domingo, 7 de fevereiro de 2010

Acidentes de trânsito: o direito de matar

http://www.istockphoto.com/file_thumbview_approve/2546618/2/istockphoto_2546618-u-roll-wetow.jpg Quando Maluf tornou obrigatório o uso do cinto de segurança na cidade de São Paulo, eergueram-se muitas críticas contra “a liberdade” dos cidadãos. Mas a experiência foi tão bem sucedida que tornou-se orbigatório o uso do cinto em todo o país, a despeito da crítica daqueles. A medida evita mortes, lesões leves e lesões graves nos motoristas.

Alguns dos argumentos daqueles que criticaram a medida prendem-se ao fato de que a pessoa pode escolher colocar o cinto, pois a vida em risco é a sua. Crítica hoje em desuso, pois a cultura social já incorporou o acessório. Ademais, a liberdade de se arriscar provocava -- e ainda provoca --  custos altos para o atendimento médico desses cidadãos, o que, por si só, já justifica qualquer medida de prevenção.

A realidade atual é que a pessoa, caso se acidente, está sob proteção do cinto de segurança, que é eficaz em determinados tipos de acidentes. Mas é também componente dessa realidade a existência de outros fatores danosos, sendo a velocidade um deles.

A velocidade está presente na culpa (imprudência, imperícia e negligência). Está presente nos casos fortuitos, como nos casos de defeitos mecânicos. Está presente nos casos de motoristas embriagados, nos quais o motirista não tem condiç~~oes de conduzir o veículo, que dirá de controlar a velocidade? Exemplo disso é o acidente do deputado paranaense, que estava em velocidade acima de 150 km/h, segundo as notícias da imprensa.

Por que não há ação para limitar a velocidade dos automóveis?

A resposta mais óbvia, indo diretamente na linha da Teoria da Conspiração, é que não interessa à indústria automobilística. talvez tenhamos de ficar em explicações mais superficiais: ainda não houve ações legislativas nesse sentido.

A sociedade ainda não se mobilizou o suficiente para gerar essa necessidade em seus representantes (se é fato que essa mobilização gera ação). Faz parte da estratificação social a posse de automóvel que seja potente, capaz de acelerar rapidamente, destacando-se dos carros “dos outros”. Quem tem carro popular (aqueles de até 1000 cilindradas) reclama de aceleração e velocidade. E aspira um carro “mais forte”. E mesmo os populares são vistos acima da velocidade máxima permitida em ruas e estradas, a despeito de suas limitações.

Qualquer que seja a justificativa para a falta de mobilização, o fato é que não há, e parece ser impossível que haja, a chamada conscientização do indivíduo. Assim como no caso do cinto de segurança, é preciso que haja uma determinação, uma ação que interesse à sociedade, e não se prenda aos desejos individuais.

Pois é a sociedade que arca com os custos, financeiros e psicológicos dos acidentes de trânsito. Os acidentados são levados, normalmente, a hospitais públicos, furando a fila d eoutros doentes, consumindo esforços e recursos.

Ademais, as vítimas do excesso de velocidade, a quem resta pouco ou nada a fazer para previnir, são oneradas pesadamente por uma omissão social. E consomem recursos tanto quanto os reais culpados, além do sofrimento que o acidente lhes impõe.

A velocidade e a aceleração são bases da propaganda, que prega que liberdade é igual à capacidade de atingir, rapidamente, grandes velocidades. Como diz aquele comercial em veiculação, “uma hora o sinal abre”. A consequência da mensagem é óbvia, e é igualmente negativa. Mas a potência do motor e a capacidade de de acelerar são os principais motes de vários automóveis. E tudo porque não temos limites físicos à essas capacidades.

É preciso que limitemos a velocidade e a capacidade de aceleração a níveis que nos façam fugir desse flagelo que é hoje o acidente de trânsito. Não que a limitação vá eliminar os acidentes, mas obviamente um carro que colide a 100 km/h tem um potencial lesivo menor que o de uma colisão a 140km/h. E, quanto maior carro, maior o peso, mais perigosa é a arma que o motorista irresonsável engatilha sobre nossas cabeças.

A irresponsabilidade de nossos motoristas teria, então, uma mitigação. A indústria marqueteira teria de descobrir outras formas de vender automóveis. Mas, em contrapartida, seriam menores nossas perdas com acidentes de trânsito. Infelizmente não nos preocupamos com isso até que a vítima seja próxima de nós.

Mas é preciso agir civilizadamente, em nome do bem maior que é a sociedade. Estendamos a experiência do cinto de segurança. Limitemos (fisicamente, através de mecanismos mecânicos ou eletrônicos) a velocidade e a capacidade de acelerar de nossos carros.

Um comentário:

  1. Renato,

    Nem sei se vc lerá meu comentário, uma vez que este post está aí há muito tempo. Mesmo assim, gostaria de parabenizar você pela coragem e clareza de pensamentos quando fala sobre o pq das indústrias automobilísticas não estarem dando a mínima para a questão da potência fora da realidade a que seus carros estão sendo submetidos.
    Acredito que a população, independente do nível social, só enxerga o risco quando dói no bolso, de verdade. Aliás, em geral, os mais imprudentes são os com maior poder aquisitivo e menor poder de raciocínio. São pais dando civic's à filhos de 13 ou 14 anos, motos potentes, armando seus filhos e os jogando às ruas para matar ou morrer.
    Por outro lado, a impunidade ainda é um problema na nossa sociedade. São leis secas, blitz de detrans, massificação da informação, mas ainda é pouco. Estamos caminhando sim, hoje conseguimos ver ações sendo realizadas, mas não é o suficiente para abrir os olhos de um povo movido pela vaidade e desprovido de amor ao próximo.
    Espero estar ainda neste mundo para ver isso mudar.
    Um grande abraço,
    Tatiana Tesch Arruda

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