quarta-feira, 16 de julho de 2008

Era uma vez...

Eles já tinham certa idade. Casados, cansados. A conversa não fluía mais, tudo era rotina. Estavam mergulhados nas memórias, mas aquelas de que não gostavam. Suas discussões rapidamente se contaminavam pela sua história. Fatos e mágoas passadas eram sacadas contra o outro, e as discussões já nasciam perdidas.

Mas estava na cara que se amavam, embora não conseguissem se comunicar. Nos momentos ruins, uniam-se e passavam por cima de tudo que havia de errado. Para voltar imediatamente aos erros quando a crise passava.

Ambos eram amigos meus. Ambos choravam as mágoas comigo. E, um dia, ambos me perguntaram, com diferença de minutos, o que eu faria no lugar deles.

Não resisti. Tentei, de verdade, mas não consegui. Desta vez, eu me intrometi. sob o risco de perder dois amigos, uni-os para me ouvir. E, sem contaminação, mas com emoção (raro para mim neste tipo de conversa), mostrei (ao menos tentei) a eles o que eles tinham: um relacionamento. Que já era de longo prazo. E alinhei, uma a uma, o lado bom do relacionamento que eles tinham. Como se irmanavam nas situações de crise. Como se entendiam, ao menos tacitamente. E coisas do gênero.

Nessas horas a memória ajuda, e lembrei a eles os muitos momentos bons que tivéramos, em que eu estava presente. Para lembrá-los de que deveriam ser muitos mais, pois estive presente muito pouco em suas vidas.

Escutavam-me silenciosos, mas emocionados. Prestando atenção. Até que ele (sempre é o homem) me disse o seguinte:

- É, você falou de tudo que é bom. Mas e o que é ruim?

Deu-me a deixa, falei a partir daí por mais de uma hora. Então eles não entendiam que era esse o erro? Focar no que está errado? E o que está certo, e o que é bom? Quantas qualidades eles tinham, e que estavam sendo ignoradas pelo outro? E os erros eram tantos que estavam emudecendo a ambos? Seria verdade? Seria possível? Quais eram esses erros?

Então, sem contaminação, ambos foram se soltando. Procurando conter a mágoa, externaram suas dificuldades em relação ao outro. E foram evoluindo na conversa, adulta, séria, focada em apresentar ao outro sua forma de perceber. Evoluiu tão bem que saí, à sorrelfa, e eles nem perceberam.

No dia seguinte, soube que tinham virado a noite conversando. E que foram sentir minha falta já quase de manhã (terrível, eu sei, não fazer falta...). Não resolveram todos os problemas, não acertaram todos os ponteiros, mas fizeram um pacto para resolver suas diferenças conversando. O que, no fim das contas, é o grande segredo do relacionamento, qualquer que seja ele.

Não os vejo há tempos. Da última vez que nos encontramos, estavam esbanjando felicidade. Brigando só de show, só para me provocar... Nunca mais falamos sobre aquela noite. Foi um abraço que ganhei deles que me revelou que fui o catalisador do processo. Desconfio que eles não quiseram brigar na minha presença, só isso. Mas o resultado foi bom, quem pode reclamar?

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