segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A democracia autoritária

http://www.istockphoto.com/file_thumbview_approve/7108416/2/istockphoto_7108416-toy-monkeys.jpg Não há mais a polícia nas ruas em nome dos governos. Exceto aqueles que “cumprem decisão judicial” e entram em confronto com a população. Mas a perseguição patológica da ditadura, cuja autoridade é o bem maior para seus acólitos, acabou.

Também não existe mais censura. Isso se considerarmos correta a afirmação do ministro, a de que “não é censura quando decidido pelo judiciário”. Mas impede-se de publicar a notícia, mas não é censura.

os amigos do poderoso não mandam mais nas capitanias hereditárias. Exceto quando a polícia e a mídia os acusam de malfeitorias, e provam-nas. O poderoso, com seus poderosinhos, finge apurar, finge indignar-se. Ou nem isso. Diz que não é errado, “todos fazem”, é preciso provar. Ou culpam o perene Goldstein dos males públicos brasileiros, a conspiração das mídias para desestabilizar seja lá quem for.

Enquanto o governo aprimora seus mecanismos de cobrança (aparelhamento da Receita Federal, Nota Fiscal Eletrônica, ressarcimento eletrônico ao SUS), impede a publicação dos gastos de políticos detentores de cargos.

Enquanto a lei que reforma o código civil levou mais de vinte anos para ser aprovada, o reajuste dos funcionários da câmara federal leva pouco menos de quinze… minutos.

A garota vai presa por pichar uma parede, assim como o desempregado que roubou alimentos para sua família. Presos. Cadeia, aquela superlotação, que assusta e provoca pesadelos, mas nos pobres. O ex-ministro está em prisão domiciliar, e roubou milhões, apareceu em fotos no seu apartamento na praia, e ao lado de carros caríssimos.

O companheiro, qualquer companheiro, está isento de culpa. Quer tenha posto dinheiro na cueca, quer tenha contratado o namorado da neta ilicitamente. Podia ser um passeio de Land Rover, podia ser a fabricação de um dossiê. Podia até mesmo ser a propina institucionalizada, o pagamento mensal, em prestações nada suaves, para fazer sabe-se lá o quê.

O fato é que essa nossa democracia está ferida de morte. Aliou-se a más companhias, drogou-se, prostituiu-se, e nem pode escrever um livro, de título Democracia F., drogada, prostituída.

Seus defensores agem como aqueles pais que estupram a própria filha, e se acham nesse direito. Flagrados de calças na mão, ousam desafiar a inteligência dos cidadãos, negando o óbvio, pois afinal de contas “as imagens não dizem nada”. São os fiéis depositários que vendem o bem sob sua garantia, pegam-no de volta para vender novamente.

Nossa democracia é a ditadura cordial, no sentido de não mais haver o nível de violência empregado pelos militares. Violência há, embora não física. A maior delas é a violência contra a moral, cidadã em coma há muito tempo, em estado vegetativo e sobrevivendo apenas por aparelhos. E nossa inteligência, já tão cansada de apanhar, de ver coisas que nunca são a verdade – a menos que divulgadas pelo Miniver (o Ministério da Verdade) e apóiam o sonho megalomaníaco de nossos governantes, segue o mesmo caminho. Já está sem forças para reagir, já entra em estado de hibernação.

E, pior, não podemos nem reclamar. Muitos daqueles que são os culpados diretos por esta situação humilhante foram colocados por nós nos seus cargos. E, se se digo nós, é para aceitar esse jogo da pseudo-democracia, em que a maioria decide. Essa mesma maioria que já celebrou comer um frango por ano (na média), já tem celular em casa (mas não esgoto) e que está encantada com as Olimpíadas e a Copa do Mundo. Essa mesma massa que se une para apoiar o time do coração, mesmo agredir seus jogadores e destruir seu estádio, mas não se revolta contra o assalto a mãos desarmadas de que somos vítimas. Essa mesma maioria que ao médico não vai, pois não tem onde ir. Mas vai ao hospital, para morrer, ao menos de raiva, quando percebe que prédio há, negligenciado, velho, sem manutenção, não não há médico, nem equipamentos. Nem solidariedade.

Essa maioria que se sensibiliza com a novela, que assiste ao Big Brother Brasil, mesmo sem ter a teletela do Winston, mas observando os candidatos a famosos em suas explosões emocionais nos dramas fabricados pelo circo. Nem é preciso o pão.

Nossa democracia é o exemplo mais perfeito de que é possível ser sem ser. É o autoritarismo escolhido: nós escolhemos quem vai nos oprimir.

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