terça-feira, 27 de julho de 2010

Massa, história, hipocrisia: um caseiro, um motorista, uma secretária

299648_thats_lame_bad_andor_stupi[1] Felipe Massa deixou Alonso passar. E daí?

Para quem gosta do esporte, como eu, foi um balde de água fria. Não foi, entretanto, o fim do mundo. Porque estou torcendo para Mark Webber. Merece, está no momento. Mas quem precisa de um herói, quem carece de referência, quem vive sua vida pela dos outros, aí, sim, foi uma tragédia. O candidato a herói, o bom moço, aquele que está quase, traiu a confiança de todos.

Parece que preferiu manter suas regalias, previstas num contrato. E adotou um comportamento, também previsto no contrato. Quem é que não toma atitudes como essa pensando no futuro, ou no presente?

Todos fazem o que acham melhor. Alguns acham melhor fazer coisas erradas, criminosas até. Todos os dias nos surpreendemos com pessoas acima de qualquer suspeita flagrados em alguma coisa desse tipo. O mais recente caso foi o do goleiro. E todos aqueles que nunca vêm à tona?

Um presidente caiu. Foi por causa de um motorista,  que veio a público contar sobre a coleta de dinheiro. Um ministro caiu. Foi por causa de um caseiro que veio contar que o vira numa festa de arromba (talvez uma balada?). A secretária confirmou: viu montarem um empréstimo farsesco, para livrar o presidente. Que é aquele ex retro citado. Vários políticos e outras personalidades se viram em maus lençóis por causa de ex-esposas, mas estas com ânimo diferente dos primeiros citados. Enquanto estas procuravam vingança, os primeiro queriam a verdade sob o detergente da luz do sol.

Quantas pessoas adotam comportamentos escusos, procurando manter seus privilégios ou evitar problemas? São incontáveis. Todos motivados por alguma razão de foro íntimo: evitar a perda do emprego, garantir o salário, evitar uma briga, evitar criar um desafeto. Olhar para o outro lado, muitas vezes, é o caminho. Ou pode ser o caminho.

Há os que baseiam suas ações em valores: o bem contra o mal, o certo contra o errado. Mas não há como exigir, querem imaginar, desejar ou sonhar que todos sejam assim. Ou mesmo que alguém seja assim o tempo todo. Até porque o certo, muitas vezes, é uma questão subjetiva.Para exemplificar, há os que vêem nos atos do motorista, do caseiro e da secretária, motivações políticas. Queriam desestabilizar alguém: o presidente, ou o ministro. E quem pode dizer que estão errados os que pensam assim? Claro, os que não pensam.

O fato é que tudo depende de como se quer enxergar a situação. E se Massa, ao assinar o contrato, deu sua palavra de honra que agiria assim nessa circunstância? O que seria de se esperar dele: valorizar a palavra dada ou satisfazer a vontade de outros (milhares de outros, mas, ainda assim, outros).

Julgamos sem dados, condenamos sem julgamento. O goleiro já é culpado, está na cara!, é o que se ouve. A ânsia pela justiça não teme a injustiça. Puna-se, não importa quem. E, assim extravasamos nossas próprias frustrações, para fingi-las superadas na condenação de outrem.

Hipocrisia pouca é bobagem. Tolos são os que ficamos esperando que o mundo se torne aquele paraíso que queríamos.

sábado, 3 de julho de 2010

Ressaca pós derrota - patriotismo e futebol

istockphoto_741043-you-re-out[1] Repercute hoje a derrota da seleção brasileira, claro. Não poderia ser diferente. Assunto para todos os locais, todos os momentos. A isso estão chamando de patriotismo.

Ao longo dos últimos anos, escândalos proliferaram no Brasil. Envolvendo diversos níveis de administração pública, poder executivo, legislativo e até mesmo polêmicas envolvendo o judiciário. Em nenhum deles o “patriotismo” colocou os assuntos no mesmo nível da seleção nacional.

Debater os erros de Dunga, o descontrole do Felipe Melo, isso é patriotismo. Deixar de comentar os desmandos dos presidentes do senado, os escândalos de meias e cuecas, os presentinho tipo Land Rover, dinheiro à vista de todos, emprego para o namorado da neta, isso não é falta de patriotismo.

Lembram-se todos que daqui a quatro anos teremos outra chance de exercer nosso patriotismo. Mas há outro evento que ocorre de quatro em quatro anos, e não recebe a mesma paixão: eleição. Poucos se preocupam em criticar a escalação dos times políticos, poucos se preocupam em analisar os erros. País com um dos maiores níveis de carga tributária do mundo, provavelmente para financiar escândalos, a população não lamenta, não chora, não berra contra isso. Mas o chute errado de Kaká, o cartão amarelo de Ramirez, isso é assunto nacional.

O futebol, o equivalente atual do circo romano (do pão e circo), tem mesmo esse poder. Abstrai a massa, polariza as opiniões, emociona tanto a ponto de tirar a atenção do que deveria interessar. E tome circo. Já vi mensagens dizendo que o negócio, agora, é olhar para os campeonatos de futebol locais. Cirquinho, talvez, mas ainda um elemento de distração.

Pobre país, em que o futebol mobiliza. Só o futebol.