domingo, 2 de agosto de 2009

Cebola social: a queda de Sarney

http://www.istockphoto.com/file_thumbview_approve/5271791/2/istockphoto_5271791-red-onion.jpg Tudo indica que Sarney vá abandonar a presidência do senado. Já era tempo, ou melhor, já passara do tempo. Mas a guerra foi ganha (ou será) graças a uma parcela bem distinta de nossa sociedade: a imprensa. Que vem fuçando, vasculhando, denunciando. Enquanto isso, a população…

Em Brasília, um político defenestrou-se com uma acusação de espionar votos secretos. Foi punido com o governo do DF. Outro político, defenestrado por atos suspeitíssimos, foi punido com um cargo de senador. Muitos outros casos da espécie, em que um político, pego em flagrante, volta ao poder pelo voto direto da democracia brasileira. O que permite concluir: ou o povo gosta mesmo é de ser roubado, ou não faz idéia do que está acontecendo. Ou não liga.

Há, em nossa sociedade (a brasileira), uma cebola que estratifica as camadas. Mas cada camada, diferentemente da cebola, é diferente. E há razão de ser.

No centro, estão escondidos aqueles que não sabem o que acontecem. E/ou não se importam. É aquela população que, explicaria Maslow, estão preocupados com suas necessidades mais básicas, sendo a participação político-social ainda muito distantes de seu cotidiano. Estão na batalha para sobreviver, para alimentar-se, para proteger-se. Ou, diria Maquiavel, já se encontram de vida ganha, protegidos, obesos, circo garantido. E, por isso mesmo, não querem se envolver em questões comezinhas, mas não suas. São a parte da população empurrados ao centro da cebola pela bolsa-família, que garante a comida e a novela. Não estão preocupados com os escândalos dos senadores.

Mais externamente, estão aqueles com certo interesse no que acontece no Brasil. Contabilizam seus “gastos” com impostos, mas acham que não recebem de volta os benefícios. Ficam indignados com o governo e seus escândalos, mas não têm força social e ânimo para reagir. Gostariam de um país melhor, mas não se lembram em quem votaram para vereador ou deputado. Não sabem o nome do vice (qualquer vice), mas sabem o escândalo da vez. Na ameaça de ter de contar com o bolsa-família, e sem ter condições de pleitear o bolsa-papai (ou bolsa-vovô), seguem na luta como podem. E tome novela das oito.

A seguir, aqueles que se envolvem mais. Em discussões, ao menos. Mandam e-mails para seus representantes, não importando se votaram neles. Manifestam-se, xingam, exigem. Até que chega a hora de trabalhar, e daí abandonam tudo. Estão com a vida em andamento, financiamento de carro e apartamento, estudos inacabáveis, compromissos e metas mil. O Brasil é importante, mas a vida precisa seguir. E, afinal, essa é a regra da democracia: se não estiver gostando,muda nas próximas eleições. Nos escândalos, indignam-se. E balançam a cabeça. Não tem jeito, mesmo.

Depois, estão formadores de opinião. Jornalistas, catedráticos (uns poucos), algumas exceções religiosas (já não adianta reclamar ao bispo, ocupado com outras coisas). Estes sim, batem, rebatem, pisam e repisam. Ao menos até a próxima onda de escândalos. Aí, porque tudo é questão de foco, indignam-se com as novas denúncias. Mas fazem um barulho dos diabos com seu espaço na mídia. Não se sabe se fazem isso por cidadania, ou porque seu emprego o exige. O fato é que as punições e quedas se dá por conta de sua atuação. Deveriam fornecer o material para indignação das outras parcelas da cebola, abaixo de si. Mas aquelas, já se sabe, tem memória curta, conforme um ser que se lixa para sua opinião. Por enquanto, esta é a parcela da cebola que é ativa. É graças a ela que as coisas acontecem. Mas ela tem um grave problema: uma defesa incondicional do estado de coisas em que vivemos, especialmente uma tal democracia. Talvez todos gostássemos dela, mas precisaríamos vivê-la. Ainda não é o caso.Esta camada é a fronteira da lei. A lei chega só até aqui.

Na camada mais externa da cebola, estão aqueles que decidem os rumos. Estão acima da lei. Acima da moral. Acima dos bons costumes. Não há coerência, e a palavra que vale é a última proferida. Uns são uma metamorfose ambulante, outros pedem que esqueçam o que escreveu. Meliantes são aloprados, os atos são válidos se todo mundo faz. A democracia é um conceito, do tipo do zero kelvin: inatingível. Se eu não votei, não tenho culpa, não é problema meu. Todos são amigos, mesmo os inimigos, ao menos na hora de livrar a cara. Leis são reescritas, ou reinterpretadas. Atalhos existem, caminhos são para os outros. Coerência não é imprescindível, imprescindível é a manutenção do poder. Esta camada da cebola tem um desejo nada secreto que todas as demais camadas se fundam na central, aquela que não se importa. Daí, suas ações deixam de importar a qualquer um. Quem sabe a imprensa, subjugada, seja aquela mesma que, num estado qualquer, reescreva as notícias para engrandecer seu patriarca, no mais verdadeiro Ministério da Verdade orwelliano.

É a cebola precisa mudar. Pois do jeito que está, é de chorar.

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