domingo, 19 de julho de 2009

A biografia de Sarney

Senador Sarney:

O senhor, que um dia foi surpreendido com a cadeira de presidente da república, graças a uma tragédia pessoal de Tancredo Neves, registrou em sua biografia fatos memoráveis: primeiro presidente civil no pós-ditadura, foi aquele que promoveu a primeira eleição direta para presidente no pós- militarismo. Foi também aquele que convocou a Assembléia Nacional Constituinte, que tinha um certo Luiz Inácio dentre seus eleitos, e que fez promulgar a Constituição Cidadã, epíteto que lhe deu Ulysses Guimarães.

Reconheçamos que o senhor, que nem recebeu a faixa do ex-presidente, talvez por não utilizar perfume de cavalo, esteve em situação para lá de melindrosa: deixariam os militares as coisas seguirem seu rumo natural, ou natural seria outra intervenção?

Mas a transição foi feita, veio Collor e os resultados todos sabemos.

O que não sabíamos, senador, e que nunca poderíamos supor, por causa da “liturgia do cargo” (lembra-se desta expressão? Finíssima, refinadíssima) é que o senhor se afundaria, poucos anos depois, em escândalos que nos fariam esquecer aquela sua participação tão importante na história do Brasil.

Pois, convenhamos, benefícios a netos, netas, namorados e namoradas, filhos, etc., não parecem combinar com a biografia de um homem com seu passado. Pior, não combina com uma pessoa com seu patrimônio, que podia dar os mimos do seu próprio bolso, em vez de nos impingi-los secretamente como o fez.

Ou, dando-lhe o beneplácito de um voto de confiança, assumamos, para fins de exercício de raciocínio, que o senhor nada sabia. Surpreendente, pois envolve tantos de seu relacionamento, que nos faz pensar que o senhor é, sim, vítima de um complô, não da mídia, mas de um complô de sua própria família. “Até Tu, Sarney?”, é que o senhor poderia dizer a cada um dos beneficiados (às suas costas, nesta linha de raciocínio). Pois parece mesmo que seus parentes o querem destruir, querem vê-lo mal falado, querem vê-lo em palpos de aranha, sabe-se lá em vingança a que tipo de conflito familiar, e que por ser familiar não nos cabe questionar.

Mas senador, se for este o caso, lamento dizer que não precisamos do senhor na presidência do senado. Pior (ou melhor, a depender do ponto de vista: para a bactéria, a penicilina é uma doença): não precisamos do senhor no senado. Senão vejamos: o senhor não sabia que recebia uma verba a título de auxílio-moradia. Coisa boba, é verdade: pouco mais de três mil reais. Não sabia da contratação de um neto seu, nem de sua substituição por uma quase-nora. Não sabia da(s) sobrinha, não sabia do mordomo (talvez por ser Secreta?). Não sabia dos desmandos de sua fundação, nem sabia que o senhor tinha ingerência nas ações dessa fundação. Paremos por aqui, pois o raciocínio se baseia no seguinte: o senhor não sabia de coisas básicas e óbvias, que aconteciam debaixo do seu bigode, que, embora vasto, não é tanto assim que impedisse sua visão. Se coisas banais não lhe são claras e perceptíveis, para que precisamos do senhor na condução de assuntos nacionalmente importantes? Para que precisamos de sua ação como presidente do senado, coordenando ações de pessoas que (teoricamente) decidirão os rumos da nação? Se os rumos da nação dependessem de uma simples constatação em um holerith (como no caso do auxílio-moradia), estaríamos muito mal representados, senador, lamento dizê-lo.

E agora vem o senhor dizer que vai silenciar. Merecemos respostas. Não que vamos exigi-las, pois somos brasileiros, e os brasileiros não tem essa cultura. Mas merecemos. O silêncio nos desqualifica, nos ofende, nos torna ignorados. O silêncio, senador, o alinha com aqueles que sua investidura na presidência da república buscava combater: aqueles que têm medo da verdade, e se escondem atrás de censuras e atos que perdoam a violência.

Por isso tudo, senador, clamo, reclamo, conclamo e imploro: renuncie. Volte para o Amapá, ou maranhão, ou seja lá para onde for. Mas renuncie. Abra sua vaga a quem quer, de fato, ajudar o Brasil.

Renuncie.

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