terça-feira, 1 de setembro de 2009

Encontros e desencontros

Fernando Sabino, numa de suas crônicas, conta uma viagem a Londres, e, revisitando os lugares conhecidos, disse que tinha medo de virar a esquina e dar de cara com o jovem que ele fora há vinte anos. Compreensível.

Os anos se acumulam em nós. Em alguns, somente na aparência. Em outros, na experiência, na forma de interpretar o mundo, no comportamento.Os primeiros tentam apagar a marca do tempo: cosméticos, plásticas, subterfúgios para parecer o que não é mais.

Dos outros, há os que, apesar da experiência acumulada, não passa disso mesmo: acúmulo. É como se fosse a gordura de vida. Fatos e mais fatos que não se transformam em sabedoria, que não se traduzem em melhoria. Não ligam para a aparência, não ligam para a vida. Esta passa, somente isso. E esperá-la passar, é tudo que fazem.

Mas há outros, que fazem questão de escarafunchar cada evento vivido. Porque aconteceu, quais as consequências, qual a motivação. O resultado de tal aprofundamento, aí sim, é a sabedoria. Não aquela do princípio dor-prazer, que faz com que o gato escaldado tenha medo de água fria. Mas o tipo de sabedoria que nos permite escolher que tipo de reação vamos ter. E, talvez mais importante, que tipo de ação vamos escolher.

Pessoas deste último tipo são pessoas que riem das dificuldades. Que, ao enfrentar problemas, vão logo dando uns tapas neles, para que se reduzam ao seu tamanho real, e para mostrar quem manda ali. São pessoas que não choram o leite derramado, mas, rindo dele, ainda fazem com o próximo leite não se derrame.

Estas pessoas, mais raras, são aquelas que temos vontade, necessidade e prazer de chamar de amigos. Mas deveria ser mais: deveria ser uma meta de todos nós.

Mas, para ser meta, precisa mexer conosco. É preciso que cada acontecimento nos provoque alegria profunda, ou tristeza. É preciso que nos machuquemos, ou que nos regozijemos. É preciso sentir, enfim, cada evento que nos afeta. E sentir de tal modo que nos faça agir ou reagir, mas não nos faça inertes.

A inércia comportamental está ligada a fuga ou a zona de conforto. Quem foge não encara o problema. Quem está na zona de conforto não quer sair dali.  De qualquer forma, tranca seu coração àquilo que lhe incomoda.

Os outros permitem-se sentir. Pois é o sentimento que lhes transforma no princípio ativo de que trato aqui. E, em assim sendo, deveria ser parte de todos nós. Mas não é. Parafraseando L.F. Veríssimo: droga, não é!

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