sábado, 19 de julho de 2008

Norteando

Na Amazônia, em uma vila afastada. Sem luz (somente uma hora por dia), sem comunicação (um telefone público, era só). Muita natureza, muito calor humano.

Eis que surge a rifa de um frango assado. Para ajudar sei lá quem. Baratinho, comprei um número. Depois outros, depois outro. Resultado: acabei comprando mais de noventa porcento dos números. E perdi. A ganhadora, com pena (sem trocadilho), me convidou para comer o frango junto com eles. Consolação...

Estava lá, parado. Passaram algumas pessoas:

- Vamos tomar banho?

- Anh? Como assim, "vamos tomar banho"?

Era no rio, um braço do Amazonas. Cada um com seu sabão, seu xampu, sua toalha. Ao longo da "praia", boa parte da cidade se banhava. Interessante

Acordei, tinha dois peixes enormes na cozinha. Um tucunaré e um matrinchã.

- Fulano passou e deixou aí para você.

Oba! Fui agradecer:

- Que peixe? Ah, aqueles. Deixamos lá porque eram pequenos.

E abriu a geladeira do barco, mostrando os "grandes". Era verdade.

Um dia, surgiu uma mulher. Muito bonita, com seus dois filhos. E alguém me disse:

- Bonita, né? Sabia que tem somente doze anos?

Uma mulher formada! Parece que peixe dá sustança...

Na lancha, algo pulou no rio, lá na frente. Fiquei observando. Pulou de novo. Perguntei o que era. E o piloto me responder, em tom de desdém:

- Ah, é o boto cor-de-rosa.

- Vocês não gostam dele?

- Não, é muito brincalhão.

- E daí?

- Daí que ele vai brincar com os barquinhos e acaba fazendo com que virem. Às vezes morre alguém...

Os barquinhos eram feitos de troncos de árvore escavados. A borda ficava a dois, três dedos acima do nível d'água. Era, na verdade, bem fácil afundá-los. Eu ali, maravilhado com a novidade, e para eles o boto era uma ameaça.

Era época de chuva. Vi muitas casas, quer dizer, muitos telhados de casas. As famílias voltavam para elas somente na época da estiagem. Vi árvores tortas de tanta arara. E garça. E papagaio.

Vi a força do Amazonas, encorpado pela água das chuvas. Eu mesmo enfrentei uma chuva no barco a tal ponto que o capitão encostou, na margem direita, com medo de afundar. Eu achando um barato, claro.

Um povo muito acolhedor, que me fez tirar muitas e muitas fotos. Com a promessa, nunca cumprida, de mandar cópias para eles. Um outro Brasil, uma outra cultura. Um outro mundo.

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