domingo, 1 de fevereiro de 2009

A referência a Veríssimo (e Nava)

Fiz referência à paráfrase que fiz de Veríssimo. É baseada no texto abaixo, e me lembro muito bem dele pois eu lia Veríssimo para me divertir, e de repente me deparo com um desabafo sobre o suicídio de Pedro Nava, então com 80 anos.

O suicídio, por si só, já é um choque. O suicídio de alguém com 80 anos, então, é uma daquelas surpresas desagradáveis que nos levam a radicalizar a questão filosófica do sentido da vida.

Mas não só o suicídio literal. Há os suicídios metafóricos a que nos submetemos, ou que assistimos outras pessoas sumeterem-se, e que deveriam nos chocar tanto quanto. E, quando digo chocar, quero dizer que deveriam aflorar em nós sentimentos que nos levassem primeiro a reação quanto ao assunto. E, depois, às ações necessárias a evitar aquela fonte de dor.

Quando digo da percepção dor-prazer, refiro-me sempre à reação animalesca do gato escaldado. Mas, como ser humano, pretensamente inteligente, pretensamente, portanto, com capacidade de aprender, gostaria que o normal fosse o aprendizado, que nos levasse não a evitar o que nos causa dor, mas eliminar a fonte de dor.

Utopia? Com certeza sim, neste nosso momento evolutivo. Mas que um dia pode vir a ser sonho. E, de sonho, podemos transformar em meta. Que, como se sabe, ou dever-se-ia saber, pode ser atingida. (Minhas considerações sobre o assunto, aqui).

Os demais suicídios? Sim, existem às profusões. Quando decidimos acabar um relacionamento, um casamento, uma amizade. Quando resolvemos abandonar uma carreira. Quando desistimos de uma meta, quando matamos um sonho. Quando decidimos que alguém não merece ajuda (suicidamos outra pessoa??? O cúmulo da extrapolação). Não tão radical, mas quando decidimos não conversar, não argumentar. Quando decidimos não decidir, quando escolhemos o caminho mais fácil.

Mas este assunto está tomando rumos indesejados. Vou tratar de suicidá-lo já.

 

Nava

O suicídio é a única questão filosófica, disse Camus. O homem é o único animal que resolve se matar. Que resolve se resolver. O suicídio é ao mesmo tempo um gesto de desistência e de rebeldia. O homem sabota os desígnios que seus tecidos tinham para ele. Se adianta, denuncia a trama na metade, conta o fim da história antes que ela acabe, corta essa. O suicídio é antinatural. Não estava previsto na criação. É um desafio ao sistema. O suicida não está sob nenhuma jurisdição salvo a da sua vontade. É como a masturbação: só cortando as mãos. O suicídio é o supremo paradoxo humano, porque é o último. Não é, como na piada, a autocrítica levada longe demais. O homem se mata para se preservar. Para se desagravar. Para dar uma lição nos outros cujo efeito nos outros ele não vai ver. O suicídio é uma usurpação. O suicida improvisa o próprio cadáver antes que o tempo o faça. É uma extrapolação. Nossa função não é esta. Estamos aqui para ser, sem perguntas. O corpo não é nosso, só temos o usufruto. A vida é a despeito de nós. Este coração pulsando, esta fome, pertencem a outra ordem, que não é da nossa conta. O suicídio é uma intromissão indébita nesse processo lento e obscuro das células e dos astros. Já que não o desvendamos, o explodimos. A gente não vive, a gente é vivida. Não somos as nossas células se decompondo, somos o que contempla a própria degeneração, perplexo. Não somos o cérebro nem a mão que leva a arma ao cérebro, mas somos, finalmente, definitivamente, o que puxa o gatilho. Mas por que um homem de 80 anos se suicida? Num homem de 80 anos o suicídio é quase tão escandaloso quanto uma aventura amorosa. Não se faz. Aos 80 anos um homem já devia ter a sua perplexidade ajustada, num lado, como uma hérnia inoperável. Já devia ter passado por todas as rupturas perigosas - do desespero, da auto-indulgência - que fazem os moços se matarem. Pode se suicidar de impaciente, mas a impaciência também é coisa de moço. Pensei que houvesse uma glândula, algum dispositivo, que na velhice nos reconciliasse com esta coisa que acontece em nós, e da qual não sabemos a metade, que é uma vida finita. Não há. Merda, não há.

Luís Fernando Veríssimo

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