçada que parecia mesmo o fim. E esse momento acabava passando, de forma muitas dissimulada, de forma drástica em outras vezes, mas acabava passando. É o ponto alto da escuridão da noite, que precede ao raiar do sol. Mas que, mesmo sabendo assim, nos intimida avassaladoramente. E nos apequena, nos fragiliza, nos faz sentir como se fôssemos um mero capricho…
E, no momento seguinte ao do surgimento da luz, quando finalmente damos o assunto por encerrado e superado, nem sequer nos lembramos do valor que demos ao problema. E nem à solução.
Pois bem, precisamos mesmo é querer a solução, fazer dela nosso motivo, e criar o brilho próprio, aquele que se encarregará do momento mais escuro da noite… precisamos é dar ao problema o exaro valor que ele merece, e ele não merece mais do que nossa engenhosidade permite. Ele sempre será limitado pela força de nossa vontade, pelo nossa determinação, pela nossa necessidade, ou pela nossa coragem, mesmo que irresponsável, se é que é possível.
Por isso, para nos dirigir ao que interessa, republico o texto:
Quando vai ser a próxima Corrida?
Lourenço Diaféria
Você venceu!
Você chegou onde queria.
Se lembra quando lhe disseram que a parada iria ser dura?
Muitos nem tentaram.
Muitos desistiram.
Muitos desanimaram.
Muitos falaram que não valia a pena.
Mas você chegou onde queria.
Foi difícil, a pista estava escorregadia.
Quantas pedras no meio do caminho.
Não eram todos que aplaudiam. Alguns o olhavam com olhar de descrença, diziam: - Coitado, é um sonhador.
Bolhas nos pés, tênis apertado, o suor escorrendo pelo rosto, a ladeira íngreme, e o dramático instante da dúvida: paro ou continuo?
Uma decisão apenas sua.

Alguns estavam caídos de cansaço e tédio.
Havia ainda um longo caminho pela frente,
e havia mais curvas do que retas.
Alguém o animou - Força, cara.
Alguém o provocou - E agora, cara?
Alguém tripudiou - Larga disso, cara.

Lembra?, você teve uma baita vontade de ir embora, de pegar suas coisas e dizer - Tchau mesmo, quero que tudo se lixe, pra mim chega, já dei minha cota, não tem mais jeito - e virar as costas à luta, à incompreensão, ao sacrifício.
Você teve vontade de ir para uma ilha deserta onde vertessem leite e mel.

Você olhou em frente. O horizonte era uma sombra parda.
Mas mesmo nessa hora tensa, pelo sim pelo não, você não parou de correr.
Talvez tenha diminuído o tamanho do passo, porque ninguém é de pedra e o coração da gente não pode ser medido com trena e compasso.
Mas você não parou porque sabia que no meio da multidão havia um recado mudo aguardando a sua decisão.
De sua decisão dependia a esperança de gente que você nem conhecia.
Então você tomou um fôlego, abriu o peito, e com os pés no chão e os olhos lá na frente, mandou ver.
Não importava tanto a colocação.
Você lutava para construir a sua parte no edifício do destino.

E foi seguindo.
Sem perceber, arrastou com seu exemplo muitos que pensavam em ficar no meio do caminho.
E você venceu.
Você chegou onde queria.
Ou você não venceu.
Você não chegou onde queria.
As coisas não deram certo, você tropeçou, havia um buraco, e outro buraco, e mais um buraco no chão feito de armadilha.
Você caiu, rolou, ah, houve gente que riu!
Alguém vaiou.
Você não venceu. Você não chegou onde queria.
Esfolou a pele, abriu ferida, em vez de estrelas o cobriu um manto cravejado de ridículo.
O suor de seu rosto foi em vão.
Em vão seus músculos latejaram.
Tudo em vão.
Apanhe seu embornal de mágoa, fique de mal com o mundo, abandone a pista.
Você teve a tentação.

Mas na multidão alguém esperava seu gesto de conquista.
Vamos, rapaz, esfregue a perna. Levante os ombros.
Não deixe que se apague o brilho dos seus olhos.
Escute o bater abafado do coração que insiste.
Você está vivo, e não está vivo à toa.

Você se levantou, se lembra?, e a vaia lhe soou como sinfonia.
Recomeçou a corrida e quando, por fim, você chegou - não em primeiro, como sonhava - mas chegou, o suor de seu rosto parecia purpurina.
Todos pensavam que você estivesse satisfeito por haver chegado.
Então você recolheu os retalhos de suas forças e perguntou:
- Quando é que vamos disputar a próxima corrida?
E foi neste momento que você venceu e chegou onde queria!