quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O importante não é vencer...

A cada dois anos volto a este assunto. Desta vez, o mote é a China, com as Olimpíadas. A movimentação global em torno do evento mostra-nos que é uma grande festa. Que se desenrolará pelos próximos dias, com uma presença maciça da mídia, cada qual destacando as chances e vantagens de seu país. Sim, a mídia como um vetor de torcida. E é aí que começa meu incômodo.

As redes de televisão, mais que todos os outros tipos de mídia, têm interesse comercial direto no evento. É quando os telespectadores, no intervalo das transmissões, têm a oportunidade única e imperdível de conhecer a
mensagem dos patrocinadores. Que, como o nome diz, pagam por essa visibilidade, para serem apresentados a nós, num momento tão cívico.

Se é assim, como poderá o jornal diário tecer suas críticas em relação ao que acontece nos jogos? Já teve terremoto, já teve atentado. Está acontecendo censura explícita, e o povo chinês está sendo catequizado pelo governo. Os monges tibetanos querem protestar, mas sua aparição é enfrentada com golpes nada democráticos. Essa violência pode afetar a audiência? Pode ser que sim, pode ser que não, mas, por via das dúvidas, acho que as maiores e melhores informações estarão na mídia impressa.

Se a festa pode não ser a festa mesma que nos apresentam, o que dizer do espírito? Nunca vi esporte em que a cooperação entre os contendores fosse a tônica. Que é sempre a prevalência de um (indivíduo ou time) sobre outros. Que mensagem advém disto? Ensinamos nossas crianças, através do esporte, que a competição é a grande força motriz da nossa sociedade. E queremos que, crescidas, elas cooperem no ambiente de trabalho, na família, no meio social. Há uma dissonância entre a prática e o ideal.

Já foram eliminados dessa olimpíada vários atletas que, caçando louros, lançaram mão de dopping e estavam a caminho da luta por medalhas. O que comprova, cada vez mais, que a Olimpíada nada mais é, atualmente, que o Big Brother na versão esportista, em que todos buscam mesmo é fama. Há ass exceções? Não, acho que não.

Na volta, os medalhistas, agora titulados heróis, são recebidos pelos governantes e pelos baluartes financeiros da sociedade com honras máximas. Mas são os mesmos que, instados a custear o desenvolvimento dos esportistas, tantas vezes não foram nada esportivos. A hipocrisia é tanta, de ambos os lados (há exceções, aqui, do lado dos atletas) que muitos se esquecem de que os treinamentos e as preparações são realizadas fora do Brasil, que (quase) nada oferece de apoio.

E, nos esportes coletivos, aquele clima de confronto (não esportivo) de sempre. Aquela linha do fair play já não é mais visívil. Os atletas estão em ponto de entrar em guerra, em nosso nome, para ganhar uma medalha. Ufanismos à parte, não dou procuração para ninguém brigar em meu lugar.

Os cinco continentes, unidos num pequeno pedaço a título de um objetivo comum, é realmente um feito notável. Melhor seria se de encontros como esses pudessem sair todos vencedores, numa utopia que só o é pela nossa falta de disposição de desmenti-la.

Até, celebremos o congraçamento dos povos, aplaudindo aquele que está no degrau mais alto (o vencedor), em nada figurada demonstração de submissão dos outros. O congraçamento será o circo, mundial, planetário, e o pão, cada um que cuide do seu. Os tibetanos, por exemplo.


Uma amiga me disse uma vez que encaro os jogos de má vontade. Acho que é verdade. Mas tanta hipocrisia e tanta alienação realmente me deixam com pouca disposição de achar tudo lindo e maravilhoso. É uma festa? Talvez. De congraçamento? Nunca.

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