segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Quando tudo parecia sob controle…

Desde há muito venho “me” trabalhando na questão de controle emocional. E com resultados excelentes, acho, pois recebo muitos feedbacks nesse sentido. O que propiciou até esse post aqui.

Aí, vem a vida e nos dá aquela rasteira, mostrando quem de fato está no controle.

A resposta é uma só: ainda somos nós. Mas nos esquecemos de praticar, tal como acontece com aqueles que têm a soberba. Quando achamos que já atingimos nossos objetivos, é hora de parar e olhar para trás, para nos relembrarmos dos erros cometidos, e para a frente, antevendo aqueles que ainda serão parte de nossa história. A verdade é que sempre somos menos do que pensamos, e aí reside nosso erro fundamental, aquele de acharmos que tudo está pronto.

Parte dessa soberba é sermos refratários aos sinais que mostram o quanto somos parte daquilo que criticamos. O quanto contribuímos para a manutenção das coisas que criticamos. O quanto somos, na verdade, causa, e não consequência. E mais, muito mais importante: o quanto nos destituímos de responsabilidades, escondendo-nos em justificativas, quando não admitimos que outras pessoas façam a mesma coisa.

Enfim, obrigo-me a republicar o texto abaixo:

Eu me recordo de uma mudança de paradigma que me aconteceu em uma manhã de domingo, no metrô de Nova York. As pessoas esta­vam calmamente sentadas, lendo jornais, divagando, descansando com os olhos semicerrados. Era uma cena calma, tranqüila.

Subitamente um homem entrou no vagão do metrô com os filhos.

As crianças faziam algazarra e se comportavam mal, de modo que o clima mudou instantaneamente.

O homem sentou-se a meu lado e fechou os olhos, aparentemente ignorando a situação. As crianças corriam de um lado para o outro, ati­ravam coisas e chegavam até a puxar os jornais dos passageiros, inco­modando a todos. Mesmo assim o homem a meu lado não fazia nada.

Ficou impossível evitar a irritação. Eu não conseguia acreditar que ele pudesse ser tão insensível a ponto de deixar que seus filhos incomo­dassem os outros daquele jeito sem tomar uma atitude. Dava para per­ceber facilmente que as demais pessoas estavam irritadas também. A certa altura, enquanto ainda conseguia manter a calma e o controle, virei para ele e disse:

- Senhor, seus filhos estão perturbando muitas pessoas. Será que não poderia dar um jeito neles?

O homem olhou para mim, como se estivesse tomando consciência da situação naquele exato momento, e disse calmamente:

- Sim, creio que o senhor tem razão. Acho que deveria fazer algu­ma coisa. Acabamos de sair do hospital, onde a mãe deles morreu há uma hora. Eu não sei o que pensar, e parece que eles também não con­seguem lidar com isso.

Podem imaginar o que senti naquele momento? Meu paradigma mu­dou. De repente, eu vi as coisas de um modo diferente, e como eu estava vendo as coisas de outro modo, eu pensava, sentia e agia de um jeito diferente. Minha irritação desapareceu. Não precisava mais controlar minha atitude ou meu comportamento, meu coração ficou inundado com o sofrimento daquele homem. Os sentimentos de compaixão e so­lidariedade fluíram livremente.

- Sua esposa acabou de morrer? Sinto muito. Gostaria de falar so­bre isso? Posso ajudar em alguma coisa? - Tudo mudou naquele momento.

Muita gente passa por uma experiência fundamental similar de mu­dança no pensamento quando enfrenta uma crise séria, encarando suas prioridades sob nova luz. Isso também acontece quando as pessoas as­sumem repentinamente novos papéis, como marido, esposa, pai, avô, gerente ou líder.

Poderíamos passar semanas, meses ou até mesmo anos usando a Éti­ca da Personalidade para tentar alterar atitudes e comportamentos, sem sequer nos aproximarmos do fenômeno da mudança, que ocorre es­pontaneamente quando vemos as coisas por uma nova óptica.

Torna-se óbvio então que a vontade de realizar mudanças relativa­mente pequenas combina com o foco nas atitudes e comportamentos. Mas, se desejamos empreender mudanças qualitativas significantes, pre­cisamos trabalhar com nossos paradigmas básicos.

Ou, nas palavras de Thoreau: "Para cada mil homens dedicados a cortar as folhas do mal, há apenas um atacando as raízes". Um salto qualitativo somente pode ser realizado em nossas vidas quando deixa­mos de cortar as folhas da atitude e do comportamento e passamos a trabalhar nas raízes, nos paradigmas que determinam nossa conduta.

Não, não como indireta a alguém. É para que eu tenha a oportunidade de relê-lo. Mesmo com tanta coisa errada pelo mundo, o mais errado seria eu se não me lembrasse que “nada muda se você não mudar”.

domingo, 8 de agosto de 2010

Dia dos pais?

Num dia corrido, correndo atrás de logística para uma viagem às Bahamas, recebemos a notícia: estávamos grávidos. Foi o ponto inicial de um relacionamento imorredouro. A viagem, cancelada, pois a gravidez não permitia.

Uma gravidez complicada, mas que nunca ameaçou a nova relação. Eu conversava todo dia com o feto, que nem sabia que sexo tinha, e ao qual eu chamava de “pinguinho de gente”. Pinguinho, portanto. Até sabermos que era uma menina. Daí virou Pinguinha, claro.

No dia de seu nascimento, um pai derretido frente àquela que mal abria os olhos, mas com quem já sabia ter um fortíssimo vínculo.

Nos anos de seu desenvolvimento, minha presença era uma constante. Apesar de divorciado desde que ela completou dois anos de idade, nunca me permiti ficar ausente de sua vida. Doenças, acidentes, a menarca, as angústias, assim como as brincadeiras, as felicidades, as descobertas. Brigávamos abraçados, com a mensagem subliminar, mas muito clara, de que nossa divergência não diminuía nosso amor mútuo.

Hoje, crescida, parece que ainda temos muito assunto, muita conversa, muita coisa por compartilhar. Sempre é hora, nunca é tarde demais, nunca é cedo demais. E assim vamos, pai e filha, mais amigos que parentes.

Por isso, não acredito em dia dos pais. É uma data comercial, em que os presentes são a tônica, e não necessariamente celebram uma boa relação. Acredito em amor e respeito, obrigatórios, nessa relação de paternidade. E, óbvio, de maternidade. Celebrar os dias separadamente é, repito, apensa um recurso comercial.

Sempre quis fazer de minha relação com minha filha algo muito maior. Sempre dediquei, além do meu tempo, do meu amor, e da minha dedicação, muito respeito. E, desde o momento que soube que ela estava ali, na barriga da mão, ela se tornou um dos motivos definidores da minha vida. Pois as nossas vidas estavam, desde muito cedo, entrelaçadas de forma inexorável.

Por isso tudo, não posso acreditar quando vejo notícias de abandono, de pais que maltratam, agridem, até mesmo matam seus filhos. Não consigo entender nem mesmo o que leva um pai a se afastar de seus filhos.

Ser pai é uma grande responsabilidade. E eu, que ainda preciso me aprimorar, fico sempre projetando quais os resultados de minhas falhas no decorrer da vida de minha filha. Mas a certeza de que existem falhas e pontos por melhorar não impedem que eu siga em frente, sabendo que amor e respeito serão sempre os valores que norteiam nossa relação.