sexta-feira, 22 de maio de 2009

Pena de morte?

  Quando acontece um caso como a da menina que levou um tiro na cabeça, no interior de São Paulo, somos (ao menos eu) levados a rever alguns conceitos.

O alarme disparou, a babá não quis ou não pode desligar o alarme, o bandido deu um tiro na cabeça da menina. O motivo é suficiente? Há motivo suficiente? Por que uma pessoa atira em outra, claramente indefesa, que não representa perigo algum paraa si?

O Estado tem o dever/obrigação de punir. É  satisfação ao nosso desejo de vingar. O Estado não se vinga, mas tem o privilégio de punir. Quando ele é rápido, e prisões e punições acontecem, esse nosso desejo de vingança fica só latente, sem motivos para vir à tona. Mas quando ele demora, ou não acontece, o desejo se apresenta.

Como punir alguém que realiza um ato tão brutal, desnecessário e covarde? Uma pessoas dessas tem chance de recuperação?

São duas as vertentes de discussão necessárias.

O suspeito é menor, protegido pela legislação brasileira que analise a condição exclusivamente cronológica para avaliar se o acusado tinha condições de compreender os resultados de seu ato. Os criminosos que saem com pessoas menores de idade, por causa disso, pedem a eles que façam (ou assumam) responsabilidades pelos atos criminosos. Os menores  são enviados, então, às faculdades do crime, de onde são aperfeiçoados nas suas técnicas, embrutecidos nos seus sentimentos e mais indiferentes aos valores sociais. Nos Estados Unidos, há casos de julgamento de menores como se adultos fossem, se ficar comprovada sua capacidade de entendimento das conseqüências de seus atos, e da própria consciência de ser o ato criminoso.

No meu modo de entender, a criança não se droga, não vive de roubos e furtos, não viva na criminalidade. Quando parte para essa vida pois acontece, parte para satisfazer suas necessidades, boas ou não, mas tomam uma decisão, e imediatamente deixam de ser crianças. Pois há que se acreditar que a criança mata e rouba em inocência infantil?

Também a pena de morte volta à baila. O Estado não está respondendo à altura às necessidades de segurança do cidadão. Quando age, está limitada pelas chicanas jurídicas e pela grande morosidade da justiça brasileira. Ambas características decorrem de falhas estruturais: a lei, que deveria ser direcionada para a ordem da sociedade e para a garantia da plena defesa, está se bastando. Ninguém mais avalia a correção de sua letra, preferindo concluir que “é a lei”. Já a justiça, aqui sinônimo de poder judiciário (por mais contraditórios que esses conceitos possam parecer na realidade das ruas), tem parte de suas mazelas decorrentes da lei (os processos). Outra parcela de suas dificuldades está na estruturação que se propõe. Ou é de acreditar que os processos demoram todos esses tempo todo para julgamento? Se demoraram, precisamos de mais juízes? Se precisamos, por que não há mais concursos para magistrados?

A pena de morte só volta à baila por conta desses fatores. A criança que mata, passa por um MBA do crime, e volta às ruas, para matar e roubar. E a punição, que depende de matéria julgada, que demora como uma geração. É nossa ilusão de que a existência por si só tem o condão de combater o crime. Não combate, como nos mostra o exemplo americano. E nossa ilusão de que, com a pena de morte, a punição/vingança seria mais rápida. Não será, porque dependemos do mesmo aparato judiciário de que dispomos, seria a mesma demora até a medida se consolidar.

Resta ao cidadão somente a esperança de que as autoridades ajam mais rapidamente e melhor. Ou que os facínoras utilizem suas consciências, como se tivessem alguma. Ou…

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Ação positiva - Obama e os automóveis

A surpreendente ação de Obama com relação aos automóveis americanos é altamente positiva. Para um país que se recusou a assinar o protocolo de Kyoto, para defender seus interesses comerciais, não é pouca coisa uma guinada dessas, que atingirá o bolso dos americanos em cheio. Mas, mais importante, será uma contribuição siginificativa para o meio ambiente.

Obama se comporta como quem quer cumprir as promessas. Apesar de suas idas e vindas com relação às bases militares e as torturas praticadas ali, não se faz de roggado em relação a ítens polêmicos, e sua maior virtude é agir, em vez da habitual procrastinação. Como se ele não tivesse um segundfo mandato por tentar.

Mas o assunto “automóvel” não se encerra por aí. A poluição é somente uma das facetas do problema. Embora seja um dos maiores causadors de mortes, a velocidade dos automóveis não é enfrentada senão de modo reativo. E ainda há as propagandas de automóveis baseadas na velocidade final ou no poder de aceleração. Ou seja, a propaganda se baseia num item mortal e sem controle, e nenhum país enfrenta isto de forma objetiva.

O cinto de segurança é obrigatório. A adoção do caráter de obrigatoriedade se deveu à constatação de que o cidadão não o utilizava, nem mesmo em proteção á própria vida. Se assim foi com o cinto, por que seria diferente da velocidade?

A medida mais desejável seria a limitação forçada da velocidade, através de equipamentos de segurança. Sensores limitariam a velocidade ao máximo permitido nas estradas, que é 120km/hora nas melhores estradas. É uma solução paliativa, pois esse máximo deveria ser determinado em função do local e da densidade do tráfego. mas já seria um enorme avanço.

Os bêbados, como é o caso daquele político paranaense que matou os jovens, teriam um menor poder de estrago; os irresponsáveis sem causa também. E, acredito, saíriamos todos ganhando.

Mas mexer com a indústria automobilística, essa grande financiadora de campanhas não está nos planos de qualquer político de carreira. Nem mexer com símbolos de status, já que eles mesmos, os políticos, são grandes consumidores desses apelos perigosos da propaganda.

Do site Por Vias Seguras vem a análise abaixo:

Excesso de velocidade A velocidade incide sobre a freqüência e a gravidade dos acidentes. É fato comprovado que qualquer aumento da velocidade autorizada aumenta estes dois parâmetros. Por exemplo, no caso dos atropelamentos, os maiores causadores de vitimas fatais, a velocidade tem um papel determinante. Dela dependem os tempos de reação do motorista e do pedestre e, obviamente, a violência do choque. Se o tempo de reação do motorista for insuficiente para parar o carro e o tempo de reação do pedestre for insuficiente para chegar ao outro lado da rodovia, o acidente é quase inevitável. Qualquer travessia de zona urbana ou em curso de urbanização exige uma redução drástica da velocidade, salvo se houverem passarelas permitindo a travessia.

Nada me parece, nesse campo, mais necessário que a limitação da velocidade através de equipamentos instalados nos automóveis. Apesar disso, nada há de iniciativa nesse campo, ao menos com possibilidades de aplicação. Por esses motivos é que o ser humano, além de todo seu descado pela saúde, virou um predador da própria raça, quando não responsável pela própria morte. Aliás, se assim fosse, e o motorista morresse sozinho, seria somente isso: o exercício da liberdade de ser idiota. Como o motorista mata muitos inocentes, é o exercício do abuso de ser livre.

Basta!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

No fio do bigode

tinha um professor que dizia que o contrato assinado entre as partes, quando muito elaborado, era sinal de que uma das partes não queria segui-lo. tantas salvaguardas, tantos cuidados, só podem mesmo denotar ou problemas anteriores que se quer evitar, ou um airbag jurídico para imprevistos.

Mas antigamente não era assim. A palavra valia. E, se disse, valia o que se disse. não tinha muito essa coisa de tergiversar, de desmentir o próprio compromisso. Era mais na moral, menos no legal.

hoje, o que se vê, devidamente ilustrado pelos políticos, que dizem, sob gravação, alguns impropérios, para dizer, depois, mesmo perante a gravação, que houve um mal entendido. E essa dinâmica de falei-mas-fui-mal-entendido acabou virando regra. Todos fazem, e,se todos fazem, náo se pode reprovar, já dizia nosso presidente metamorfose-ambulante.

Onde foi que nossos valores se descolaram do moralmente defensável para o juridicamente comprovável? Quando foi que a palavra, dita e assentida, se transformou em peça de museu? Onde foi que o homem perdeu seu senso de honestidade?

Será que a evolução das coisas implica em que não haja mais lugar para a moral, somente para o legal e comprovado? Será que moral é um componente dos neaderthais, e que deve mesmo ser esquecido? Será que os polícos, como não cansam de aprogoar os abtropólogos e sociólogos, são exatamente a amostragem do povo?

Triste destino, o do ser humano. Não perdeu sua bestialidade, mas direcionou-a para armas: automóveis, facas, poder. Não ganhou o controle de si mesmo, como comprovam casos como o da Isabela; não cresce componente social, mas sim como indivíduo que precisa sobreviver a qualquer preço. E ainda deixa de ser comprometer com suas próprias palavras!

Para o^ônibus que eu quero descer…

sábado, 16 de maio de 2009

A necessária diferença

Muitas vezes vejo pessoas interrompendo relacionamentos por causa das diferenças.

- Somos muito diferentes

A questão é: é um problema ser diferente?

A resposta depende de cada um, claro. Mas muito mais da decisão tomada a priori, e às vezes inconsciente, de não lidar com temas “cansativos”, por assim dizer.

Lidar com diferentes exige postura empática. É preciso ouvir, analisar, argumentar. E é preciso que se aceite que pessoas, por diferentes, têm visões que podem não mudar. É a idiossincrasia de cada um. Mas ouvir, argumentar, aceitar, são tarefas emocionalmente cansativas. Principalmente aceitar. Não é traço cultural a (boa) convivência com opiniões alheias. Ao contrário, nosso dia-a-dia apresenta exemplo fortes de que a resistência ao diferente é muito grande, seja essa diferença em relação aos times de futebol, orientação política ou sexual, seja lá qual for o assunto.

Quando a pessoa se relaciona com iguais, somente, padroniza os entendimentos, as interpretações, as ações. Prende-se, de certa forma, a uma caverna platônica, sendo o divergente aquele que saiu dela e voltou.

Mas o diferente, quando a relação é bem contratada psicologicamente, é uma fonte riquíssima de aprendizado. Reconhecer a diferença e conhecer seus argumentos, seus valores, seus porquês, pode nos ensinar mais de nós mesmos e das outras pessoas. A empatia aumenta, a aceitação é mais fácil, a convivência é melhor.

O diferente não é ameaça. É oportunidade. Depende do lado do copo que escolhemos olhar. A diferença soma, se quisermos. A diferença permite complementação. Permite, conjunta, maior compreensão do todo, melhor ação.

Portanto, viva a diferença!

terça-feira, 12 de maio de 2009

O homem é reflexo do meio. Ou o meio…

O cidadão vota, no Brasil, porque é obrigatório. É de se concluir que ele vota de boa vontade?

Se não fosse obrigatório votar, quantos realmente iriam às urnas? Ficaria muito mais patente que, na verdade, ninguém se interesse pelo processo eleitoral. Quer mais é votar para se ver livre da obrigação, para poder fazer seu churrasco, para poder ir logo para a praia.

O eleito? Ora, isso é outra história.

O cidadão, pela falta de compromisso com o voto, não se sente incomodado pelos escândalos dos “eleitos”. não é culpa dele, mesmo. Quem elegeu Mateus que vá embalá-lo.

A falta de reação popular aos escândalos dos cortesãos é, no mínimo, sintoma de que nossa democracia é mesmo para inglês ver. E que, se nem nas reuniões de condomínio a presença é garantida, o condomínio Brasil, então, nem mereceria nota, se não fosse pela obrigatoriedade.

A opinião pública não é senão a publicada. Esta, sim, orientando aquela, na massa possível. Porque parte dessa massa está totalmente insensível às brisas do mundo.

Pesquisa recente indicou que a grande maioria dos brasileiros faria a mesma coisa que estão fazendo deputados, senadores e outros políticos. Sendo assim, razão não há para indignação. Senão pelo fato de que a boquinha é somente para alguns.

Não é de surpreender. Se “farinha pouca, meu pirão primeiro” é a versão atual da lei de Gérson, o brasileiro está mesmo muito bem representado.

Pelé não estava certo. Não é que brasileiro não saiba votar. O brasileiro não quer votar.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O golpe contra a democracia

Está em andamento no Congresso a discussão da reforma política. Tratará, basicamente, de financeiro público de campanhas políticas e votos em listas. Quanto ao primeiro item, acho que cabe discussão. Quanto ao segundo, trata-se de uma imoralidade.

O financiamento de campanhas pelo erário pode ser mais amplamente discutido, pois trata-se de medida moralizadora, ao menos conceitualmente. Embora países que a tenham adotado tenham voltado atrás, para sistema misto, a discussão é válida.

O voto em lista, ao contrário, não é moralizadora. É desmoralizadora. Os políticos, engolfados por ondas de denúncias, amplamente comprovadas, querem evitar a renovação dos quadros. As listas funcionariam assim: o eleitor vota no partido, que de acordo com lista montada por si, com os políticos que ele escolher e na ordem idem, e não mais na pessoa.

É um golpe.

Cada vez que se sentem ameaçados por aqueles que lhes delegam poderes para representá-los, os políticos procuram baixar uma lei ou uma emenda constitucional para mudar as regras do jogo. E, com isso, afastam-se cada vez mais daqueles que confiaram neles. Não que isso os preocupe, os políticos. Mas o medo de perder os privilégios é enorme, daí sua reação.

Eu tenho uma proposta de emenda constitucional: que as mudanças nas regras que envolvam mandatos, benefícios, forma de trabalhar e salários de nossos representantes (sejam de que poder forem) passem, sempre, por plebiscito. E que nenhuma exceção seja admitida. Reforma política? Plebiscito. Aumento de salários? Plebiscito. Dias de votação? Plebiscito.Benefícios novos? Plebiscito. Regras dos mandatos? Plebiscito. Ah, e que seja esta uma cláusula pétrea.

A democracia não é perfeita, a brasileira menos ainda. Precisamos cuidar para que não tenhamos uma democracia para os políticos, e totalitarismo destes para com o povo.

sábado, 2 de maio de 2009

Coisificando nossos problemas

Diz-se que o primeiro passo para resolver o problema é reconhecer a existência dele. Eu diria mais: além de reconhecer o problema, devemos reconhecer que fazemos parte dele, no todo ou de forma parcial. Quando o problema é pessoal (embora envolvendo outras pessoas), normalmente fazemos parte dele na totalidade. Aqui, portanto, uma dependência total do “eu”.

Mas quando os problemas são “difusos”, ou seja, atinge muita gente, mas suas origens não se concentram numa só pessoa, mas em várias, a assunção da responsabilidade inerente a cada um é mais difícil. Olhamos o problema como uma entidade distante, da qual não fazemos parte nas origens, mas somente nas consequências.

E dizemos que a culpa é do governo, da diretoria, da gerência, da sociedade, da igreja. E, sendo essa culpa dessas entidades, nada fazemos para resolver esse problema.

A pergunta é: o que é cada uma dessas entidades?

Muitas vezes acusamos algo, despersonificando o processo. Se o governo é culpado, quem é o governo? Quem é a Igreja? Quem é a sociedade?

Muitas vezes, é somente mais cômodo, mas não verdadeiro, atribuir as culpas dessa forma. Quando atribuímos a culpa à sociedade, esquecemos que fazemos parte dela. E que seus componentes são, invariavelmente, pessoas. E que, se a sociedade é uma extrapolação que não tem iniciativa, é porque esta depende de cada um de nós, individualmente. E que, se não tomarmos nós a iniciativa, a sociedade nunca a tomará. Pois ela não tem essa capacidade.

Mas transformar a origem dos problemas em culpa de coisas (governo, Igreja, sociedade) acontece a coisificação ou reificação, que, segundo o Houaiss, é

qualquer processo em que uma realidade social ou subjetiva de natureza dinâmica e criativa passa a apresentar determinadas características - fixidez, automatismo, passividade - de um objeto inorgânico, perdendo sua autonomia e autoconsciência.

Não há resultado prático na coisificação, a não ser um lavar-as-mãos, um cruzar-os-braços de cada indivíduo até que a coisa resolva o problema. A coisa não resolve o problema. Nós resolvemos problemas. E se, para isto, tivermos de contar com ajuda externa, sempre vale a lição de Stephen Covey: precisamos aumentar nosso círculo de influência.

Escolhemos os governantes, os legisladores, participamos das ações da Igreja, somos diretores, ou gerentes, ou funcionários das empresas que coisificamos. Sempre teremos, enquanto tivermos a capacidade da comunicação (falar, expressar, convencer, argumentar, reconhecer argumentos válidos), real condição de influenciar pessoas na direção da mudança. E, quando queremos e agimos, a mudança é plausível, e deixa de se centrar nas coisas, para se centrar nas pessoas e naquilo que cada um pode (e quer) fazer para que e mudança aconteça.

Quando finalmente assumirmos nossas responsabilidades pelos problemas que coisificamos, terá sido dado um passo importante na direção certa da sua resolução. Simples assim.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Liderança não é para qualquer um

Quando Rudy Giuliani assumiu a prefeitura de Nova Iorque, assumiu também uma postura dura contra o crime, qualquer que fosse seu tamanho: o da tolerância zero. Centrada nos crimes e delitos menores, a filosofia tinha como objetivo inculcar a mentalidade de “fazer a coisa certa”, que, mesmo a partir de crimes pequenos, se estenderia aos crimes de maior poder ofensivo, em médio e longo prazos. Resultado: os homicídios chegaram a ter redução de 65% naquela cidade, o que tornou seu programa exemplar no mundo.

Quando Luís Inácio Lula da Silva critica os que criticam a farra das passagens, vai na contramão dos interesses públicos. Permite concluir que os delitos menores e os atos amorais e imorais devem ser perdoados porque há mais com que se preocupar.

Sim, há, senhor presidente. Mas quem está preocupado e agindo? Não o governo.

Que vem a público defender os aloprados, que protege quem viola o sigilo bancário de caseiros, quem pratica caixa dois, não é um líder de fato, mas um político preso às normas da corte.

A liderança não é gratuita, mas parece que no caso de nosso presidente ela se dá somente pelo fato de ser um ex-pobre, que deixa o legado das bolsas: bolsa-família, bolsa-dá-dois-pau-prá-eu, bolsa-land-rover, bolsa-presidência-do-senado.

Quem tem os níveis de popularidade que tem Lula tem poder para muito, mas é preciso querer. Lula poderia realmente mudar a cara do Brasil, utilizando sua enorme popularidade e seu cacife perante as casas dos poderes para estabelecer medidas moralmente defensáveis. Sua atitude estupra-mas-não-mata desmente aquele político que, em plena luta para mudar o Brasil , declarou em alto e bom som que no congresso havia 300 picaretas.

O poder das picaretas, parece, é enorme. Já não são picaretas, mas pobres mortais que têm o direito de levar suas esposas para passear em Brasília (e outras cidades pelo Brasil e mundo afora), coitadinhos, tão necessitados. E aqueles que não conseguem, por falta de dinheiro, acompanhar o enterro de pessoas queridas, ou mesmo o prazer da companhia de familiares, deviam pensar duas vezes e concorrer a um cargo na corte. E o bolsa-milhagem, chamada de Programa de Pilhagem pelo José Simão, estender-se-ia para outros pobres necessitados.

Mas, ora, nesta terra de Macunaíma, onde todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros, é mais fácil entender o cidadão-metamorfose-ambulante. Mudam somente as moscas…

Pela culatra: as batalhas que escolhemos

Enquanto nossos representantes políticos se debatem contra a reação negativa às suas farras com passagens aéreas (denunciadas pela imprensa, o único “poder” vigilante), juízes proíbem uma tal de “Marcha da Maconha” em algumas cidades brasileiras.

Marcha da Maconha”, é isso mesmo, não há erro nem brincadeira. Pessoas estão se mobilizando em quantidade suficiente para mobilizar uma marcha perla descriminalização da maconha, mas não se mobilizam contra os desmandos da democracia.

Se bem que, bem analisada a situação, acho que uma droga ilícita é mesmo motivo de mobilização maior que o futuro do país. Com predomínio das novelas na televisão, e de programas de pegadinhas, ninguém se revoltou quando, no final de semana, já com amplas manchetes pelo mundo e por Pindorama sobre a Influenza Porcina, nenhum representante de nenhum órgão do governo se mobilizou para sequer adotar uma ação educativa em relação aos que do México aqui desembarcavam. Fato destacado por passageiros entrevistados pela Band News, e que gerou a merecida bronca do Ricardo Boechat.

É uma ameaça real e presente, mas ninguém se revoltou com o fato. Até que aconteça o pior, o que, sinceramente, esperamos que não ocorra. mas claro, ninguém poderia mesmo se revoltar, pois às quintas todos já se vão para suas casas, de Brasília aos estados de origem, pois ser da corte é cansativo. Assim, ninguém se rebela contra a semana reduzida de nossos representantes, que somente dão expediente das terças às quintas.

Ninguém se revolta com a fila nos hospitais, ninguém se revolta que não haja mesmo hospitais em número suficiente. Ninguém se mobiliza para exigir qualidade de ensino, mesmo depois de apresentados os resultados do ENEM. Ninguém faz o mínimo movimento para exigir o transporte público de qualidade, ou mesmo a simples obediência às regras de trânsito, seja pelos motoristas, seja pelos governos, para quem o Código de Trânsito representa somente aumento de arrecadação via multas.

Mas a maconha sensibiliza em quantidade suficiente para haver pedidos ao judiciário, para reverter proibições das manifestações. Sim, como os BBBs da Globo, a droga é mobiliza a sociedade. Desta vez, uma droga real, física, não uma droga de idéia, de programação.

Não, não sou contra a manifestação. Sou contra a falta de prioridades que nos carrega, qual onda, aos (des)interesses de uma sociedade ainda por se firmar. Acho que precisamos de mais Quixotes, de mais loucos lutando contra os inabaláveis moinhos de vento.

A sociedade não existe, existe somente um agrupamento de pessoas. O homem vive solitário na multidão. Mas, da forma mais piegas possível, acredito em nossa possibilidade. Venceremos. Mas precisamos querer vencer.