quarta-feira, 16 de julho de 2008

Complementando

Contei aqui a história de um casal de amigos. Quando a leu, uma amiga nossa, que participou do processo (e estava presente no dia), me convenceu de que eu tinha omitido informações importantes na história. Vou reparar o erro.

Começamos a conversa com algumas regras, que eu digo que recomendei e minha amiga diz que impus. O que importa é que essas regras definiriam os rumos da conversa, e foram essenciais para que se chegasse ao bom resultado:

  • Se o objetivo era resolver os problemas (ao menos enfrentá-los), tudo o que seria dito deveria ter expressar essa vontade de entendimento. A premissa maior era sanear o relacionamento;
  • Ainda na mesma linha, o que seria dito não poderia ser entendido como agressão;
  • Não poderia haver vingança ou retaliação em relação ao que fosse dito;
  • O lado que ouviria se comprometeria a, antes de rebater, assimilar e analisar;
  • Não era discussão, mas conversa. E esse deveria ser o ânimo;
  • Procurava-se, ali, compreender os motivos do outro. Cada um a seu turno, em vez de tentar explicar-se, tentaria entender. Sei, são dois lados, um explica e outro escuta, mas falo da motivação: entender antes de justificar.

Dei um exemplo que sabia ser verdadeiro e que poderia fazer a conversa desandar. Ela diria para ele que se incomodava com o local onde ficavam as latas vazias de cerveja. E ele replicaria, em tom de "ah, é?...". E diria a ela sobre o local onde ela deixava os sapatos ao chegar. Ambos sorriram amarelo, e entenderam o recado. Entender os porquês, esse era o objetivo.

No início, foi difícil. Para não perder o controle, combinamos que haveria uma sinalização, do tipo romano: polegar para cima, ok. Polegar para baixo, não-ok. Algumas frases ok, muitas não-ok depois, o papo engrenou. O clima de confiança cresceu, e a conversa começou a fluir. Já não precisavam mais do semáforo do polegar. E foram, de forma calma, explorando seus problemas, ou ao menos o que entendiam ser problema.

Nesse momento, peguei minha amiga e nos retiramos. Nunca soubemos o que mais tinha sido discutido. Mas presenciei cenas de maturidade explícita muitas vezes depois dessa reunião. Ambos, naquela noite, se comprometeram a adotar aquele comportamento assertivo como padrão. E conseguiram, felizmente.

Minha amiga me convenceu a contar esta parte da história porque entende que não teria sido assim sem as regras. Não sei, e ninguém jamais saberá se é verdade. O fato é que pode ter ajudado. Mas o fundamental foi a disposição de ambos em resolver o(s) problema(s). Se eles não se tivessem despido de suas mágoas, em verdadeira intenção de salvar o relacionamento, não haveria regra que os fizesse ajudar-se.

Isto é o que considero a magia da comunicação. Quando se desentopem as linhas, a comunicação flui, e o problema começa a ser enfrentado. Já é um começo, um poderoso começo.

2 comentários:

  1. Bom, caso haja um novo episódio dessas terapias de casais, dou uma idéia intrometida para incrementar o código romano.
    Ok = polegar pra cima ta ótimo!
    O “não ok” pode ser substituído pelo “kô”.
    Então ficaria, ok e ko.
    Para o ko (leia-se káô) não ficar com o peso negativo que carrega, a lata feia do refrigerante Kuat zero pode servir para alguma coisa além d resguardar o conteúdo, afinal, o conteúdo é o q importa (embora eu não concorde de corpo e alma com isso). Moral da história? Como canta Marisa Monte... ”Vai saber? Lá laiáláiá vai saber...” ;)

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