terça-feira, 22 de julho de 2008

Aceitação

Há alguns anos, quando eu ainda era um tecnocrata, reunimos forças na empresa para apoiar uma pessoa que falaria pelos funcionários no conselho de administração. Obviamente, a pessoas tinha de ter "reputação ilibada", etc etc. A pessoa foi escolhida, em votação nacional, e assumiu seu posto.

Quando determinado escândalo veio à tona, um dos principais acusado não era senão aquela pessoa. O que causou claro, aquele sentimento de enganação de parte de todos nós, que lutáramos por ele.

Quando vemos o histórico de muitas das pessoas que caíram do atual governo por causa desses escândalos, surpreendemo-nos. Como uma pessoa desmente a história de sua vida? Pessoas que lutavam pela verdade agora tratam de escondê-la, maquiá-la. Verdade, honestidade, valores, foi tudo esquecido. Em nome de quê? Nem sempre de dinheiro, é fácil constatar. Algumas vezes, por aceitação. Outras, por influência. Em muitas, por simples falta de capacidade de avaliação. Os fins justificam os meios, é a certeza que nos traz esses comportamentos.

Lembrei-me da passagem orwellina no livro 1984:

- Estás disposto a dar a vida?

- Estou.

- Estás disposto a assassinar?

- Estou.

- A cometer atos de sabotagem que poderão causar a morte de centenas de inocentes?

- Sim.

- A trair tua pátria às potências estrangeiras?

- Sim.

- Estás disposto a fraudar, forjar, fazer chantagem, corromper a mente infantil, distribuir entorpecentes, incentivar a prostituição, disseminar doenças venéreas – fazer tudo quanto possa causar a desmoralização e debilitar o poder do partido?

- Sim.

- Se, por exemplo, servisse aos nossos interesses, atirar ácido sulfúrico no rosto de uma criança, farias isso?

- Faria, sim.

- Estás disposto a perder tua identidade e viver o resto da tua vida como garçom ou estivador?

- Estou.

- Estás disposto a te suicidar, se e quando isto te for ordenado?

- Sim1.

...

Na obra, era ficção. O questionário existiu. Na vida real, o questionário não pode ter existido. Ou pode não ter existido. O fato é que o compromisso parece real. Aquelas pessoas que desmentiram seu currículo aderiram, em algum ponto da vida, a algo que lhes falou mais forte que tudo que antecedera. O compromisso com o poder, ou contra o poder, com o governante, ou contra o governante. Com o partido, ou contra o partido. O mais importante era preservar, ou derrubar. Nada mais tinha importância. O resto poderia simplesmente se submeter às novas necessidades.

De quantos mais escândalos precisa o Brasil para que seus valores se coloquem de novo como prioritários?

1 1984 – George Orwell – Editora Companhia Nacional

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