sábado, 2 de maio de 2009

Coisificando nossos problemas

Diz-se que o primeiro passo para resolver o problema é reconhecer a existência dele. Eu diria mais: além de reconhecer o problema, devemos reconhecer que fazemos parte dele, no todo ou de forma parcial. Quando o problema é pessoal (embora envolvendo outras pessoas), normalmente fazemos parte dele na totalidade. Aqui, portanto, uma dependência total do “eu”.

Mas quando os problemas são “difusos”, ou seja, atinge muita gente, mas suas origens não se concentram numa só pessoa, mas em várias, a assunção da responsabilidade inerente a cada um é mais difícil. Olhamos o problema como uma entidade distante, da qual não fazemos parte nas origens, mas somente nas consequências.

E dizemos que a culpa é do governo, da diretoria, da gerência, da sociedade, da igreja. E, sendo essa culpa dessas entidades, nada fazemos para resolver esse problema.

A pergunta é: o que é cada uma dessas entidades?

Muitas vezes acusamos algo, despersonificando o processo. Se o governo é culpado, quem é o governo? Quem é a Igreja? Quem é a sociedade?

Muitas vezes, é somente mais cômodo, mas não verdadeiro, atribuir as culpas dessa forma. Quando atribuímos a culpa à sociedade, esquecemos que fazemos parte dela. E que seus componentes são, invariavelmente, pessoas. E que, se a sociedade é uma extrapolação que não tem iniciativa, é porque esta depende de cada um de nós, individualmente. E que, se não tomarmos nós a iniciativa, a sociedade nunca a tomará. Pois ela não tem essa capacidade.

Mas transformar a origem dos problemas em culpa de coisas (governo, Igreja, sociedade) acontece a coisificação ou reificação, que, segundo o Houaiss, é

qualquer processo em que uma realidade social ou subjetiva de natureza dinâmica e criativa passa a apresentar determinadas características - fixidez, automatismo, passividade - de um objeto inorgânico, perdendo sua autonomia e autoconsciência.

Não há resultado prático na coisificação, a não ser um lavar-as-mãos, um cruzar-os-braços de cada indivíduo até que a coisa resolva o problema. A coisa não resolve o problema. Nós resolvemos problemas. E se, para isto, tivermos de contar com ajuda externa, sempre vale a lição de Stephen Covey: precisamos aumentar nosso círculo de influência.

Escolhemos os governantes, os legisladores, participamos das ações da Igreja, somos diretores, ou gerentes, ou funcionários das empresas que coisificamos. Sempre teremos, enquanto tivermos a capacidade da comunicação (falar, expressar, convencer, argumentar, reconhecer argumentos válidos), real condição de influenciar pessoas na direção da mudança. E, quando queremos e agimos, a mudança é plausível, e deixa de se centrar nas coisas, para se centrar nas pessoas e naquilo que cada um pode (e quer) fazer para que e mudança aconteça.

Quando finalmente assumirmos nossas responsabilidades pelos problemas que coisificamos, terá sido dado um passo importante na direção certa da sua resolução. Simples assim.

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