terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Balanço de 2010–É hora de repensar

Nunca faço balanços, mas acho que este ano merece. Foi um ano sui generis, em que fiquei longe da família e da minha filha, em lugar em que fiz alguns amigos de verdade, alguns amigos passageiros, e conheci pessoas que passaram pela minha vida, espero que de forma delével.

Em 2010, não fui amigo o suficiente para deixar meus amigos se aproximarem de mim. Vivi meus problemas enclausurado nos meus preconceitos, e deles não me afastei,daí ter excluídos os amigos. Dmbora seja uma escolha, para a qual existem as consequências, é hora de repensar.

Fui presente, na minha ausência, com minha família. ao menos, parte dela. Presença não é quantidade, é qualidade. Mas é o tipo de coisa que, por mais que se queira, nunca é suficiente. É hora de repensar.

Em algumas pessoas, confiei demais. Sem dar o tempo necessário para que as máscaras caíssem. Daí, quando caíram, a decepção veio, forte e doída. Esqueci, também por escolha, que usamos máscaras, e que elas nos dão uma idéia errada do que somos. Era preciso, é preciso, que respeitemos o prazo natural para que todos se desnudem de suas proteções. Confiei demais, me envolvi demais, fiquei decepcionado demais. O bom dessa história é o princípio da percepção dor-prazer: repetimos o que nos causa prazer, evitamos o que nos causa dor. Devidamente deletados os momentos falseados, a ordem é seguir em frente. mas é hora de repensar.

A outras pessoas, não concedi o beneplácito da dúvida. Prejulguei e julguei, com ou sem razões. Classifiquei, rotulei, e as mantive assim, numa estratificação arrogante, da qual só acordei ao perceber uma pessoa brilhante, próxima, escondida pelo véu de minha própria prepotência. E, assustado, comecei a olhar em volta, procurando por pessoas e não por rótulos. Achei outras injustiçadas pela pressa da rotulação. Essa é uma dor que precisa mesmo ser sentida. Mas é hora de repensar.

Concedi mais do que pedi. Isso está errado? Talvez. Mas é um traço de personalidade. Acreditando na máxima “é dando que se recebe”? Não, nem por isso. É, realmente um valor que trago. Não repenso isso. Ao menos, não por agora.

Fui o crítico de sempre. O sarcástico de sempre. Mas procurei ser amigo, procurei ajudar. Procurei estar presente, disponível, para quando alguém precisasse. E precisaram. Mas nunca esperei agradecimentos, que vieram, às vezes. Nem esperei gratidão, que veio, com menor frequência. E nem esperei que isso embasasse qualquer relação, porque isso seria compra. Não se compra pessoas.

Enfim, 2010 foi um ano típico. Acertamos, erramos, fomos indiferentes. Pessoas se aproximaram, algumas simbióticas, outras parasitárias. Umas, altamente motivantes, outras sugando nossas energias. Outras, tantas outras, indiferentes.

O ano de 2011 será igual. Sempre teremos nosso padrão esperado, sempre estaremos abaixo dele. Ao menos, é o que espero.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Desapegando

Numa época de minha vida, amigos me flagravam olhando pela janela e já sabiam o que eu estava pensando: era hora de desapegar.
Porque algumas vezes, em nossas vidas, trata-se exatamente disso: desapegar. Precisamos exercitar o desapego, essa nossa capacidade / possibilidade / necessidade de deixar para trás aquilo que não tem mais lugar em nossas vidas.
Algumas vezes, recusamos-nos a desapegar, na esperança de que os momentos bons que vivemos voltarão. Ou na ilusão de que os momentos que gostaríamos que viessem venham de fato.
Mas o realista é basearmos-nos na história, e acreditar na máxima do Barão de Itararé (o inesquecível Aparício Torelly), que disse, mordaz:
De onde menos se espera , daí é que não sai nada.
Eu concordo.
Praticando o desapego
Fernando Pessoa
Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos.
Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos que já se acabaram.
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas possam ir embora. Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.
Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará.
Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo – nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.
Encerrando ciclos.
Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Confiança e credibilidade: valores inalienáveis

"Há pessoas que estão sempre atribuindo às circunstâncias aquilo que são. Não acredito nas circunstâncias. As pessoas que vencem neste mundo são as que procuram as circunstâncias de que precisam e, se não as encontram, as criam." 
George Bernard Shaw

Numa fase difícil, chamei uma funcionária de minha equipe e fiz um pedido, reconheço, difícil. E ela perguntou:

-- Por que está me pedindo isso?

Naquele momento, a resposta seria vazia. Respondi, então:

-- Eu preciso. Confie em mim.

E ela, me olhando nos olhos, com o olhar brilhante:

-- Ok! Eu confio.

E foi embora, em paz consigo mesma, para meu espanto.

Tempos depois, conversando sobre o fato, ela me explicou: nunca me vira colocar ninguém em má situação. Ao contrário, eu costumava mais era tirar as pessoas de situações ruins. Então, minha história, segundo ela, afiançava meu pedido.

Nesse momento, bateu o sentido da responsabilidade. pelo bem ou pelo mal, temos responsabilidades com pessoas ao nosso redor. Ela confiou, e eu podia estar errado. Mas ela confiou.

Nunca fui de fugir de responsabilidades. Nem de dizer amenidades para agradar, seja lá quem for. Mas, nesse dia, o peso bateu muito forte, porque ela confiou em mim e foi, como quem vai a um piquenique. Mas poderia ser um cadafalso.

Lideramos, às vezes, raramente, sempre, mas lideramos, em alguns momentos da vida. E a liderança tem seu preço: o futuro de pessoas. Quando dizemos que faremos, precisamos fazer. Precisamos de transparência, clareza, verdade. Precisamos ser o que gostaríamos que fossem conosco. Precisamos ser o ideal de nossa vida. Porque, embora alguns não liguem, há pessoas envolvidas…

E, mesmo se não liderássemos, sem pre há alguém que deposita em nós alguma confiança. Pode ser toda, alguma, muita. Mas confiança é um tesouro que não se pode desperdiçar. Quantos nos magoam simplesmente pela quebra dessa tal de confiança?

Então, é um compromisso. Assim como no caso de minha amiga, é mais que compromisso: é a expressão da verdade, que, esperamos, impere. Eu imagino se o resultado tivesse sido outro. Para mim, poderia ser a mesma coisa. Mas não seria, pela importância que dou às pessoas.

E, mais: minha credibilidade e a confiança resultante são os únicos bens que tenho. Assim, ao menos de forma bem egoísta, não me permitiria ser assim. Mas prefiro pensar que é um ato de altruísmo. Prefiro pensar…

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Dissimulação: o veneno sem antídoto

Dissimulação (Houaiss):

1    ação ou resultado de dissimular(-se)
2    ocultação, por um indivíduo, de suas verdadeiras intenções e sentimentos; hipocrisia, fingimento.

Neste mundo cão, esperamos que algumas pessoas sejam dissimuladas. Essas pessoas que nos geram tal sentimento são aquelas que não conhecemos, que querem nos vender alguma coisa, que não se importam com a continuidade de nossa história. São pessoas que, teoricamente, não se importam conosco.

Infelizmente, uma das facetas dessas pessoas dissimuladas é mostrar justamente o contrário. Que se importam. E que, na sua preocução conosco, querem o melhor para nós.

Melhor seria dizer que querem o melhor de nós.

A dissimulação é o estelionato moral. É o cheque sem fundo do caráter. É a personalidade fantasiada, eis que não resistiria à luz da verdade. A dissimulação é uma quase mentira, o que não a torna menos vergonhosa. A pessoa dissimulada pode ter que tipo de interesses, se não os escusos? E, se são escusos, representam uma triste realidade.

A dissimulação é um veneno para o qual não existe antídoto. Pois ela causa, no receptor, mágoas irreparáveis. Causa o pior tipo de relação, que é a permeada por desconfiança. E, onde desconfiança há, nunca haverá nada além disso. E, quando a dissimulação não atinge o destinatário, mas é percebida, mina a credibilidade do emissor de tal forma que, de novo, a desconfiança aflora.

Nunca há ganhadores no jogo da dissimulação.

De minha parte, corto de minha vida as pessoas dissimuladas. Cortando, dessa forma, o mal pela raiz.

domingo, 14 de novembro de 2010

As mentiras vencem?

istockphoto_11760157-poison-bottle[1]Em 1984, de George Orwell, há o Ministério da Verdade, que se encarrega de mudar os livros para se livrar das verdades inconvenientes. O aparato governamental se encarrega de, por coerção, “doutrinar” o povo a não questionar essas verdades metamorfoseadas, aceitando sempre a versão oficial. E é a base de todo o drama da história sempre atual do melhor drama político de todos os tempos.

Embora o enfoque seja político, sempre há componentes desse problema em nossas vidas pessoas. Há mentiras que, de tão propagadas, acabam por ganhar vida própria, e se tornam verdades, ao menos para aquelas pessoas que se dispõem a creditar nelas. Ou melhor, aceitaram acreditar nelas. É a base das lendas urbanas, e a base de muitos problemas, principalmente de relacionamento.

Mentiras são armas utilizadas por pessoas de baixo calibre moral, que escolhem explorar o pior lado do ser humano. Esse lado é, algumas vezes, a confiança que essa pessoa tem, e a usa para instilar problemas. Do outro lado, a mentira se instala quando há alguma insegurança, que, sabemos é sempre uma porta aberta para problemas.

Como no livro 1984, as verdades passam a ser ajustadas pela mentira, uma nova realidade, ao menos para aqueles em que nela acreditam. E tudo, absolutamente tudo passa a ser  justificado pela neo-verdade.

Mentiras têm vida própria, e são incontroláveis quando se movimentam independentes. Só podem ser vencidas por uma ação forte e decidida daqueles que, à sua manifestação, confrontam-nas com fatos e história. Não é fácil, porque a mentira, insidiosa, já se instalou, psicologicamente, de forma protegida na mente de seus patrocinadores. Mas nada que uma decisão pessoal não demova.

Sim, a mentira vence. Quando deixamos que ela vença. Quando permitimos que seu crescimento aconteça, quando evitamos enfrentá-la. Ela vence não somente com sua vida própria, mas suas consequências, indeléveis, e que persistem, muitas vezes, pelo resto da vida.

Mas ela não precisa vencer. Somos serem pensantes, com poder de arbítrio, e, mais, com força de vontade. Podemos matar qualquer mentira, se quisermos. Acreditar nas pessoas que nos são caras, ver o lado bom, fazer o que é necessário. Não estamos num livro, em que se fecha e se segue com sua vida. Estamos na vida real, em que a mentira, quando vitoriosa, arrasa vidas e vidas.

Podemos fazer a verdade prosperar e vencer. Basta que queiramos.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O pato sou eu

Todos têm o direito de sonhar. E, cada um, o direito de ser o dono do seu sonho

Fernando Sabino

No conto “O Gato Sou Eu”, Fernando Sabino defendia a frase acima. E, qualquer que seja o contexto, concordo com ele.

Minha paráfrase é um pouco mais realista: todos têm o direito de acreditar, e, cada um, o de pagar pela sua fé.

Explicando: apanhamos tanto na vida que nos acostumamos a nos esconder, de tudo e de todos, e tal qual gato escaldado, nos acostumamos a ter medo de água fria. Sábias palavras, que nos privam, sem dúvidas, de vários momentos bons, simplemente porque nossas experiências nos mostram um lado deste mundo que preferimos e escolhemos não ver. Por outro lado, há um outro lado, ao menos possível, que esse tipo de decisão exclui. O lado bom das coisas. E, se eu sou o pato, é porque, um dia, escolhi procurar o lado bom. Procurar, repito, mesmo onde ele não exista. (Mas que bobagem, ele sempre existe).

O fato é que, exceto naquelas ocasiões em que alguém tenta nos vender um apartamento na lua, o preço a pagar é o da aposta na humanidade. Se desconfiarmos de tudo e de todos, nossa vida fica mais pesada, e nossos caminhos sempre mais difíceis.

Por isso, escolho pagar o pato. Ou melhor, ser o pato. Prefiro pagar a conta, ser tomado por otário, ser considerado ingênuo, a deixar de acreditar nas pessoas. Escolho que o sofrimento é um preço razoável a pagar para descobrir pessoas, e o lado bom delas. Isso, além da óbvia pieguice, quer dizer o seguinte: sofro muito.

Sim, sofro, pois as pessoas nem sempre são o que aparentam ser. Algumas, machucadas demais, ou por demais dissimuladas, procuram oportunidades como essas como infecções oportunistas, e se instalam como podem, o quanto podem, e por quanto tempo for possível. Parecem que nos consideram, às vezes nem com isso se importam mais. Mas, infelizmente, existem.

Por outro lado, por mais que proliferem os daquele tipo, há aqueles que fazem por merecer nossa confiança, e se há um deste para cada mil daqueles, é neste que nossa aposta vale a pena. Porque, a cada vitória na crença em uma pessoa, há felicidade bastante para superar qualquer decepção com os outros. Não somente nossa felicidade, mas a felicidade “agregada”, que, neste caso, é a soma das felicidades que nossa condição de pato proporciona. O pato, por ser pato, e sempre haverá os patos, encontra sempre alguém que vale a pena, e cuja reação à mão estendida é do tamanho do sol, o que compensa toda uma vida de decepções.

Sinto muito por ser pato. Muito mal pelas tantas vezes em que quebramos a cara por sermos usados, como ferramentas ou objetos, ou mesmo coisas mais facilmente descartáveisl. Mas me sinto muito feliz pelos poucos que merecem nossa atenção.

Ser pato, portanto, é apostar que cada pessoa pode ser a pessoa que gostaríamos de ser.

E, de novo e por isso mesmo: o pato sou eu.

domingo, 24 de outubro de 2010

Difícil mas necessário

Algumas vezes, deparamos nos com situações em que é exigida uma decisão. Pronta, rápida, mas não necessariamente correta, pois não existe previjsão para algumas coisas.

Mas a vida nos ensina, e algumas vezes ignoramos esses ensinamentos em nome de uma situação idealizada, desejada. E pagamos o preço. preço esse que, muitas vezes, inclui outras pessoas, e que não precisamo pagar pelos nossos erros, Ou indecisões. Ou pela falta de decisão.

O fato é que aqui estamos, com esse livre arbítrio de que tanto falam, o o usamos tão pouco naquelas coisas que realmente fazem a diferença. Deixamos que a carga venha, pesada, mesmo tendo o poder de recebê-la de forma diferente. Aceitamos situações  que não queríamos para as pessoas mais queridas, simplemente por vontade de ver o sonho realizado.

Pois bem, como já se disse alhures, coragem não é não ter medo. Coragem é saber enfrentar o medo.

Paguemos os preços de nossas decisões, não de nossa indecisão.

Foi ótimo, por um tempo. Depois, o brilho acabou.

Fui.

Ti

Au.

PS: a imagem? Pretende ser Akela, do Jungle Book de Kipling.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Nossas certezas

De tanto ter certeza das coisas, aprendi que se pode ter certeza de pouquíssimas coisa nesta vida. Porque cada certeza nossa, comparada com as certezas alheias, são mera quimera, e desvanecem como fumaça ao primeiro sopro.

Acontece que nossas certezas têm exatamente essa solidez: a de uma nuvem de fumaça. Porque nossas percepções são influenciadas e alteradas pelos paradigmas que a vida nos impôs, e que aceitamos passivamente, sem crítica, ao longo da vida, somente para não nos afastarmos de nossa zona de conforto.

Aliás, essas nossas certezas são mesmo definidas pela nossa zona de conforto. Porque é muito perturbador que aceitemos, por um minuto que seja, e nem que seja ao menos idealmente, que podemos estar errados. Mas podemos.

Nossa zona de conforto, entretanto, tão acostumada a ignorar aquilo que deveria nos incomodar, prefere mesmo fechar os olhos a estes nossos erros, numa avaliação mais maternal que real. E, nesse avalição, nega-nos a possibilidade de crescimento pessoal, sob a égide de nos proteger de aborrecimentos. Sim, talvez nos proteja mesmo de aborrecimentos. Mas nos impede de ver a realidade em si, e, nessa negativa, nos impede de promover a saudável auto-avaliação promovedora da evolução. E impede que nossas ações tenham as consequências naturais, simplesmente porque nos negamos a enxerga-las, e, enxergando-as, nos negamos a admitir o nexo causal dos fatos.

Enfim, nossas certezas são somente uma certeza de que somos míopes, e de que não enxergamos senão a árvore, perdendo a visão da floresta. É aquela sensação de que matamos a vaca para matar o carrapato, mas na crença de que essa é a ação necessária.

Lamento sempre a falta de um espelho que me mostro quando isso acontece. E torço para que essa falha seja sanada. Porque, ao longo das consequências de nossas certezas, decisões são tomadas, e são decisões que afetam vidas. E afetar vidas, numa vida tão complexa, é algo de muita responsabilidade. Vidas de pessoas que nos importam, mas, mesmo que não importassem, ainda assim, vidas. Não podemos ser tão irresponsáveis.

Que nossas certezas não nos impeçam de viver nossas dúvidas. E que nossas dúvidas nos permitam conhecer as verdades particulares de cada um, pois cada um as tem de acordo com suas crenças e necessidades.

Lamento que tenhamos tantas certezas. Torço para compartilhar dúvidas, com alguém que tenha dúvidas, fazendo, assim, uma parceria de vida: aprender juntos.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Nossas certezas

De tanto ter certeza das coisas, aprendi que se pode ter certeza de pouquíssimas coisa nesta vida. Porque cada certeza nossa, comparada com as certexzas alheias, são mera quimera, e desvanecem como fumaça ao primeiro sopro.

Acontece que nossas certezas têm exatamente essa solidez: a de uma nuvem de fumaçca. Porque nossas percepções são influenciadas e alteradas pelos paradigmas que a vida nos impôs, e que aceitamos passivamente, sem crítica, ao longo da vida, somente para não nos afastarmos de nossa zona de conforto.

Aliás, essas nossas certezas são mesmo definidas pela nossa zona de conforto. Porque é muito perturbador que aceitemos, por um ninuto que seja, e nem que seja ao menos idealmente, que podemos estar errados. Mas podemos.

Nossa zona de conforto, entretando, tão acostumada a ignorar aquilo que deveria nos incomodar, prefere mesmo fechar os olhos a estes nossos erros, numa avaliação mais maternal que real. E, nesse avalição, nega-nos a possibilidade de crescimento pessoal, sob a égide de nos proteger de aborrecimentos. Sim, talvez nos proteja mesmo de aborrecimentos. Mas nos impede de ver a realidade em si, e, nessa negativa, nos impede de promover a saudável auto-avaliação promovedora da evolução. E impede que nossas ações tenham as consequências naturais, simplesmente porque nos negamos a enxerga-las, e, enxergando-as, nos negamos a admitir o nexo causal dos fatos.

Enfim, nossas certezas são somente uma certeza de que somos míopes, e de que não enxergamos senão a árvore, perdendo a visão da floresta. É aquela sensação de que matamos a vaca para matar o carrapato, mas na crença de que essa é a ação necessária.

Lamento sempre a falta de um espelho que me mostro quando isso acontece. E torço para que essa falha seja sanada. Porque, ao longo das consequências de nossas certezas, decisões são tomadas, e são decisões que afetam vidas. E afetar vidas, numa vida tão complexa, é algo de muita responsabilidade. Vidas de pessoas que nos importam, mas, mesmo que não importassem, ainda assim, vidas. Não podemos ser tão irresponsáveis.

Que nossas certezas não nos impeçam de viver nossas dúvidas. E que nossas dúvidas nos permitam conhecer as verdades particulares de cada um, pois cada um as tem de acordo com suas crenças e necessidades.

Lamento que tenhamos tantas certezas. Torço para compartilhar dúvidas, com alguém que tenha dúvidas, fazendo, assim, uma parceria de vida: aprender juntos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

The show must go on – mas não era disso que eu queria falar!

De vez em quando, quando levamos aqueles tombos em que a vida se especializou em nos dar, parece que o fim da linha chegou. Parece que tudo fica sem sentido, que nada mais se encaixará. E que nossos esforços sempre serão em vão.

A nossa história fala por nós, e, segundo Covey, fala alto. O que somos fala sempre mais alto do que nossas próprias palavras, e não se consegue desmentir esse grito.

Tento criar minha filha, a única eterna pessoa de minha vida, num ambiente de verdade e compromisso. A verdade, entende-se. Não gostamos de mentiras, e evitamos-las, para que não sejamos suas vítimas no dia-a-dia sórdido a que nos entregamos. O compromisso, entregamos-nos a ele para que nossa palavra tenha algum sentido. Morreremos, esta é uma verdade. Mas, enquanto vivermos, que nossas ações sejam pautadas por aqueles pequenos ou grandes comprometimentos a que nos engajamos.

Na solidão de nossos momentos íntimos, é preciso que pensemos que nossa vida tem sentido e faz sentido. É nesses momentos que avaliamos se nossa palavra tem credibilidade, se nosso comportamento é fiel, se nossas palavras têm significado.

Sempre que entro nesta espiral, procuro recuperar pessoas caras, ao menos em algum momento, à minha vida. E que, em algum momento, riscamos de nosso cotidiano. sempre me arrependo disto, pois as condicionantes raramente mudam.

Mas podiam ter mudado. Pessoas mudam, algumas vezes para melhor. E, nesse anseio pela mudança, pode ser que nos sejam caras novamente, ou que, pelo enfrentamento de seus problemas, estejam necessitando de amigos. Mas, pelo sim, pelo não, faço-me presente, sempre com aquela disposição de ajudar característica daqueles que querem sofrer. Não que seja o caso…

Mas que é, infelizmente. Um amigo de muito tempo sempre dizia: “o lobo perde o pêlo, mas não perde o couro”. Com razão infeliz, tenho de reconhecer: é dar murros em ponta de faca.

Eu escolho quais facas esmurrar. Às vezes, escolhemos errado. Mas, se tinha sentido e valia a pena, valeu a pena o sofrimento.

Chega!

Músicas

 

A verdade – Carlos Drummond de Andrade

Uma amiga  muito querida e há muito perdida, a propósito do fim das ativadades deste blog, me liga e me conta, ou melhor, reconta, uma antiga história. E me pede, por conta das histórias conjuntas, que deixe um pouco mais os textos (até que ela tenha tempo para copiar alguns, dos menos sofríveis. Ok, por conta da amizade. E ela pede também, a abusada, que eu republique o texto abaixo, marcante em nossas vidas. Concedidos.

 

A verdade – Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.


Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Se concedo, é porque atendo ao nosso pacto, já amarelado pelo tempo, de contribuir para o crescimento mútuo. Pois que muitos dos textos concretizam uma preocupação compartilhada com crescimento pessoal e autoavaliação. E, como de praxe, que envolvia muitas gente, mas que o tempo foi deixando pelo caminho.

Nossas cãs, já predominantes, são o sinal de que o tempo está passando. Mas nossa dinâmica pessoal,  ao lado dos nossos e das pessoas que nos são caras tendem a desmentir as cãs. Sou pela fé na vida, que tudo coloca no lugar.

Obrigado pelas palavras amigas, que soam como luz guia quando a noite se faz mais escura.

sábado, 25 de setembro de 2010

Manifesto contra a distância

istockphoto_9479357-road-to-somewhere[1] Quando minha filha tinha menos de um ano, fui convocado a Brasília, e me ausentei pela primeira vez desde seu nascimento. Foram me deixar, e ela chorava dentro do carro, e eu, fora. Era a “ameaça” da distância.

Distância, o “delta e”, a diferença de espaço, o conceito da física. Mas, mais que isso, é uma realidade. É uma impossibilidade, uma restrição. É uma forma que encontrou a vida de afastar-nos concretamente das coisas que nunca saem de nossas mentes. É o desafio de qualquer um, quando tem uma distãncia, ínfima ou enorme, daquele com quem se deseja estar.

É a solução, reconheçamos, para os relacionamentos fracassados, para aqueles que precisam de perspectiva, para os magoados, para os seriamente machucados. Para eles, talvez, e somente talvez, seja um bálsamo, uma catarse. Porque para a maioria dos mortais, que estejam, claro, fora dessa situação, a distância é uma tortura, uma imposição, uma injustiça. É o supra-sumo da contradição, pois na era da internet, em que o mundo é global, a distância é real. É a concretização da física, tão esquecida, tão odiada, mas irritantemente correta.

É a forma de nos lembrarmos que nossas ações têm força e consequência, e que tudo que fazemos sofrerá o escrutínio regido pela distância. Façamos, portanto, aquilo que queremos que o tempo e ela, a (agora) maldita distância, julguem bem.

Mas, como tudo que existe, também a distância tem dois lados. Pois a distância de algo é a proximidade de outra coisa, e durma-se com um barulho desses.

Aproximamos-nos de coisas que queremos, pela distância das coisas que precisamos. Ou vice-versa. Mas a distância, esse prenúncio de saudade, é somente relativa, embora absoluta (ahn?, diria uma amiga. Bebeste água da louça?). Sim, pois a distância é medida em metros, ou kilômetros (absoluta), mas é mitigada pelas nossas ações e construções )relativa), em que a distância, compreendida como necessária, é mera questão de tempo, não de espaço. É um período em que o coração bate mais alto, mas somente para ser ouvido, onde quer que estejam os ouvidos.

Einstein e Hawking não concordariam, mas, ora, que diabos, eu não concordo com a Lei da Relatividade, e entretanto…

Não há mal que dure para sempre, não há distância que resista à vida… É tarefa nossa construir e lidar com isso.

Ou não?

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A Alegoria das Cavernas de Platão: em que posição estaremos?

istockphoto_13607459-cave-with-sunlight[1] Na clássica alegoria das cavernas, de Platão, há os que conhecem o mundo pelas sombras que a vida projeta em suas paredes, e somente por elas. Quando apresentados a uma verdade mais abrangem,te sua tendência é desacreditar, ou negar, aquilo que sua experiência não contempla. E, mais, distanciam-se daqueles que, conhecendo aquela realidade, lhes apresenta o contraste das idéias.

Em nossas vidas, vivemos, de diferentes formas e profundidades, da Síndrome da Caverna. Nossa experiência projetou, de acordo com nossa percepção dor-prazer, sombras da realidade em nossas paredes. E, mesmo que apresentados a realidades alternativas, emocional ou racionalmente, negamos a verdade, ao menos a nova verdade.

O que faz de nossas cavernas mais abrangente que a de Platão. Nossas cavernas têm níveis, e avançamos de nível cada vez que nos permitimos conhecer uma nova verdade. Ou, ao menos, uma nova percepção da verdade, e é disso que se trata.

O problema é que as sombras que nos condicionam não são representações objetivas da realidade. São percepções, caminhos, experiências. São resultado de um caminho construído, não um mero fenômeno físico. Por isso, mais complexas, e também por isso, de maior dificuldade de adesão. Como aceitar que a sombra que se projeta pode ser moldada, não por elementos objetivos, por por forças volitivas? E resultado de nossa volição, fruto de nossa vontade e de nosso esforço. Por isso, construção.

Tendemos a olhar nossos companheiros de caverna que ficaram para trás com uma ponta de piedade. Lamentamos sua restrição, sua limitação. Revoltamos-nos com sua negativa da realidade, evidente, real. Mas não percebemos que nós mesmos, mesmo nesse estágio, somente mudamos de caverna. Ainda há verdades fora de nossos alcance, mesmo aquelas que pertencem somente a nós. E, quando percebemos, não nos lembramos desse processo de análise de nossos ex-companheiros de caverna. Somente progredimos.

O processo de evolução da caverna poderia ser um grande aprendizado. Poderia ser a forma de percebermos que cavernas se sucedem, e nosso esforço está em aprender o que projeta as sombras que percebemos como vida, e, assim, enxergarmos o próximo nível. Mas não é. Nossa soberba nos faz sentir que, a cada evolução, está conquistado o mundo. E, talvez, não pudesse mesmo ser diferente. A angústia do ser perante sua perene falta de conhecimento poderia ser cruel demais. Em vez, vivemos a clássica tese das evoluções: tese-crise-antítese.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Mea culpa

Uma amiga, em uma crise pessoal, me ligou indignada:

- Onde você está desta vez? Porque você não está aqui quando eu preciso?

É verdade, mas não é somente quando ela precisa.Eu preciso reconhecer: há muito minha vida profissional me leva para os mais distantes pontos do país, e não só os amigos que se ressentem.

Minha ausência é um peso no meu relacionamento familiar, por exemplo. Minha filha com quem minha convivência é riquíssima, está suportando estoicamente esta fase de maior tempo ausente. Sabemos que não é fácil. Acostumados a compartilhar angústias, estas se acumulam, pela simples inexistência de caminhos de vazão. Nós que por vezes nos sentamos no sofá somente para conversar, sobre qualquer coisa, e somos capazes de passar horas assim, sem tv, sem internet, somente aproveitando a doce convivência de quem se ama. Neste momento, eu afastado, perseguindo uma meta profissional, nossa maior emoção é saudade. E é uma emoção que dói como ferida aberta, principalmente porque somos muito próximos.

Reconheço: estou sendo um péssimo pai. Ausente, longe, que tipo de suporte posso dar a ela?

Mas é preciso reconhecer mais. Estou sendo um péssimo filho, de minha mãe que sente a falta, e do meu pai há muito levado. Estou sendo um péssimo irmão, daqueles que não participa do dia-a-dia, que se espanta com a novidade e com a velocidade da vida.

Estou sendo um péssimo amigo, já que não posso dar sempre o desprazer de minha presença àqueles que resolveram assim me chamar. E não estou nos momentos bons, nem nos momentos ruins. Simplesmente não estou.Não vejo seus filhos crescerem, não acompanho as reuniões semanais ou quinzenais que tínhamos, mas os chateio como antes, exceto por telefones, mais parecidos com mensagens telegráficas, para me sentir presente, mas me sabendo ausente.

E essa amiga precisa de um ombro, um anteparo, proteção e conforto. E onde está seu amigo? Ela não sabe.

E eu aqui, morando num hotel, sozinho maior parte do tempo, rodeado por pessoas que têm seus amigos, e todas as responsabilidades acima, só que aqui, onde quer que seja esse “aqui”.

Certa vez, perante uma oportunidade de uma carreira internacional, escolhi ver minha filha crescer. Com poucos meses, jamais me perdoaria se não a tivesse acompanhado, e talvez eu não tivesse hoje essa grande amiga que muitas esqueço ser filha.

Mas a vida urge. E se o acaso me levar, para onde terei conduzido minha vida? Nesta ausência, nesta negligência no meu papel de pai, de irmão, se tio, de filho, se tudo se acabasse, como é que justificaria a distância daqueles que me são mais caros?

E essa amiga, assim como minha filha, a quem ofereço minha presença para tentarmos, juntos, superar as agruras da existência, como posso justificar o ombro negado?

Acho que não posso. Por vezes, a sobrevivência fala muito alto. Por vezes cobra preços altos demais. E, aqui, dentre as paredes frias deste quarto insosso de hotel, sozinho com estas angústias e algumas outras, me pergunto: valerá a pena?

Minha culpa. Minha exclusiva culpa. Que me perdoem pelos rumos da vida, meus amigos, minha família, minha filha. Isto vai mudar.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Comunicação é um processo. Confiança é uma construção

istockphoto_9994344-white-dove-carrying-message[1] Nem sempre comunicamos tudo que queremos. Ou como queremos. A comunicação, processo bidirecional,ainda depende dos tradutores mentais de que dispomos. Como na reação pavloviana, algumas mensagens podem ser interpretadas como nossa reações mais primordiais com relação ao conteúdo e mesmo emissor.

Como disse Stephen Covey sobre problemas de comunicação entre pessoas contaminadas por uma relação, o que a pessoa é às vezes fala mais alto do que a pessoa diz. Ou, a ironia moderna, contra argumentos não há fatos.

Ainda nos comportamos, e me incluo nisso, como escolhendo o pior cenário do que dizem. E, se me preocupo em esclarecer o conteúdo do que ouvi, sempre me fico com a impressão de estar demonstrando fraqueza, o que é intimidador no processo de comunicação. Por esse motivo, entendemos pelo lado menor, mais pejorativa, mais ameaçador, e dúvidas não esclarecemos, com medo de que a situação piore.

Na base disso, a confiança, ou falta dela. Como podemos esclarecer o que nos arrasa o peito se o próprio esclarecimento é ameaça? Como é que podemos clarificar o processo de comunicação se esse esclarecimento causa, ele próprio, uma cortina de fumaça mesmo naquelas pessoas nas quais confiamos?

E, assim, de decepção em decepção, colocamos o medo na comunicação, sendo sempre menos claros do que gostaríamos. Ou precisávamos. Escondemos-nos do que nos ameaça, mesmo que essa fuga nos cause decepções. Porque às vezes a decepção é preferível ao desnudamento, e menos invasiva.

Em “1984”, o livro de George Orwell, Winston se abre para O’Brien. E paga o preço por isso. Metaforicamente, os o’briens são essas pessoas em quem confiamos, mas que chama a polícia do partido para nos prender por causa de nossas opiniões. Estamos perdendo a capacidade de ouvir, interpretar,esclarecer, ou escolhemos não tê-la. Afastamos e afastamos-nos daqueles que nos são mais caros por causa dessa particularidade, e perdemos as pessoas.Ao menos, perdemos a proximidade, que uma morte, ao menos da amizade mais cara.

O ser humano saiu das cavernas, inventou a roda, as armas, e computador. Foi à lua, clonou um ser vivo, entendeu o átomo. Mas não consegue vencer as barreiras do medo, do preconceito, da comunicação. Ainda não existe remédio para a falta de disposição de ouvir, entender, viver harmoniosamente. O resultado são os divórcios, as inimizades, os assassinatos. E, menos trágicos, são os relacionamentos que terminam e as amizades que esfriam.

Eu queria poder ser o mais transparente possível, dizer das minhas angústias e percepções. Mas, droga, se isso me custar caro, obviamente vou evitar. Infelizmente, nossa casca de ostra nos protege. E nos impede de realizar , conjuntamente, um universo de coisas.

Droga!

 

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Semeando no deserto

istockphoto_4295733-walking-in-the-gobi[1] Certo dia, deparei-me com um homem, a indefectível Bíblia na mão,  pregando aos ventos em São Paulo, no Viaduto do Chá. Literalmente aos ventos, já que platéia não havia. Só seu esforço por dizer o que a ninguém parecia interessar. Ainda assim, devia ser sua grande sua convicção, pois ele mantinha seu discurso como se centenas de pessoas estivessem a ouvi-lo.

Algumas vezes me perguntam se este Blog tem algum sentido senão o de expor o meu “eu”, coisa absolutamente desnecessária e indesejada. E, como no exemplo daquele homem lá do viaduto, concluo que não, não tem a pretensão de fazer acólitos, senão o de propagar minhas idiossincrasias, transformada em efemérides. É o meu boteco digital, onde todos falam o que querem, sem se incomodar se há alguém a ouvir, pelo simples sentimento catártico de ser ouvido.

O processo de comunicação é, muitas vezes, complicada. Não há backspace na conversa, e o dito o foi indelevelmente. Os textos nos dão tempo de reler, trocar palavras, revisar frases, censurar pensamentos e opiniões nossas mesmos, na extrema autocensura: discordar de si mesmo, ainda em tempo de pensamento.

Algumas pessoas que lêem estas mal digitadas nem sempre entendem os textos. Por que alguns deles se referem a coisas particulares, minhas somente ou compartilhadas com alguém (como o Conto do Pé Esquerdo). mas, como é meu boteco, faço as promoções que quero, e publico o que vai pela minha cabeça.

Muitas das coisas que publico são sérias, embora, talvez, irônicas. Mas acredito realmente nelas, e é uma forma de perpetuar o que sinto. Estes dias, por exemplo, reli um texto antigo, e me surpreendi comigo mesmo. Ou melhor, com as opiniões ali expressas. Como se fosse uma novidade para mim, essa produção sem limites de textos acaba, mesmo, fazendo com que me exponha.

Fico pensando sobre o alcance desse tipo de coisa. Quando criança, tinha uma amiga, Julie, minha pastora alemã, que me acompanhava e me ouvia quando tinha que falar algo com alguém. Muitas vezes me pego falando com ela, já há muito falecida.

Por outro lado, há alguns textos que são muito acessados, e parece que interessam a alguém. Saber que estas mal digitadas consegue ajudar alguém (pretensão, pode ser que nem gostem) é motivo suficiente para que eu mantenha o Efemérides. Mas mantenho firme um propósito: o de não publicar textos sobre minha vida profissional, embora daqui a alguns dias eu venha a quebrar essa regra, a pedido de uma amiga.

Mas continuo firmemente decidido a semear no deserto. Pode ser que eu não mude o mundo, mas o mundo não há de me mudar.

E, de mais a mais, se alguém não quiser ler, é só mudar de página. Essa é a beleza da internet.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Conto do Pé Esquerdo

1208789_baby_feet_2[1] Era uma vez um pé. Esquerdo. Parceiro do direito, mas escondido.

Fazia tudo que o parceiro fazia, às vezes antes, às vezes depois, algumas vezes junto. Mas não tinha os mesmos privilégios. Pois não lhe tiravam a meia. Qualquer que fosse.

A não ser quando inevitável. E o Pé Esquerdo começou a sentir os efeitos do isolamento. Já não conhecia o mundo mais como seu parceiro, Pé Direito. Tropeçava mais, porque o caminho não via. Estava branco, pois não se expunha ao sol. Tinha já manchas de mofo, como se fosse da meia masmorra. Ou da masmorra de meia, sei lá.

Sua autoestima andava sumida, como se escondida na meia, pois o Pé Direito, senhor de todas as atenções, começou a se achar dono do pedaço. Não contribuía com o ânimo do Pé Esquerdo o ditado popular, que maldizia quem começasse… com o Pé Esquerdo.

Começou a se achar o pé errado. Começou a se sentir como se fosse dispensável, como se fosse uma aberração, e o Saci fosse o ícone de beleza. Não exageremos, racionalizava ele. O Saci não tem toda uma perna, não era o caso. Em todo caso, o Pé Esquerdo torcia para que a única perna do Saci fosse também a esquerda…

Nesse meio tempo, o Pé Direito começou, por causa de sua presunção, a “meter os pés pelas mãos”. O que ajudou o Pé Esquerdo na sua luta pela igualdade. Pois é claro que ambos os pés vão juntos nessa situação, mas o Pé Esquerdo, escondido na meia, nunca era reconhecido. Dizia-se apenas “enfiou o pé direito e um pé desconhecido pelas mãos”. Quando o Pé Direito passou a ser procurado pelas malfeitorias (tropeções, escorregadas, pé-de-atleta, etc.) o Pé Esquerdo passou a ser reconhecido pela discrição.

Dizia-se que não era justo ele ter o parceiro que tinha. E que, enquanto aquele “chutava o balde”, este era quase um pé-de-meia: sempre no colchão.

O Pé Direito, com o passar do tempo, perdeu credibilidade. E o Pé Esquerdo passou a exigir a atenção que merecia. Já saia da meia sozinho, meio assustado com a luz do sol, mas totalmente feliz. Passou a ser o pé de apoio, passou a ser a referência do passo. Passo a passo, o pé esquerdo ganhou seu espaço. Ainda meio assustado, mas considerando-se um pé-determinado, perdão, pré-determinado à liberdade.

E foi assim, pé ante pé, que o nosso Pé Esquerdo caminhou, a passos largos, para sua redenção. Ocupou seu lugar, e hoje dá equilíbrio às ações do Pé Direito. Que, pémido, perdão, premido pela realidade, passou a ser mais compénheiro, perdão, companheiro, mais humilde, mais pé no chão.

E nosso amigo Pé Esquerdo ocupou finalmente seu lugar na história. no Pé da história, mas que coisa, diferente não poderia ser.

O tempero da vida: vitórias e derrotas

istockphoto_2311855-trail-running[1] Publiquei este texto de Lourenço Diaféria, que ganhei em meio a uma grande crise, percebida por um grande amigo, que emprestou as palavras do texto para me animar. Desde então, sempre que necessário, recorro a ele, seja para servir da mesmo forma com que fui agraciado, seja para relembrar da atitude que escolhi para nortear minhas ações.
Seria pueril achar que a vida é feita só de vitórias.Mas, infelizmente, é o que todos gostaríamos que fosse. Que problemas não existissem, nem as soluções, por absoluta desnecessidade. Mas não é assim. E ainda bem que não é.
Mas só percebemos o valor da adversidade quando já a deixamos para trás. Somente quando é uma mera lembrança é que achamos que os problemas são úteis e importantes. No auge da crise, entretanto…
Problemas são as derrotas nossas do dia-a-dia. Mas são a motivação para que aprendamos, para que nos aprimoremos. São nosso teste da verdade, como que uma aferição do real valor que temos para atingir aos nossos mais altos ideais. E é tão difícil lembrar disso…
Pois bem! Se olharmos para trás, na busca de lições do passado, vamos lembrar que em todo problema, por maior que fosse, sempre tinha aquele momento em que tudo parecia perdido e sem saída. Aquele instante em que achávamos que nada mais se resolveria. Aquele momento de tensão tão aguçada que parecia mesmo o fim. E esse momento acabava passando, de forma muitas dissimulada, de forma drástica em outras vezes, mas acabava passando. É o ponto alto da escuridão da noite, que precede ao raiar do sol. Mas que, mesmo sabendo assim, nos intimida avassaladoramente. E nos apequena, nos fragiliza, nos faz sentir como se fôssemos um mero capricho…
E, no momento seguinte ao do surgimento da luz, quando finalmente damos o assunto por encerrado e superado, nem sequer nos lembramos do valor que demos ao problema. E nem à solução.
Pois bem, precisamos mesmo é querer a solução, fazer dela nosso motivo, e criar o brilho próprio, aquele que se encarregará do momento mais escuro da noite… precisamos é dar ao problema o exaro valor que ele merece, e ele não merece mais do que nossa engenhosidade permite. Ele sempre será limitado pela força de nossa vontade, pelo nossa determinação, pela nossa necessidade, ou pela nossa coragem, mesmo que irresponsável, se é que é possível.
Por isso, para nos dirigir ao que interessa, republico o texto:
Quando vai ser a próxima Corrida?
Lourenço Diaféria
Você venceu!
Você chegou onde queria.
Se lembra quando lhe disseram que a parada iria ser dura?
Muitos nem tentaram.
Muitos desistiram.
Muitos desanimaram.
Muitos falaram que não valia a pena.
Mas você chegou onde queria.
Foi difícil, a pista estava escorregadia.
Quantas pedras no meio do caminho.
Não eram todos que aplaudiam. Alguns o olhavam com olhar de descrença, diziam: - Coitado, é um sonhador.
Bolhas nos pés, tênis apertado, o suor escorrendo pelo rosto, a ladeira íngreme, e o dramático instante da dúvida: paro ou continuo?
Uma decisão apenas sua.

Alguns estavam caídos de cansaço e tédio.
Havia ainda um longo caminho pela frente,
e havia mais curvas do que retas.
Alguém o animou - Força, cara.
Alguém o provocou - E agora, cara?
Alguém tripudiou - Larga disso, cara.

Lembra?, você teve uma baita vontade de ir embora, de pegar suas coisas e dizer - Tchau mesmo, quero que tudo se lixe, pra mim chega, já dei minha cota, não tem mais jeito - e virar as costas à luta, à incompreensão, ao sacrifício.
Você teve vontade de ir para uma ilha deserta onde vertessem leite e mel.

Você olhou em frente. O horizonte era uma sombra parda.
Mas mesmo nessa hora tensa, pelo sim pelo não, você não parou de correr.
Talvez tenha diminuído o tamanho do passo, porque ninguém é de pedra e o coração da gente não pode ser medido com trena e compasso.
Mas você não parou porque sabia que no meio da multidão havia um recado mudo aguardando a sua decisão.
De sua decisão dependia a esperança de gente que você nem conhecia.
Então você tomou um fôlego, abriu o peito, e com os pés no chão e os olhos lá na frente, mandou ver.
Não importava tanto a colocação.
Você lutava para construir a sua parte no edifício do destino.

E foi seguindo.
Sem perceber, arrastou com seu exemplo muitos que pensavam em ficar no meio do caminho.
E você venceu.
Você chegou onde queria.
Ou você não venceu.
Você não chegou onde queria.
As coisas não deram certo, você tropeçou, havia um buraco, e outro buraco, e mais um buraco no chão feito de armadilha.
Você caiu, rolou, ah, houve gente que riu!
Alguém vaiou.
Você não venceu. Você não chegou onde queria.
Esfolou a pele, abriu ferida, em vez de estrelas o cobriu um manto cravejado de ridículo.
O suor de seu rosto foi em vão.
Em vão seus músculos latejaram.
Tudo em vão.
Apanhe seu embornal de mágoa, fique de mal com o mundo, abandone a pista.
Você teve a tentação.

Mas na multidão alguém esperava seu gesto de conquista.
Vamos, rapaz, esfregue a perna. Levante os ombros.
Não deixe que se apague o brilho dos seus olhos.
Escute o bater abafado do coração que insiste.
Você está vivo, e não está vivo à toa.

Você se levantou, se lembra?, e a vaia lhe soou como sinfonia.
Recomeçou a corrida e quando, por fim, você chegou - não em primeiro, como sonhava - mas chegou, o suor de seu rosto parecia purpurina.
Todos pensavam que você estivesse satisfeito por haver chegado.
Então você recolheu os retalhos de suas forças e perguntou:
- Quando é que vamos disputar a próxima corrida?
E foi neste momento que você venceu e chegou onde queria!

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Quando tudo parecia sob controle…

Desde há muito venho “me” trabalhando na questão de controle emocional. E com resultados excelentes, acho, pois recebo muitos feedbacks nesse sentido. O que propiciou até esse post aqui.

Aí, vem a vida e nos dá aquela rasteira, mostrando quem de fato está no controle.

A resposta é uma só: ainda somos nós. Mas nos esquecemos de praticar, tal como acontece com aqueles que têm a soberba. Quando achamos que já atingimos nossos objetivos, é hora de parar e olhar para trás, para nos relembrarmos dos erros cometidos, e para a frente, antevendo aqueles que ainda serão parte de nossa história. A verdade é que sempre somos menos do que pensamos, e aí reside nosso erro fundamental, aquele de acharmos que tudo está pronto.

Parte dessa soberba é sermos refratários aos sinais que mostram o quanto somos parte daquilo que criticamos. O quanto contribuímos para a manutenção das coisas que criticamos. O quanto somos, na verdade, causa, e não consequência. E mais, muito mais importante: o quanto nos destituímos de responsabilidades, escondendo-nos em justificativas, quando não admitimos que outras pessoas façam a mesma coisa.

Enfim, obrigo-me a republicar o texto abaixo:

Eu me recordo de uma mudança de paradigma que me aconteceu em uma manhã de domingo, no metrô de Nova York. As pessoas esta­vam calmamente sentadas, lendo jornais, divagando, descansando com os olhos semicerrados. Era uma cena calma, tranqüila.

Subitamente um homem entrou no vagão do metrô com os filhos.

As crianças faziam algazarra e se comportavam mal, de modo que o clima mudou instantaneamente.

O homem sentou-se a meu lado e fechou os olhos, aparentemente ignorando a situação. As crianças corriam de um lado para o outro, ati­ravam coisas e chegavam até a puxar os jornais dos passageiros, inco­modando a todos. Mesmo assim o homem a meu lado não fazia nada.

Ficou impossível evitar a irritação. Eu não conseguia acreditar que ele pudesse ser tão insensível a ponto de deixar que seus filhos incomo­dassem os outros daquele jeito sem tomar uma atitude. Dava para per­ceber facilmente que as demais pessoas estavam irritadas também. A certa altura, enquanto ainda conseguia manter a calma e o controle, virei para ele e disse:

- Senhor, seus filhos estão perturbando muitas pessoas. Será que não poderia dar um jeito neles?

O homem olhou para mim, como se estivesse tomando consciência da situação naquele exato momento, e disse calmamente:

- Sim, creio que o senhor tem razão. Acho que deveria fazer algu­ma coisa. Acabamos de sair do hospital, onde a mãe deles morreu há uma hora. Eu não sei o que pensar, e parece que eles também não con­seguem lidar com isso.

Podem imaginar o que senti naquele momento? Meu paradigma mu­dou. De repente, eu vi as coisas de um modo diferente, e como eu estava vendo as coisas de outro modo, eu pensava, sentia e agia de um jeito diferente. Minha irritação desapareceu. Não precisava mais controlar minha atitude ou meu comportamento, meu coração ficou inundado com o sofrimento daquele homem. Os sentimentos de compaixão e so­lidariedade fluíram livremente.

- Sua esposa acabou de morrer? Sinto muito. Gostaria de falar so­bre isso? Posso ajudar em alguma coisa? - Tudo mudou naquele momento.

Muita gente passa por uma experiência fundamental similar de mu­dança no pensamento quando enfrenta uma crise séria, encarando suas prioridades sob nova luz. Isso também acontece quando as pessoas as­sumem repentinamente novos papéis, como marido, esposa, pai, avô, gerente ou líder.

Poderíamos passar semanas, meses ou até mesmo anos usando a Éti­ca da Personalidade para tentar alterar atitudes e comportamentos, sem sequer nos aproximarmos do fenômeno da mudança, que ocorre es­pontaneamente quando vemos as coisas por uma nova óptica.

Torna-se óbvio então que a vontade de realizar mudanças relativa­mente pequenas combina com o foco nas atitudes e comportamentos. Mas, se desejamos empreender mudanças qualitativas significantes, pre­cisamos trabalhar com nossos paradigmas básicos.

Ou, nas palavras de Thoreau: "Para cada mil homens dedicados a cortar as folhas do mal, há apenas um atacando as raízes". Um salto qualitativo somente pode ser realizado em nossas vidas quando deixa­mos de cortar as folhas da atitude e do comportamento e passamos a trabalhar nas raízes, nos paradigmas que determinam nossa conduta.

Não, não como indireta a alguém. É para que eu tenha a oportunidade de relê-lo. Mesmo com tanta coisa errada pelo mundo, o mais errado seria eu se não me lembrasse que “nada muda se você não mudar”.

domingo, 8 de agosto de 2010

Dia dos pais?

Num dia corrido, correndo atrás de logística para uma viagem às Bahamas, recebemos a notícia: estávamos grávidos. Foi o ponto inicial de um relacionamento imorredouro. A viagem, cancelada, pois a gravidez não permitia.

Uma gravidez complicada, mas que nunca ameaçou a nova relação. Eu conversava todo dia com o feto, que nem sabia que sexo tinha, e ao qual eu chamava de “pinguinho de gente”. Pinguinho, portanto. Até sabermos que era uma menina. Daí virou Pinguinha, claro.

No dia de seu nascimento, um pai derretido frente àquela que mal abria os olhos, mas com quem já sabia ter um fortíssimo vínculo.

Nos anos de seu desenvolvimento, minha presença era uma constante. Apesar de divorciado desde que ela completou dois anos de idade, nunca me permiti ficar ausente de sua vida. Doenças, acidentes, a menarca, as angústias, assim como as brincadeiras, as felicidades, as descobertas. Brigávamos abraçados, com a mensagem subliminar, mas muito clara, de que nossa divergência não diminuía nosso amor mútuo.

Hoje, crescida, parece que ainda temos muito assunto, muita conversa, muita coisa por compartilhar. Sempre é hora, nunca é tarde demais, nunca é cedo demais. E assim vamos, pai e filha, mais amigos que parentes.

Por isso, não acredito em dia dos pais. É uma data comercial, em que os presentes são a tônica, e não necessariamente celebram uma boa relação. Acredito em amor e respeito, obrigatórios, nessa relação de paternidade. E, óbvio, de maternidade. Celebrar os dias separadamente é, repito, apensa um recurso comercial.

Sempre quis fazer de minha relação com minha filha algo muito maior. Sempre dediquei, além do meu tempo, do meu amor, e da minha dedicação, muito respeito. E, desde o momento que soube que ela estava ali, na barriga da mão, ela se tornou um dos motivos definidores da minha vida. Pois as nossas vidas estavam, desde muito cedo, entrelaçadas de forma inexorável.

Por isso tudo, não posso acreditar quando vejo notícias de abandono, de pais que maltratam, agridem, até mesmo matam seus filhos. Não consigo entender nem mesmo o que leva um pai a se afastar de seus filhos.

Ser pai é uma grande responsabilidade. E eu, que ainda preciso me aprimorar, fico sempre projetando quais os resultados de minhas falhas no decorrer da vida de minha filha. Mas a certeza de que existem falhas e pontos por melhorar não impedem que eu siga em frente, sabendo que amor e respeito serão sempre os valores que norteiam nossa relação.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Massa, história, hipocrisia: um caseiro, um motorista, uma secretária

299648_thats_lame_bad_andor_stupi[1] Felipe Massa deixou Alonso passar. E daí?

Para quem gosta do esporte, como eu, foi um balde de água fria. Não foi, entretanto, o fim do mundo. Porque estou torcendo para Mark Webber. Merece, está no momento. Mas quem precisa de um herói, quem carece de referência, quem vive sua vida pela dos outros, aí, sim, foi uma tragédia. O candidato a herói, o bom moço, aquele que está quase, traiu a confiança de todos.

Parece que preferiu manter suas regalias, previstas num contrato. E adotou um comportamento, também previsto no contrato. Quem é que não toma atitudes como essa pensando no futuro, ou no presente?

Todos fazem o que acham melhor. Alguns acham melhor fazer coisas erradas, criminosas até. Todos os dias nos surpreendemos com pessoas acima de qualquer suspeita flagrados em alguma coisa desse tipo. O mais recente caso foi o do goleiro. E todos aqueles que nunca vêm à tona?

Um presidente caiu. Foi por causa de um motorista,  que veio a público contar sobre a coleta de dinheiro. Um ministro caiu. Foi por causa de um caseiro que veio contar que o vira numa festa de arromba (talvez uma balada?). A secretária confirmou: viu montarem um empréstimo farsesco, para livrar o presidente. Que é aquele ex retro citado. Vários políticos e outras personalidades se viram em maus lençóis por causa de ex-esposas, mas estas com ânimo diferente dos primeiros citados. Enquanto estas procuravam vingança, os primeiro queriam a verdade sob o detergente da luz do sol.

Quantas pessoas adotam comportamentos escusos, procurando manter seus privilégios ou evitar problemas? São incontáveis. Todos motivados por alguma razão de foro íntimo: evitar a perda do emprego, garantir o salário, evitar uma briga, evitar criar um desafeto. Olhar para o outro lado, muitas vezes, é o caminho. Ou pode ser o caminho.

Há os que baseiam suas ações em valores: o bem contra o mal, o certo contra o errado. Mas não há como exigir, querem imaginar, desejar ou sonhar que todos sejam assim. Ou mesmo que alguém seja assim o tempo todo. Até porque o certo, muitas vezes, é uma questão subjetiva.Para exemplificar, há os que vêem nos atos do motorista, do caseiro e da secretária, motivações políticas. Queriam desestabilizar alguém: o presidente, ou o ministro. E quem pode dizer que estão errados os que pensam assim? Claro, os que não pensam.

O fato é que tudo depende de como se quer enxergar a situação. E se Massa, ao assinar o contrato, deu sua palavra de honra que agiria assim nessa circunstância? O que seria de se esperar dele: valorizar a palavra dada ou satisfazer a vontade de outros (milhares de outros, mas, ainda assim, outros).

Julgamos sem dados, condenamos sem julgamento. O goleiro já é culpado, está na cara!, é o que se ouve. A ânsia pela justiça não teme a injustiça. Puna-se, não importa quem. E, assim extravasamos nossas próprias frustrações, para fingi-las superadas na condenação de outrem.

Hipocrisia pouca é bobagem. Tolos são os que ficamos esperando que o mundo se torne aquele paraíso que queríamos.

sábado, 3 de julho de 2010

Ressaca pós derrota - patriotismo e futebol

istockphoto_741043-you-re-out[1] Repercute hoje a derrota da seleção brasileira, claro. Não poderia ser diferente. Assunto para todos os locais, todos os momentos. A isso estão chamando de patriotismo.

Ao longo dos últimos anos, escândalos proliferaram no Brasil. Envolvendo diversos níveis de administração pública, poder executivo, legislativo e até mesmo polêmicas envolvendo o judiciário. Em nenhum deles o “patriotismo” colocou os assuntos no mesmo nível da seleção nacional.

Debater os erros de Dunga, o descontrole do Felipe Melo, isso é patriotismo. Deixar de comentar os desmandos dos presidentes do senado, os escândalos de meias e cuecas, os presentinho tipo Land Rover, dinheiro à vista de todos, emprego para o namorado da neta, isso não é falta de patriotismo.

Lembram-se todos que daqui a quatro anos teremos outra chance de exercer nosso patriotismo. Mas há outro evento que ocorre de quatro em quatro anos, e não recebe a mesma paixão: eleição. Poucos se preocupam em criticar a escalação dos times políticos, poucos se preocupam em analisar os erros. País com um dos maiores níveis de carga tributária do mundo, provavelmente para financiar escândalos, a população não lamenta, não chora, não berra contra isso. Mas o chute errado de Kaká, o cartão amarelo de Ramirez, isso é assunto nacional.

O futebol, o equivalente atual do circo romano (do pão e circo), tem mesmo esse poder. Abstrai a massa, polariza as opiniões, emociona tanto a ponto de tirar a atenção do que deveria interessar. E tome circo. Já vi mensagens dizendo que o negócio, agora, é olhar para os campeonatos de futebol locais. Cirquinho, talvez, mas ainda um elemento de distração.

Pobre país, em que o futebol mobiliza. Só o futebol.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Abaixo o “sistema” – telefonia, bancos, tvs por assinaturas

Sempre que preciso de atendimento telefônico por parte de operadoras de telefonia, bancos ou de minha TV por assinatura, já sei que vou ouvir:

- Desculpe a demora, mas meu sistema está enfrentando um pouco de lentidão…

Abaixo o sistema! Sou pela volta do papel, se isso tornar o atendimento mais rápido.

Todos os males atuais da humanidade recaem sobre o “sistema”. Tao poderoso, ubíquo, ineficiente, lento “sistema”. Claro quer algo precisa ser feito, como trocá-lo, apagá-lo, queimá-lo, e até mesmo responsabilizar a quem de direito.

Chegará o dia em que os “sistemas” rebelar-se-ão! E, tal e qual temido no bug do milênio, aí sim mostrarão sua face mais maléfica: trens, metrôs, trólebus,  aeroportos, tudo parado… E, inclusive e principalmente as operadoras de telefonia, os  bancos, as operadoras de tv por assinatura, mas desta vez com completa inocência.

Minha operadora de telefonia, para se livrar de seus custos administrativos, esforçou-se para que eu fizesse acesso pela internet para resolver minhas pendências, tal e qual os bancos. Criei usuário e senha, fiz muitas transações pela internet, e economizei vários tostões da empresa. Um belo dia, cometi um erro fatal: esqueci minha senha. Claro que no site existe o botão “Esqueci a senha”. Cliquei ali, li a mensagem polidíssima dizendo que uma nova senha tinha sido enviada ao meu e-mail. E, para não haver nenhuma dúvida, o site ainda apresentava, na mensagem, o e-mail cadastrado, para nos dar a oportunidade de, em havendo erro, corrigi-lo.

Coisa de século XXI! Se funcionasse…

Depois de muitos pedidos, sem que nenhum e-mail chegasse, resolvi ligar à operadora. Que, depois de muito me transferir, acabou me explicando, com a maior impaciência, que o site não era problema deles. Eu devia entrar no site para solicitar a regularização.

Munido de uma paciência certamente de outros milhares de pessoas, tentei explicar às pessoas que me atenderam (plural, pois a supervisora interferiu) que, no site, é exigida a senha para acesso, que era justamente o que eu não tinha. A paciência que eu tive não tiveram os atendentes. De maneira bem pouco polida, me disseram que o site, ora bolas, não era problema deles.

Ok. Fui ao site, para ver se eu era mais idiota que pensava. E não funcionou de novo (pode ser que eu realmente seja mais idiota que penso. Mas não neste caso). Resolvi clicar na Ouvidoria, e ali registrei (pelo site, destaco), minha solicitação/reclamação/reivindicação/desabafo. Imediatamente recebi uma daqueles e-mails intitulado “não responda”, dizendo que meu pedido seria analisado.

Deve ter sido, pois recebi uma mensagem da Net, quer dizer, da minha operadora de telefonia, dizendo que tentaram entrar em contado telefônico comigo, mas que não conseguiram. Daí, o motivo pelo qual não poderiam resolver meu problema.

Claro, devia ter desconfiado. Se é uma ouvidoria, só atendem pelo telefone, senão seria uma leitoria.

Tudo isso para dizer o seguinte: deve ser o tal do sistema, já cansado de ser responsabilizado por tudo, já incorporando o Hal 9000 e sabotando, segundo sua própria moral, aqueles que dele se aproveitam.

Ah, e até hoje não tenho ainda senha para acesso ao site. Será um estímulo para eu sofrer com o sistema de outra TV pos assinatura?

segunda-feira, 10 de maio de 2010

É preciso saber entender

1102206_question_mark_4[1] Na vida profissional, aprendi que pessoas têm comportamentos que são sempre motivados por fatos anteriores. ninguém os adota por mera escolha, mas para tentar evitar situações pela quais já passaram. Por exemplo, se alguém verifica, com muito zelo, se os relatórios do computador estão somados corretamente, provavelmente deve ser porque, numa ocasiãi qualquer, um erro desse tipo vitimou aquela pessoa de tal forma que ela vê sentido na sua ação.

E, com efeito, sempre que investigávamos a fundo os comportamentos que julgávamos disfuncionais, sempre achávamos motivos subjacentes não declarados,mas definidores.E, a partir desse conhecimento, a compreensão era sempre muito mais abrangente.

E a partir dessa experiência adotamos o que eu chamava de “Brincadeira dos Porquês”, que consitia, basicamente, emprocurar sempre o porquê de um comportamento, e os porquês dos porquês. Quanto mais profundaa compreensão, mais efetiva a solução. E alimentávamos esse comportamento através da adoção da “dúvida sistemática”.

No mundo pessoal, os ganhos também se fizeram presentes pela “dúvida sistemática”. Embora nem sempre coubesse a pergunta, a investigação não se eliminava. Por trás de todo comportamento, há sempre um motivo. E tentou pautar minha vida nessa busca obsessiva busca, que sempre trás mais benefícios que problemas.

Mas é um choque quando testemunho pessoas que tiram suas conclusões baseadas em sintomas superficiais. Pessoas que não tentam entender outras, e a seus problemas. Pessoas para quem suas conclusões são a mais pura expressão da verdade, independentemente do contexto.São as pessoas que se autodenominam “autênticas”, mas são míopes, somente: míopes em relação à vida.

São vítimas dessa miopia, por mais paradoxal que seja, os familiares e as pessoas mais próximas do “míope”, pois a intimidade traz uma falsa idéia de conhecimento. E a arrogância de conhecer a tudo e a todos pode ser a arma que destrói mais e mais relacionamentos.

O texto abaixo (que eu já publiquei aqui) trata magistralmente do tema, por um dos maiores especialista em Liderança: Stephen Covey. Permito-me republicá-lo porque a redundância age, neste caso, em bom nome.

Eu me recordo de uma mudança de paradigma que me aconteceu em uma manhã de domingo, no metrô de Nova York. As pessoas esta­vam calmamente sentadas, lendo jornais, divagando, descansando com os olhos semicerrados. Era uma cena calma, tranqüila.

Subitamente um homem entrou no vagão do metrô com os filhos.

As crianças faziam algazarra e se comportavam mal, de modo que o clima mudou instantaneamente.

O homem sentou-se a meu lado e fechou os olhos, aparentemente ignorando a situação. As crianças corriam de um lado para o outro, ati­ravam coisas e chegavam até a puxar os jornais dos passageiros, inco­modando a todos. Mesmo assim o homem a meu lado não fazia nada.

Ficou impossível evitar a irritação. Eu não conseguia acreditar que ele pudesse ser tão insensível a ponto de deixar que seus filhos incomo­dassem os outros daquele jeito sem tomar uma atitude. Dava para per­ceber facilmente que as demais pessoas estavam irritadas também. A certa altura, enquanto ainda conseguia manter a calma e o controle, virei para ele e disse:

- Senhor, seus filhos estão perturbando muitas pessoas. Será que não poderia dar um jeito neles?

O homem olhou para mim, como se estivesse tomando consciência da situação naquele exato momento, e disse calmamente:

- Sim, creio que o senhor tem razão. Acho que deveria fazer algu­ma coisa. Acabamos de sair do hospital, onde a mãe deles morreu há uma hora. Eu não sei o que pensar, e parece que eles também não con­seguem lidar com isso.

Podem imaginar o que senti naquele momento? Meu paradigma mu­dou. De repente, eu vi as coisas de um modo diferente, e como eu estava vendo as coisas de outro modo, eu pensava, sentia e agia de um jeito diferente. Minha irritação desapareceu. Não precisava mais controlar minha atitude ou meu comportamento, meu coração ficou inundado com o sofrimento daquele homem. Os sentimentos de compaixão e so­lidariedade fluíram livremente.

- Sua esposa acabou de morrer? Sinto muito. Gostaria de falar so­bre isso? Posso ajudar em alguma coisa? - Tudo mudou naquele momento.

Muita gente passa por uma experiência fundamental similar de mu­dança no pensamento quando enfrenta uma crise séria, encarando suas prioridades sob nova luz. Isso também acontece quando as pessoas as­sumem repentinamente novos papéis, como marido, esposa, pai, avô, gerente ou líder.

Poderíamos passar semanas, meses ou até mesmo anos usando a Éti­ca da Personalidade para tentar alterar atitudes e comportamentos, sem sequer nos aproximarmos do fenômeno da mudança, que ocorre es­pontaneamente quando vemos as coisas por uma nova óptica.

Torna-se óbvio então que a vontade de realizar mudanças relativa­mente pequenas combina com o foco nas atitudes e comportamentos. Mas, se desejamos empreender mudanças qualitativas significantes, pre­cisamos trabalhar com nossos paradigmas básicos.

Ou, nas palavras de Thoreau: "Para cada mil homens dedicados a cortar as folhas do mal, há apenas um atacando as raízes". Um salto qualitativo somente pode ser realizado em nossas vidas quando deixa­mos de cortar as folhas da atitude e do comportamento e passamos a trabalhar nas raízes, nos paradigmas que determinam nossa conduta.

O texto foi extraído do Livro "Os 7 Hábitos de Pessoas Muito Eficientes", de Stephen Covey, 5ª Edição, Editora Best Seller.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O Corolla – Empresas e seus consumidores

http://www.istockphoto.com/file_thumbview_approve/8598579/2/istockphoto_8598579-warning-sign.jpg A Toyota foi obrigada, pela justiça de Minas Gerais, a deixar de comercializar o Toyota Corolla, um grande sucesso de vendas. Preço do sucesso? Não, foi o rompimento com o passado.

Quando o “toyotismo” se tornou realidade, especialistas apontaram as causas: a manutenção, contra todas as correntes, da filosofia japonesa de administração. Várias revistas publicaram estudos mostrando como a empresa ainda privilegiava o emprego até a aposentadoria, como os CCQs (Círculos de Controle de Qualidade) ainda estavam em plena atividades, etc..

Na crise das montadoras, a Toyota já vinha brigando cabeça a cabeça com a GM na disputa do posto de maior montadora do planeta. E, agora que o rei está desnudo, várias revistas apontam a quebra das tradições da Toyota para atingir esse ponto, como se valesse alguma coisa. Os prazos de montagem foram revistos, para atender “à nova ordem Mundial”, por exemplo, e o resultado, totalmente indesejado por todos, aí está.

Uma enorme crise nos Estados Unidos, que leva à ameaça de fechamento das fábricas (ou levou, no auge da crise). Agora, no Brasil, a suspensão das vendas pelo poder público, cada vez mais atuante e atento.

No famoso episódio da Johnson &Johnson do Tylenol, a decisão da empresa de retirar o produto do mercado, embora não tivesse culpa direta no ocorrido, resultou num enorme apoio da população, uma vez vencida essa crise. Claro que, imediatamente, houve um prejuízo à marca. As ações da empresa, embasadas no seu código de ética, e que colocavam a saúde dos consumidores em primeiro lugar, entretanto, foram fortes o suficiente para manter o Tylenol na lista dos remédios mais confiáveis (pós crise), e a J&J como empresa de absoluta confiança dos consumidores.

No Brasil, graças ao poder público é há avanços na área. Sabe-se de muitos produtos que apresentam problemas, de forma sistemática e repetitiva. Mas os recalls não surgem. Surgem mais em áreas delicadas, como produtos pára bebês e automóveis, em que há grande risco de morte. O Brasil ainda não tem uma instituição que sistematize essas queixas, e os compile de forma a apresentar dados bastantes para que os recall aconteçam. E, infelizmente, é preciso que seja uma associação não governamental, pois os organismos oficiais ainda não respondem a esse tipo de necessidade social (não respondem a necessidades ainda mais básicas).

Resta saber se os interesses dos brasileiros, defendidos tão renhidamente pelos Procons e associações pró consumidores interessam ao cidadão que vai adquirir seus produtos. Ou seja, o fato de a Toyota desdenhar das acusações, dizendo que a culpa é da má colocação do tapete (!!), recusando-se ao recall, e provocando essa proibição das vendas do Corolla, vai sensibilizar os consumidores a ponto de estes evitarem produtos da empresa?

Acho que não.

sábado, 17 de abril de 2010

Há limite para a liberdade individual?

http://www.sxc.hu/pic/m/s/sv/svilen001/1254522_teamwork__3.jpgNesta semana, em reportagem da Band News, a Prefeitura anunciou a instalação de chips nos automóveis, elencado diversos benefícios da medida. A instalação de duas mil antenas daria à prefeitura a capacidade de monitorar, em tempo real, a frota de carros da cidade.

Bóris Casoy questionou a medida, chamando de Big Brother, pois o poder público teria condições de saber onde estivemos com nossos automóveis, o que seria uma afronta à nossa intimidade.

De fato, é. Mas, por outro lado, poderia não ser. Se a medida fosse implementada com salvaguardas, ela seria extremamente útil. Por exemplo, a própria Band veiculou, no seu jornal televisivo, reportagem em que um motociclista gravou uma tentativa de roubo da sua moto, por ladrões que chegaram em outra moto. Pois bem, seria o caso, de, no interesse de possibilitar ao estado o exercício de seu poder-dever de punição, um juiz autorizar a verificação dos dados de motocicletas que tivessem estado no local, naquele horário, para se chegar aos suspeitos (caso já tivéssemos o chip, claro). Pois hoje já acontece assim: o juiz autoriza a quebra de sigilos telefônicos, fiscais e bancários de suspeitos, fundamentadamente, para que as investigações tenham curso.

Assim, não vejo porque não poderíamos ter um sistema que ajudasse a monitorar frotas para fins de trânsito (e fiscais, claro), que nos auxiliasse também na ordem pública.

Há que haver uma certa renúncia por parte do cidadão, claro. Há a possibilidade de sua intimidade ser ameaçada, embora de forma pequena, pois trata-se de um dado que, embora não público, também não carece de confidencialidade: o carro ou moto, circulando pelas ruas, é visto por centenas de pessoas. Que inclusive testemunham, em casos policiais, sobre esse contato visual, estabelecendo a presença ou ausência de uma pessoa em determinado loca.

Não cabe a comparação com 1984, de Orwell, pois na ficção o “Grande Irmão”  foi concebido como mecanismo de repressão e propaganda do partido. Aqui, estamos falando de um estado de direito (pretenso, ao menos), em que as regras teriam a participação (ou poderiam ter) da sociedade ou de seus representantes eleitos, para garantir seus interesses. Mas, ao mesmo tempo, mais do que proteger interesses individuais, priorizasse os coletivos.

Aliás, o interesse coletivo sempre se subordina, nos discursos e rompantes de políticos e inflamados, aos interesses individuais. Grande exemplo disso são os famosos direitos humanos, evocados em nome de presos e condenados, por exemplo, contra os quais se inflamam mesmo jornalistas, como o próprio Bóris Casoy.

Precisamos, pois, resolver esse dilema. precisamos estabelecer uma hierarquia de valores que consiga unir os interesses individuais, garantindo-os, com os interesse coletivos, fazendo-os prevalecer nos casos de um bem maior.

Embora seja um personagem de ficção (ou exatamente por isso), o Sr. Spock, de Star Trek, nos dá uma lição importante:

Os interesses de muitos se sobrepõem aos interesses de um só.

quinta-feira, 25 de março de 2010

O mito do pacto social

http://www.sxc.hu/pic/m/l/lu/lusi/1186822_puzzle_time_4.jpg O julgamento dos acusados de matar a menina Isabella Nardoni é, na verdade, uma espera. Espera-se que o casal seja condenado, tamanha é a certeza de sua culpa. A imprensa nos leva a isso, pois repórteres estão, neste caso, tendenciosos. Também é um espetáculo porque a imprensa torna não um espetáculo, não o inverso.

Mas o caso é que a multidão já os condenou. E, por isso, não se admitirá outro resultado que não a condenação. Dane-se o devido processo legal, danem-se os direitos de defesa de ambos.

Vemos, nas manifestações populares, sejam na Av. Paulista, sejam na periferia, que as pessoas tomam seus problemas como o centro do universo, e desrespeitam os diretos de outros, mesmo à base de violência. Trânsito interrompido, depredações, agressões. A pergunta é: esta devia ser a vida em sociedade?

O tal do pacto social, que deveria aplicar-se neste ponto da evolução humana, é mera tese falida. O cidadão, no regime político, dele não participa, a não ser para satisfazer exigência legal que lhe traz consequências negativas caso não cumprida. Mal se lembra de seus representantes legislativos, e abdica de atuação moralizadora. Obedece às leis que lhe são convenientes, observando algumas somente sob vigilância (sinal fechado, conversão proibida, compra de produtos contrabandeados, etc.).

No transito, não há, leis, há somente a lei do oeste, Quem sacar primeiro… Os policiais envolvidos em problemas de trânsito atiram. Matam ou morrem, como os marido traídos ou rejeitados.

O homem, ser gregário, parece adotar como lema o “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Gregário em termos, portanto. A Lei de Gérson é a mais alta no hierarquia das leis do homem atual, basta ver cuecas, meias e land-rovers.

Violência como resultado de nossas escolhas. Triste?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Renúncias nossas de cada dia

http://www.sxc.hu/pic/m/b/bu/burnin_dog/610719_decisions_decisions_decisions___.jpg Com a vida atribulada e corrida que vivemos, passamos cada vez menos tempo focados em nossos próprios problemas. E é justamente por isso que estamos sempre com o guarda-roupa por arrumar, as gavetas por limpar, telefones por fazer. E cansados, ávidos por recuperar minutos de sono, achando que isso levará embora aquela sensação de peso que sempre enfrentamos.

Algumas coisas têm prioridade. Limpeza, higiene pessoal, contatos inadiáveis, presentes de aniversários. e acabamos espremendo tudo isso junto às nossas escolhas, sempre as escolhas, que deixam milhões de coisas para trás.

Nossas escolhas nos fazem renunciar a algumas coisas, umas imperceptíveis, mas todas com um preço. Que são cobrados, cedo ou tarde.

Renunciamos de participar das decisões de condomínio, que afetam diretamente nossas vidas. E, por extensão, votamos em algumas pessoas que vão decidir nossas vidas, esquecemos-nos delas, para depois reclamar da vida no condomínio e dos problemas “políticos”.

Renunciamos a atividades físicas, e brigamos com a balança e com o médico, o portador das más notícias. “Mate o mensageiro”. Colocamos nossa saúde abaixo de questões sociais, familiares, profissionais. E esquecemos que somente vivos é que estamos em sociedade, em família e ocupados profissionalmente.

Renunciamos a conversas em família, assim como decidimos que não temos paciência para algumas coisas, mesmo que seja quase todas as coisas. E, como as conversas são demoradas, tomam tempo e consomem energia, ao menos aquelas conversas sérias, escolhemos ter somente as conversas de bar, as conversas descontraídas, sem compromisso, regadas a bebidas tantas.

E, no esteio de tantas renúncias, escolhemos, por ação ou omissão, que nossa vida se baseia somente no imediato, nas urgências e emergências, inclusive médicas, mas não exclusivamente.

E reclamamos que nossas vidas estão fora de nosso controle. Um pouco de coragem, um pouco de ousadia, uma decisão e muita determinação, é do que estamos precisando…

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Tecnologia a serviço de quem tem interesse

http://www.istockphoto.com/file_thumbview_approve/144574/2/istockphoto_144574-black-fingerprint-hi-res.jpg Sem alarde, os documentos dos nossos automóveis incorporaram uma preciosa novidade: o registro eletrônico de alienação. Quer dizer que, em caso de financiamento pendente, o dono/financiado não pode transferir o bem que ainda não é seu. Quando ele quita a dívida, o banco informa os sistemas do DETRAN , que cancela o gravame, e o bem passa a ser transferível.

O que determinou esse tipo de novidade, com certeza, é o interesse financeiro das instituições financiadoras, que acabavam arcando com os custos das fraudes. O DETRAN, em alteração de sistema que imagino ser simples e rápida, acatou a mudança.

Assim como essas, há muitas outras mudanças, rápidas e simples, que trariam segurança à população, senão física, ao menos no mundo jurídico. e envolvem não só o DETRAN, claro, mas muitas outras repartições.

A iniciar pelo registro de nascimento. O cartório não se comunica com a SSP (Secretaria de Segurança Pública), nem para informar nascimento e nem falecimentos. O nascido, então, tem somente meia vida, enquanto não providenciar seu Registro Geral, o famoso RG. Ora, se este é o documento oficial de reconhecimento, por que não emiti-lo logo de cara? E por que não cancelá-lo nos casos de falecimento? E, se assim fosse (registro automático no RG), poder-se-ia estendê-lo ao Cadastro de Pessoas Físicas? Ou seja, haveria a junção de três documentos num só, com gestão centralizada e única.

Já ouvi pessoas dizendo que o CPF, que é o cadastro junto à Receita Federal, só seria feito quando o cidadão estivesse em condições reais de contribuição (ou de necessidade, pois o registro é obrigatório para abrir contas em bancos). O que é uma bobagem, pois essa condição é latente: todos vão utilizar, um dia.

E seguindo na linha da unificação: carteira profissional e Carteira Nacional de Habilitação unidas num só documento. Com destaque para a Carteira Profissional, cuja dinâmica ainda remonta aos tempos antigos: preenchimento manual, possibilidades de rasuras, fraudes e etc. Com o estágio atual da informática e da informatização nas empresas, é inconcebível a existência de tal documento.

A pergunta é: a quem pode interessar tal mudança? Pois fica claro que somente havendo um  interesse grande é que as mudanças ocorrem. Que não seja o interesse coletivo, bem entendido. Este existe de maneira incontestável, só não é privilegiado.

O Brasil cartorialista e com entidades estanques já deveria ser coisa do passado. Apesar do seu propalado subdesenvolvimento, o país é um dos que mais acessam a internet, tem celulares, banda larga e etc. Temos, como novidade mundial, as votações eletrônicas, em urnas concebidas e fabricadas no país. Mas não temos ainda um sistema que torne eficientes as formas de identificação dos cidadãos nos seus vários papéis perante o governo.

Ah, isto porque nem chegamos ao ponto de inserir, no documento único, o registro do Título de Eleitor. Aí, saberemos quantos são os eleitores. Mas deve ser exatamente por esse motivo que as coisas não andam…

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Acidentes de trânsito: o direito de matar

http://www.istockphoto.com/file_thumbview_approve/2546618/2/istockphoto_2546618-u-roll-wetow.jpg Quando Maluf tornou obrigatório o uso do cinto de segurança na cidade de São Paulo, eergueram-se muitas críticas contra “a liberdade” dos cidadãos. Mas a experiência foi tão bem sucedida que tornou-se orbigatório o uso do cinto em todo o país, a despeito da crítica daqueles. A medida evita mortes, lesões leves e lesões graves nos motoristas.

Alguns dos argumentos daqueles que criticaram a medida prendem-se ao fato de que a pessoa pode escolher colocar o cinto, pois a vida em risco é a sua. Crítica hoje em desuso, pois a cultura social já incorporou o acessório. Ademais, a liberdade de se arriscar provocava -- e ainda provoca --  custos altos para o atendimento médico desses cidadãos, o que, por si só, já justifica qualquer medida de prevenção.

A realidade atual é que a pessoa, caso se acidente, está sob proteção do cinto de segurança, que é eficaz em determinados tipos de acidentes. Mas é também componente dessa realidade a existência de outros fatores danosos, sendo a velocidade um deles.

A velocidade está presente na culpa (imprudência, imperícia e negligência). Está presente nos casos fortuitos, como nos casos de defeitos mecânicos. Está presente nos casos de motoristas embriagados, nos quais o motirista não tem condiç~~oes de conduzir o veículo, que dirá de controlar a velocidade? Exemplo disso é o acidente do deputado paranaense, que estava em velocidade acima de 150 km/h, segundo as notícias da imprensa.

Por que não há ação para limitar a velocidade dos automóveis?

A resposta mais óbvia, indo diretamente na linha da Teoria da Conspiração, é que não interessa à indústria automobilística. talvez tenhamos de ficar em explicações mais superficiais: ainda não houve ações legislativas nesse sentido.

A sociedade ainda não se mobilizou o suficiente para gerar essa necessidade em seus representantes (se é fato que essa mobilização gera ação). Faz parte da estratificação social a posse de automóvel que seja potente, capaz de acelerar rapidamente, destacando-se dos carros “dos outros”. Quem tem carro popular (aqueles de até 1000 cilindradas) reclama de aceleração e velocidade. E aspira um carro “mais forte”. E mesmo os populares são vistos acima da velocidade máxima permitida em ruas e estradas, a despeito de suas limitações.

Qualquer que seja a justificativa para a falta de mobilização, o fato é que não há, e parece ser impossível que haja, a chamada conscientização do indivíduo. Assim como no caso do cinto de segurança, é preciso que haja uma determinação, uma ação que interesse à sociedade, e não se prenda aos desejos individuais.

Pois é a sociedade que arca com os custos, financeiros e psicológicos dos acidentes de trânsito. Os acidentados são levados, normalmente, a hospitais públicos, furando a fila d eoutros doentes, consumindo esforços e recursos.

Ademais, as vítimas do excesso de velocidade, a quem resta pouco ou nada a fazer para previnir, são oneradas pesadamente por uma omissão social. E consomem recursos tanto quanto os reais culpados, além do sofrimento que o acidente lhes impõe.

A velocidade e a aceleração são bases da propaganda, que prega que liberdade é igual à capacidade de atingir, rapidamente, grandes velocidades. Como diz aquele comercial em veiculação, “uma hora o sinal abre”. A consequência da mensagem é óbvia, e é igualmente negativa. Mas a potência do motor e a capacidade de de acelerar são os principais motes de vários automóveis. E tudo porque não temos limites físicos à essas capacidades.

É preciso que limitemos a velocidade e a capacidade de aceleração a níveis que nos façam fugir desse flagelo que é hoje o acidente de trânsito. Não que a limitação vá eliminar os acidentes, mas obviamente um carro que colide a 100 km/h tem um potencial lesivo menor que o de uma colisão a 140km/h. E, quanto maior carro, maior o peso, mais perigosa é a arma que o motorista irresonsável engatilha sobre nossas cabeças.

A irresponsabilidade de nossos motoristas teria, então, uma mitigação. A indústria marqueteira teria de descobrir outras formas de vender automóveis. Mas, em contrapartida, seriam menores nossas perdas com acidentes de trânsito. Infelizmente não nos preocupamos com isso até que a vítima seja próxima de nós.

Mas é preciso agir civilizadamente, em nome do bem maior que é a sociedade. Estendamos a experiência do cinto de segurança. Limitemos (fisicamente, através de mecanismos mecânicos ou eletrônicos) a velocidade e a capacidade de acelerar de nossos carros.