quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Repeteco do repeteco – a Verdade de Drummond

O texto abaixo foi publicado originalmente por mim aqui. E repetido aqui. E sempre me lembro dele quando me deparo com situações em que os lados estão cheios de razão, mas só perdem no embate. Se há verdade, ela pode não ser a única. E depende sempre da ótica de quem vê, das lentes pelas quais se olha. Se o mundo carece de interpretação, há verdades muitas, certezas muitas, e talvez pouca confluência.

E, de novo, parecem todos caminhar em direções diferentes, cada um com sua verdade, que acontece de querer impor aos demais. Em cada situação dessa que assisto ou que participo, lembro de Drummond e deste poema.

Mas esta é somente a verdade dele…

 

A Verdade (Carlos Drummond de Andrade)

 

A porta da verdade estava aberta,

Mas só deixava passar

Meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,

Porque a meia pessoa que entrava

Só trazia o perfil de meia verdade,

E a sua segunda metade

Voltava igualmente com meios perfis

E os meios perfis não coincidiam verdade...

Arrebentaram a porta.

Derrubaram a porta,

Chegaram ao lugar luminoso

Onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

Diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual

a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela

E carecia optar.

Cada um optou conforme

Seu capricho,

sua ilusão,

sua miopia.

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