terça-feira, 30 de junho de 2009

Regras, obediência e sensatez

O filme I… como Ícaro retrata, numa de suas passagens, a célebre experiência de Stanley Milgram sobre obediência e autoridade. A experiência mostra como a autoridade mitiga o poder de julgamento de pessoas em relação seus próprios atos, mesmo que eles prejudiquem outras pessoas.

E sempre que me deparo com aquelas pessoas que seguem as regras de forma inflexível, sem parar para analisar o sentido mesmo da própria, chego à conclusão de que Milgram foi genial na experiência.

A desculpa dos soldados nazistas de que cumpriam ordens é um grande exemplo dessa abdicação de sensatez. É a mostra da adesão pura a regras estabelecidas, sem a necessária ação de julgar.

O direito, com sua pretensa inflexibilidade e cegueira, ensina o quão necessário é pesar cada caso. O juiz decide de acordo com o convencimento que o processo lhe dá. A lei estabelece procedimentos que não se podem mudar, mas estipula outros em que o entendimento entre as partes é que impera. Em outros casos, o juiz pode decidir de acordo com o objetivo da lei, em vez das letras insensíveis. É o que deu base ao surgimento do direito alternativo. A avaliação do caso segundo a teleologia da norma, atendendo mais aos princípios gerais que aos ditames das palavras perpetualizadas.

Para seguir fielmente cada letra de normas e leis, não é necessário pessoas. Basta um programa de computador, ou um ser humano destituído de julgamento. Para obedecer ao sentido que estabelece a regra, aí sim, precisamos de pessoas preparadas. Preparadas e com sensibilidade e inteligência, e prontas para aplicá-las.

A norma é necessária, claro, Regras, normas, padrões. Mas elas não existem isoladas de outras condicionantes. As quais, devidamente pesadas e valoradas, devem ter o poder de moderar aquela, para mais ou para menos. Dessa forma, adequando-se de forma orgânica às situações e demandas, a norma/regra tem capacidade de ser justa e necessária ao mesmo tempo.

Mas só assim.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Os escândalos do Congresso em 2009

 

Do site da Uol:

Os escândalos que envolveram o Congresso Nacional no ano de 2009. No site acima há, ainda, a matéria do jornalista Fernando Rodrigues sobre o assunto.

Assunto, aliás, que deveria ser do maior interesse da população. O que, infelizmente, não acontece. Lembro, ainda com estupefação, do final do último BBB, em que muitas pessoas se programaram para estar em casa para assistir. E, no dia seguinte, claro, os comentário do dia eram dominados pelo resultado. O mesmo não acontece com nossos representantes na democracia. Não os acompanhamos, não exigimos. Não nos indignamos mais. Delegamos essas manifestações para os jornalistas. Que, ainda bem, cumprem muito bem seu papel.

 

Escândalos de 2009 do Congresso Nacional

  • 01.Verba indenizatória secreta na Câmara e no Senado
  • 02. Castelogate, o deputado Edmar Moreira e sua segurança privada
  • 03. Agaciel Maia, diretor-geral do Senado, e sua mansão
  • 04. Horas extras nas férias para funcionários da Câmara e do Senado
  • 05. Chico Alencar (PSOL-RJ) contrata correligionário
  • 06. Diretor do Senado usava apartamento funcional para família
  • 07. Sarney utiliza seguranças do Senado no Maranhão
  • 08. Nepotismo terceirizado
  • 09. Tião Viana empresta celular à filha em viagem ao México
  • 10. Diretores no Senado: eram 181
  • 11. Assessora de Roseana Sarney também era diretora
  • 12. Renan emprega sogra de assessor no Senado, filho na Câmara e contrata aliado com verba indenizatória em Alagoas
  • 13. Filha de FHC trabalha de casa para senador
  • 14. Diretora de comunicação do Senado em campanha
  • 15. Deputado Alberto Fraga (DEM-DF) contrata empregada doméstica
  • 16. Deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP) contrata empregada doméstica
  • 17. Deputado José Paulo Tófano (PV-SP) contrata empregada doméstica
  • 18. Tasso Jereissati (PSDB-CE) e os loucos por jatinhos
  • 19. Gráfica do Senado imprime material de campanha
  • 20. Funcionários do senador Adelmir Santana (DEM-DF) prestam serviço a vice-governador
  • 21. Ministro Hélio Costa (PMDB, Comunicações) usa serviço de secretária paga pelo seu suplente no Senado, Wellington Salgado (PMDB-MG)
  • 22. Terceirização irregular no Senado
  • 23. Deputado Fábio Faria (PMN-RN) pagou viagens para Carnatal, inclusive para Adriane Galisteu
  • 24. Ministros-deputados usam passagens da Câmara
  • 25. Deputados fazem viagens internacionais pagas pela Câmara
  • 26. Câmara e Senado perdoam todos os delitos da "farra aérea", fingem cortar gastos e ensaiam reduzir passagens para familiares
  • 27. Viúva do senador Jefferson Péres (PDT-AM) recebe sobra de passagens em dinheiro
  • 28. Ministros do Supremo Tribunal Federal entram na cota de passagens da Câmara
  • 29. Senador Gerson Camata (PMDB-ES) acusado de uso de caixa dois
  • 30. Delegado Protógenes Queiroz voou com passagens do PSOL
  • 31. Membros do Conselho de Ética usaram passagens e ajudam financiadores de suas campanhas
  • 32. Fernando Gabeira (PV-RJ) deu passagens para família ir ao exterior e contratou mulher com verba indenizatória
  • 33. Michel Temer (PMDB-SP), presidente da Câmara, também usou passagens para "familiares e terceiros"
  • 34. Ministro do TCU Augusto Nardes (ex-deputado) voa na cota do deputado Otávio Germano (PP-RS)
  • 35. Câmara pagou 42 passagens para ex-diretor do Senado João Carlos Zoghbi e família
  • 36.Senado paga motorista de ministro Hélio Costa (Comunicações) em BH
  • 37. Ciro Gomes (PSB-CE) reage à reportagem sobre passagens com xingamentos
  • 38. Gabinetes da Câmara negociam bilhetes de deputados com agências
  • 39. Senadores têm seguro saúde vitalício para a família
  • 40. Senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) usou assessor do Senado para compras particulares
  • 41. Ex-diretor de RH do Senado João Carlos Zoghbi usava empresas de fachada
  • 42. Deputado Eugênio Rabelo (PP-CE) usa cota aérea com time de futebol
  • 43. Deputados "clonam" prestação de contas
  • 44. Deputado Geraldo Resende (PMDB-MS) pagou com verba indenizatória advogado que atuou em sua defesa no TSE
  • 45. 117 ex-deputados tiveram passagens aéreas pagas pela Câmara
  • 46. Senador Magno Malta (PR-ES) passou quatro dias em Dubai com dinheiro do Senado
  • 47. Senadores Alvaro Dias (PSDB-PR), Geraldo Mesquita (PMDB-AC), Paulo Paim (PT-RS) e Osmar Dias (PDT-PR) usaram cota para voos ao exterior
  • 48. Senador Renan Calheiros (PMDB-AL) cedeu passagens a primo e a 2 assessores
  • 49. Senador Eduardo Suplicy (PT-SP) deu passagem para namorada ir ao exterior
  • 50. Senadores vivos 'ganham' ruas e avenidas em reduto eleitoral
  • 51. Funcionário preso do Senado recebeu salário por 5 anos
  • 52. Senado pagou 291 passagens para ex-senadores e até para dois senadores já mortos
  • 53. Câmara paga piloto de avião de ministro Geddel Vieira Lima (PMDB, Integração)
  • 54. Câmara paga 8 voos para investigado pela PF que é colaborador do empresário Fernando Sarney
  • 55. STF abre processo contra deputado acusado de atentado violento ao pudor
  • 56. Auxílio-moradia para comprar apto. E para quem não precisa: deputados Alexandre Silveira (PPS-MG) e Rita Camara (PMDB-ES) e senadores Gerson Camata (PMDB-ES), José Sarney (PMDB-AP), João Pedro (PT-AM), Cícero Lucena (PSDB-PB) e Gilberto Gollner (DEM-MT)
  • 57. Efraim Morais (DEM-PB): 52 funcionários fantasmas e carro oficial para uso particular
  • 58. Servidor do PMDB no Senado que ganha R$ 15 mil mensais dá expediente em loja de móveis
  • 59. Funcionário envolvido em operação da PF é indicado para comissão no Senado
  • 60. José Sarney tem amigos, aliados e parentes contratados pelo Senado
  • 61. Senado usa mais de 600 atos secretos para criar cargos
  • 62. Senado indeniza empresa suspeita de irregularidade com R$700 mil
  • 63. Deputados ignoram regras da Câmara para pagar alimentação
  • 64. 350 funcionários do Senado têm salário maior que o de ministros do STF
  • 65. Valdir Raupp (PMDB-RO) aprova concessão de rádio que tem como sócio seu assessor
  • 66. Neto de Sarney opera no Senado crédito consignado, que é alvo da PF
  • 67. Fernando Collor (PTB-AL) usa verba indenizatória para vigiar Casa da Dinda e comprar quentinhas
  • 68. Nova diretora de RH do Senado entrou no emprego em trem da alegria
  • domingo, 28 de junho de 2009

    Sinergia e desinteligência

    Não é raro vermos alguém com comportamentos altamente disfuncionais, que claramente levarão a um total comprometimento de resultados, seja em curto, seja em longo prazos.

    São pessoas que, em avaliação crua da situação, concluem pela desinteligência, em vez da sinergia. Ou seja, adotam a política do ”farinha pouca, meu pirão primeiro”. Algumas vezes, essas pessoas se dão bem. No mais das vezes, viram adubo.

    A natureza, em sua perfeição, dota os seres de características de simbiose, onde a coexistência não só é indicada, mas é uma condição de sucesso. A simbiose permite que dois seres compartilhem suas vantagens, um minorando as desvantagens do outro.

    Neste nosso mundo competitivo e predatório, a simbiose é a exceção da exceção. É aquela condição somente possível a pessoas altamente disciplinadas, no sentido da compreensão dos processos da vida. Pois é preciso enxergar muito adiante, para se entregar à simbiose. Mais: é preciso confiança e desapego, características quase que excludentes nos ambientes em que estamos inseridos.

    Pois bem, a sinergia desejada e esperado em nossas interações, que é a simbiose raciocinada e racionalizada, afasta-se cada vez mais, na medida em que cada um de nós age e pensa como indivíduo como única alternativa de vida. Quando enxergamos no outro, seja no campo pessoal como no profissional, um concorrente às nossas próprias aspirações, quer realmente ele seja, quer não, nossa única alternativa é a concorrência alienada. E, nesse caminho, vamos causando resultados de vendavais: destruímos relacionamentos, futuros, pessoas, possibilidades. Deixamos de somar, e dividimos.

    Dividir para conquistar? Não neste caso.

    terça-feira, 23 de junho de 2009

    Senado, parte 663

    Mesa Diretora do Senado anula apenas 1 dos 663 atos secretos

     

    É muito escárnio…

     

    O Senado e a síndrome da China

      Fui assaltado recentemente. Por alguém desconhecido, que nunca vira antes e que nunca (espero) tornarei a ver. Assaltos fortuitos nos deixam com a sensação de que o acaso nos escolheu. Um azar, ter sido escolhido por aquele bandido. Mas e quando o assalto acontece cometido por alguém que escolhemos? Só mesmo na esfera pública.

    Os assaltos a que estamos sendo submetidos são de pessoas que deveriam nos representar, nos proteger, zelar por nós. Em vez, cuidam dos próprios interesses. Compromisso só mesmo com as próprias famílias. E nem podem,os dizer que chagamos ao fundo do poço, pois estamos errando sistematicamente quando dizemos isso: sempre somos arrastados mais e mais profundamente. É a edição nacional da Síndrome da China, em que o poço não acaba nunca…

    Os senadores acusados se defendem com um cinismo revoltante. Um deles chegou a admitir que tinha pedido o “favor”. Com dez parentes já enumerados como beneficiários dos atos secretos, dizer que não sabia é, no mínimo, moluscal. O presidente faz escola…

    Elio Gaspari, na sua coluna deste domingo, alertou para o ensurdecedor silêncio da ala ética. Onde estão aqueles que sempre tomam a palavra contra os desmandos dos colegas? Silêncio!

    Não precisamos desse senado. Talvez precisemos, sim de um senado. Mas esse, com os escândalos e desmandos todos, está caro demais para benefícios de menos. O Senado deveria ser o contraponto à câmara dos deputados, sua regulação. Em vez disso, é a extensão. É a perpetuação no poder daquela mesmo grupo de sempre, e que tenta, sempre e sempre, se perpetuar mais, se é que é possível o conceito.

    O Brasil precisa, por sua população estabelecer as regras de funcionamento da casa. E, junto disso, estabelecer que os assuntos de seu direto interesse não sejam por eles nem mesmo avaliados, como questões salariais. Ou dias de trabalho. Ou ressarcimento de despesas de viagem. Ou pagamento de empregados particulares. Ou…

    sexta-feira, 12 de junho de 2009

    Dia dos namorados

    Recebi o texto abaixo sabe-se lá de quem, neste dia em que os casais se esfalfam em busca de vagas nos restaurantes e celebram rosas que logo secarão nos vasos. E o texto hoje será um hit na internet, já que pulula de site em site, prolífero.
    De minha parte, reafirmo o que sempre digo: não estou à procura. Se aparecer, bem. Mas não será por necessidade ou carência que iniciarei um relacionamento. O que parece incomodar muita gente de meu círculo pessoal, já que sempre tem alguém querendo me apresentar “uma pessoa”. mas é o tipo de encrenca que achamos sozinhos, sem precisar de ajuda.
    Encrenca?
    Na maioria das vezes, sim. Claro, é uma forma de não sair da zona de conforto. Mas também uma forma de fugir daqueles relacionamentos danosos, que causam somente prejuízos.
    Enfim, quando bater, bateu.


    Artur da Távola
    Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namoro de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, de saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.
    Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas, namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda, decidida ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Quem não tem namorado, não é que não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter um namorado.
    Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa é quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugida ou impossível de durar.
    Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas: de carinho escondido na hora em que passa o filme: de flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
    Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer cesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira d'agua, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos e musical da Metro.
    Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não chateia com o fato de o seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo, e quem tem medo de ser afetivo. Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e de medo, ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras, e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada, e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo da janela.
    Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria: Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. Enlou-cresça.


    Update: corrigida a autoria, conforme comentário da Bellatrix.

    terça-feira, 9 de junho de 2009

    Quem é bom de martelo

    Quem é bom de martelo tende a tratar tudo como prego.

    Stanley Milgram

    Um dos textos mais acessados deste blog é o que trata de líderes e gerentes. E, normalmente, o acesso se dá por um site de buscas, mostrando que as pessoas se interessam muito pelo assunto.

    Mas, sinto dizer, esse interesse é sintoma de um processo mal-sucedido nas empresas. Fora as pesquisas de universitários, normalmente as pesquisas são feitas por pessoas que buscam na gerência ações de lideranças, mas encontram somente atos de chefe.

    Pouco há de preparação para liderança. Embora seja característica inata, pode ser trabalhada, mas quase nunca o é. E, nas relações profissionais e pessoais, isto é um problema.

    Dizem que os filhos de pais alcoólatras têm chances muito grande de virem a se tornar também eles alcoólatras. E que filhos de pais violentos têm uma tendência a se tornarem violentos com seus próprios filhos. Acredito que isto seja resultado da abrangência do repertório: a fuga do alcoólatra mostra um caminho que os filhos podem seguir em casos em frustrações. Fosse um outro exemplo, um bom exemplo, este comporia o repertório de ações em casos de frustração, e seria alternativa à fuga alcoólica.

    No caso da violência, o raciocínio é idêntico. O pai (ou mãe) violento mostra aos filhos como conseguir o que quer, através de gritos, ameaças e mesmo agressões. Roubam de tal forma a capacidade de resistência de suas vítimas, que “ensinam” um método poderoso de atingir seus objetivos. E os filhos, na falta de bons exemplos, acabam incorporando a violência como repertório.

    Nas organizações, em que a competição é acirrada, e as cobranças beiram o assédio moral, há pouco espaço para liderança. Aliás, a cobrança é por chefia mesmo. Ações mais impositivas, cobranças mais exacerbadas, mais pressão. É o lugar em que estão gerentes das empresas que, agindo conforme essa bula, deixam a liderança como sonho inalcançável.

    A liderança exige tempo. Ao menos de consolidação. Se a consolidação existe, o líder comanda nas crises com espaço emocional de sobra. Suas ações, em vez de serem impositivas (mas são), são interpretadas como a coisa certa a ser feita. Ou, em casos de alta confiança. oferecem a certeza de que contestações são bem vindas.

    O gerente (aqui desprovido da característica liderança, mas somente investido num cargo) não tem tal consolidação. O gerente precisa do resultado (como o líder), mas lança mão de expedientes não necessariamente validados pelos subordinados. As mesmas cobranças, ameaças, humilhações. Desqualifica os membros de suas equipes, como se isto os ajudasse a atingir seus objetivos. Não ajuda. É reflexo, somente, de uma característica pessoal daquele gerente: como ele reage perante crises. E, se o gerente precisa gritar, gritará. Se precisar chantagear emocionalmente, chantageará. Agira de acordo com o repertório que amealhou durante sua vida. Agirá de acordo com comportamentos que viu darem resultados. E, infelizmente, normalmente são comportamentos disfuncionais.

    Na frase de Milgram, quem é bom de martelo trata tudo como prego. O espaço para aprender é pequeno, e as relações interpessoais e profissionais é que refletem essa falta de preparado.

    terça-feira, 2 de junho de 2009

    Back to past

    Num périplo, quatro cidades que tiveram importância fundamental em minha vida. E na ordem…

    Salvador: cidade em que descobri amigos para sempre, numa viagem inesquecível da juventude. Éramos quatro amigos, descobrindo Salvador e a nós mesmos. De Salvador, ficaram as boas lembranças, para sempre. Dos amigos locais, aquela amizade que dá saudade no verão… Bastava falarmos, para que os soteropolitanos nos tratassem como amigos de infância. O sotaque paulista nos granjeou boas d duradouras amizades, daquelas que fazem falta. Mas que me dizem dizer baiano, ao menos por opção.

    Recife: dos amigos de sempre, aquela cidade onde trocávamos, mesmo na juventude em ´plena força, a agitação dos barzinhos pela aventura de “caçar” agulhões e agulhinhas. Facho na cabeça, puçá nas mãos, sábado era o dia em que íamos para a praia do Janga para, durante boa parte da noite, pescar os peixes que mais parecem enguias. E, depois, cervejas várias, agulhões/agulhinhas na brasa, passar aquela noite de papos entre amigos, risadas muitas e seriedade nenhuma. Para amanhecer nos barzinhos de Olinda, como que para justificar a noite “doméstica”.

    Aracaju: onde o hotel, numa coincidência, ficava bem atrás dos barzinhos que costumávamos frequentar, região deserta naquela época. Como não lembrar daquelas noites com o pessoal do Rio, nós e outros, de noites não dormidas, emendadas com a Praia dos Artistas, hoje levada pelas águas bravas do mar. E o centro, com seu mercado onde comprávamos as cestas de ostras, que fazíamos na grelha, com limão e vinagrete, em programa restrito e somente para iniciados.

    E, finalmente, Brasília, a cidade que me fez tecnocrata, onde fiz amigos de toda vida, e para onde sempre quero fugir, como Pasárgada. A cidade que me mostrou o poder, corrompendo e corrompido, e me fez assistir às mais podes conversões da vida: a da conveniência. E que, por tudo isto, definiu minha vida, na luta desde então, para justificar minha deserção do jogo em que estava profundamente enfronhado.

    Enfim, foi como Fernando Sabino voltando a Londres, e com medo de encontrar, a cada esquina, o jovem que ali fora, com medo que ambos fugissem um do outro.

    Uma volta ao passado, para me mostrar como é forte o presente.