segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A verdade de cada um

Quando meu avô paterno faleceu, meu pai veio de Blumenau para o funeral. E, daqui, teríamos de viajar mais trezentos quilômetros até o local do enterro.

Atrasamos, claro, e quando lá chegamos o caixão já tinha sido “baixado”. longe da era dos celulares, sem possibilidade de comunicação, os parentes não tinham como saber onte estávamos, eu e meu pai, e um tio decidiu que não podiam esperar. Fiquei muito chateado com esse tio, embora tenhamos tido oportunidade de despedida, pois o caixão foi retirado e aberto.

Achei que faltou sensibilidade ao tio. E fiquei alimentando essa mágoa.

Alguns anos depois, minha mãe me fez ver que eu fizera o mesmo, quando o pai dela faleceu (dois anos após). Um tio que vinha de outra cidade, atrasou-se muito, e eu decidi que tínhamos de prosseguir com o enterro. Nesta caso, não houve possibilidade dele se despedir.

O caso é que eu me posicionei de uma forma no primeiro caso e de outra, no segundo. Quando percebi isto, parecia um daqueles momentos em que nos encontramos com nosso eu, verdadeiramente. Percebi a armadilha psicológica que montamos para justificar nossas ações e ressentimentos. E, a partir dessa percepção, comprometi-me comigo mesmo a praticar mais a empatia: colocar-me no lugar da outra pessoa antes de julgar. No caso, condenar.

Mas a epifania me desnudou uma verdade doída, pois eu pensava que já praticava suficientemente a empatia (chamada de reversibilidade). Não, não praticava como deveria. Era nada mais que arrogância, transformada em verdade por mais e mais arrogância.

Uma vez que tive de me enfrentar (nunca tive um adversário tão chato), compreendi que o que professamos não é exatamento o que praticamos. E não tenho (no meu caso, divorciado há treze anos) quem me alerte para esse tipo de comportamento disfuncional.

Quando eu era tecnocrata, tive dois amigos com quem praticava a provocação dessa auto-observação: Cristina e Carlos Renato. Dois grande amigos até hoje, mas que o tempo e a distância impedem de usufruir mais de sua sabedoria. Tínhamos uma certeza: nossas palavras eram sempre com a melhor das intenções e nunca tivemos problemas com isto.

Em família, ou com amigos próximos, nem sempre isto dá certo. A história às vezes contamina a mensagem, e o resultado  em sempre é bom. Mas a experiência é muito mais proveitosa que muitos daqueles conhecimentos que acabamos adquirindo na vida profissional. Por que aqui o dedicamos a aprimorar nossos relacionamentos.

Queria ter muitos amigos dispostos a perder minha amizade em prol de nosso crescimento. E é o caso daqueles dois. A quem procuro respeitar, praticando sempre aquilo que tornou nossa amizade tão especial.

5 comentários:

  1. Agradeço o carino é o mínimo que posso escrever. Estou te destinando um pemio de origem internacional, espero aue desta vez vc assuma, e giste.
    abraços
    dig
    p.s. estamos em salvador, e ficaremos até fevereiro, quem sabe das uma escapada até aqui ? Não faltam moquecas e acarajes

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  2. Certa vez, Conversando com a Raquel (que tinha 4 anos), ela perguntou qual era o maior número do mundo. eu disse que era um gugol, o número 1 seguido de 100 zeros. Depois de um ano, estávamos no mesmo ponto (de carro), e ela perguntou: e como as pessoas chegaram a esse número? E eu respondi, sem titubear, ois sabia do que ela estava falando, mesmo depois de um ano.
    Com vocês, Dig e Cris, nossas conversas sempre foram assim: não necessariamente com um início, mas com uma lógica avassaladora. Quando escolho o caminho mais suave, digo sempre: Como diz meu amigo Dig, vamos pela vida...

    Vou me programar para estar em Salvador. Preciso resolver este caso da salada de repolho e abacaxi...

    Abraços

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  3. Rê,
    às vezes, precisamos de uma certa dose desta incongruência das pessoas para tomarmos consciência e entendermos nossas ações. O que fica, são as experiências que devemos tomar como aprendizado...

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  4. É verdade. Mas a nossa própria incongruência, como enxergá-la? Como aprender com ela, se não a percebermos?

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  5. É... tem razão...não podemos fugir dela, caso nossa intenção seja aprender....

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