sexta-feira, 12 de junho de 2009

Dia dos namorados

Recebi o texto abaixo sabe-se lá de quem, neste dia em que os casais se esfalfam em busca de vagas nos restaurantes e celebram rosas que logo secarão nos vasos. E o texto hoje será um hit na internet, já que pulula de site em site, prolífero.
De minha parte, reafirmo o que sempre digo: não estou à procura. Se aparecer, bem. Mas não será por necessidade ou carência que iniciarei um relacionamento. O que parece incomodar muita gente de meu círculo pessoal, já que sempre tem alguém querendo me apresentar “uma pessoa”. mas é o tipo de encrenca que achamos sozinhos, sem precisar de ajuda.
Encrenca?
Na maioria das vezes, sim. Claro, é uma forma de não sair da zona de conforto. Mas também uma forma de fugir daqueles relacionamentos danosos, que causam somente prejuízos.
Enfim, quando bater, bateu.


Artur da Távola
Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namoro de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, de saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.
Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas, namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda, decidida ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Quem não tem namorado, não é que não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter um namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa é quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugida ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas: de carinho escondido na hora em que passa o filme: de flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer cesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira d'agua, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos e musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não chateia com o fato de o seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo, e quem tem medo de ser afetivo. Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e de medo, ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras, e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada, e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo da janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria: Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. Enlou-cresça.


Update: corrigida a autoria, conforme comentário da Bellatrix.

4 comentários:

  1. Pular da torre dói, recomendo que usem escada12 de junho de 2009 18:57

    Indo eu.
    Lido e lindo você...

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  2. Oi Renato!
    Concordo com o que você escreveu, pois esse negócio de ter sempre "alguém" que queira nos apresentar outro "alguém" também acontece comigo. O que as pessoas não entendem é que se estou sozinha é por opção!

    Quanto ao texto, é lindíssimo! Sei que você o recebeu porém é mais um daqueles cuja autoria foi trocada.
    Na verdade ele pertence ao grande Artur da Távola e foi publicado no livro "Amor a sim mesmo".
    Neste link do Jornal da Poesia - Autoria Negada (http://www.jornaldepoesia.jor.br/autoria.html)
    está a comprovação da real autoria do texto.
    Beijos!

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  3. Oi, Bella.

    É verdade, lembro-me agora de tê-lo lido como sendo de Artur da Távola.

    Vou corrigir, grato.

    Beijos

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  4. Eu não lia há séculos o seu blog, entrei ontem e vi este post. Bem, o texto é lindíssimo. Mas entre ser belo e real a diferença é enorme...O verdadeiro crescimento talvez seja, afinal, aprender a ser feliz sem o namorado ou namorada, apenas gostando da nossa vida como ela é, e sentindo que estamos fazendo o que gostamos. Melhor ainda se o que gostamos de fazer coincidir com o que devemos fazer, com o que é certo fazer. Isto para mim é que significa crescimento e maturidade. Vc não concorda comigo?

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