quarta-feira, 23 de julho de 2008

Desculpa aí!

Uma amiga reclamou comigo no final do ano passado que ela estava cansada de política neste blog. E, por uns tempos, ela ficou de fora mesmo. Mas agora está voltando, e com tudo. Fazer o que?

Quando der, ainda me mostro um pouquinho. Uma outra amiga me disse que eu sou muito transparente, ela podia ver o que estava acontecendo. Assustei.

Medo!

A megafusão

A Oi deve se fundir com a Brt. E deve formar uma das maiores empresas de telecomunicações do mundo. A maior do Brasil. Esse negócio, para ser sacramentado, precisa da alteração de uma lei, mas esse não parece ser um problema, já que o governo federal, segundo o noticiário, até incentivou o processo.

Abro um parêntese.
Tentei, por quatro vezes, mudar a velocidade de conexão de meu Speedy, que é um serviço da Telefonica. Por três vezes, chegamos ao final do processo, não tendo tido sucesso por falta do instalador (cuja presença não sei para que serviria, já que é um procedimento interno, pelo que soube. Mas...). Na quarta tentativa, nesta semana, informaram-me que não é possível, na minha região, alterar a velocidade.

Ok, se não é possível não vou brigar. Liguei para a concorrente e pedi o serviço. Que foi instalado e prontamente disponibilizado.

Testei por uns dias, fiquei satisfeito, liguei para cancelar o Speedy. Na primeira tentativa, depois de pegar todos os meus dados e checar as validações, o atendente desligou.

Na segunda tentativa, ao escolher a opção "cancelar Speedy, o sistema de atendimento desligou.

Na terceira tentativa, o atendente desligou (depois de confirmar todas as informações...).

Cansei. Liguei para a ANATEL e registrei uma reclamação. Mas, para evitar maiores aborrecimentos, liguei novamente para a Telefonica. E, depois de várias confirmações, cheguei finalmente ao... momento em que desligavam na minha cara.

Esperei. Tentei uma quinta vez. Também não tive sucesso. Mas informaram-me, várias vezes, durante essas cinco tentativas, que a velocidade poderia, sim, ser aumentada. Fiquei felicíssimo, claro, mas queria REALMENTE cancelar o serviço. Tentaram me convencer que eu era um cliente especial, eu iria me arrepender. Até acho que realmente pode ser, mas quero REALMENTE cancelar. Um supervisor interviu, com vários argumentos para me manter cliente. Acho que ainda não tinha dito, mas eu só queria cancelar o serviço.

E finalizei a quinta tentativa. Mas o serviço não foi cancelado.
Fecho o parêntese.

Quando a Budweiser ia entrar no Brasil, via Antártica, o CADE (Conselho Administrativo de
Defesa Econômica) proiboi o negócio. Também colocou água no chope da pasta dental Kolynos, que teve de sair do mercado por um período, também por exigência do CADE. O mote era a defesa do consumidor, já que a concorrência seria prejudicada, com grande concentração em um só fornecedor. A pergunta: essa fusão não fere essa regra? Se com a Telefonica já tenho essa dificuldade em cancelar um serviço, será mais fácil com um megaplayer como esse que surgira da Oi-Brt?

Ou podemos concluir que o CADE, sendo uma autarquia vinculada ao Ministério da Justiça, atende às suas diretrizes e não age da mesma forma num evento em que tem interesse o governo federal?

Afinal, qual é mesmo o interesse do governo federal? Quem se beneficiará dessa fusão? Será que o negócio será tão bom para o Brasil que a plebe ignara não tem nem como enxergar esse benefício? É muito grande ou muito sutil?

Vai saber...

terça-feira, 22 de julho de 2008

Aceitação

Há alguns anos, quando eu ainda era um tecnocrata, reunimos forças na empresa para apoiar uma pessoa que falaria pelos funcionários no conselho de administração. Obviamente, a pessoas tinha de ter "reputação ilibada", etc etc. A pessoa foi escolhida, em votação nacional, e assumiu seu posto.

Quando determinado escândalo veio à tona, um dos principais acusado não era senão aquela pessoa. O que causou claro, aquele sentimento de enganação de parte de todos nós, que lutáramos por ele.

Quando vemos o histórico de muitas das pessoas que caíram do atual governo por causa desses escândalos, surpreendemo-nos. Como uma pessoa desmente a história de sua vida? Pessoas que lutavam pela verdade agora tratam de escondê-la, maquiá-la. Verdade, honestidade, valores, foi tudo esquecido. Em nome de quê? Nem sempre de dinheiro, é fácil constatar. Algumas vezes, por aceitação. Outras, por influência. Em muitas, por simples falta de capacidade de avaliação. Os fins justificam os meios, é a certeza que nos traz esses comportamentos.

Lembrei-me da passagem orwellina no livro 1984:

- Estás disposto a dar a vida?

- Estou.

- Estás disposto a assassinar?

- Estou.

- A cometer atos de sabotagem que poderão causar a morte de centenas de inocentes?

- Sim.

- A trair tua pátria às potências estrangeiras?

- Sim.

- Estás disposto a fraudar, forjar, fazer chantagem, corromper a mente infantil, distribuir entorpecentes, incentivar a prostituição, disseminar doenças venéreas – fazer tudo quanto possa causar a desmoralização e debilitar o poder do partido?

- Sim.

- Se, por exemplo, servisse aos nossos interesses, atirar ácido sulfúrico no rosto de uma criança, farias isso?

- Faria, sim.

- Estás disposto a perder tua identidade e viver o resto da tua vida como garçom ou estivador?

- Estou.

- Estás disposto a te suicidar, se e quando isto te for ordenado?

- Sim1.

...

Na obra, era ficção. O questionário existiu. Na vida real, o questionário não pode ter existido. Ou pode não ter existido. O fato é que o compromisso parece real. Aquelas pessoas que desmentiram seu currículo aderiram, em algum ponto da vida, a algo que lhes falou mais forte que tudo que antecedera. O compromisso com o poder, ou contra o poder, com o governante, ou contra o governante. Com o partido, ou contra o partido. O mais importante era preservar, ou derrubar. Nada mais tinha importância. O resto poderia simplesmente se submeter às novas necessidades.

De quantos mais escândalos precisa o Brasil para que seus valores se coloquem de novo como prioritários?

1 1984 – George Orwell – Editora Companhia Nacional

sábado, 19 de julho de 2008

Norteando

Na Amazônia, em uma vila afastada. Sem luz (somente uma hora por dia), sem comunicação (um telefone público, era só). Muita natureza, muito calor humano.

Eis que surge a rifa de um frango assado. Para ajudar sei lá quem. Baratinho, comprei um número. Depois outros, depois outro. Resultado: acabei comprando mais de noventa porcento dos números. E perdi. A ganhadora, com pena (sem trocadilho), me convidou para comer o frango junto com eles. Consolação...

Estava lá, parado. Passaram algumas pessoas:

- Vamos tomar banho?

- Anh? Como assim, "vamos tomar banho"?

Era no rio, um braço do Amazonas. Cada um com seu sabão, seu xampu, sua toalha. Ao longo da "praia", boa parte da cidade se banhava. Interessante

Acordei, tinha dois peixes enormes na cozinha. Um tucunaré e um matrinchã.

- Fulano passou e deixou aí para você.

Oba! Fui agradecer:

- Que peixe? Ah, aqueles. Deixamos lá porque eram pequenos.

E abriu a geladeira do barco, mostrando os "grandes". Era verdade.

Um dia, surgiu uma mulher. Muito bonita, com seus dois filhos. E alguém me disse:

- Bonita, né? Sabia que tem somente doze anos?

Uma mulher formada! Parece que peixe dá sustança...

Na lancha, algo pulou no rio, lá na frente. Fiquei observando. Pulou de novo. Perguntei o que era. E o piloto me responder, em tom de desdém:

- Ah, é o boto cor-de-rosa.

- Vocês não gostam dele?

- Não, é muito brincalhão.

- E daí?

- Daí que ele vai brincar com os barquinhos e acaba fazendo com que virem. Às vezes morre alguém...

Os barquinhos eram feitos de troncos de árvore escavados. A borda ficava a dois, três dedos acima do nível d'água. Era, na verdade, bem fácil afundá-los. Eu ali, maravilhado com a novidade, e para eles o boto era uma ameaça.

Era época de chuva. Vi muitas casas, quer dizer, muitos telhados de casas. As famílias voltavam para elas somente na época da estiagem. Vi árvores tortas de tanta arara. E garça. E papagaio.

Vi a força do Amazonas, encorpado pela água das chuvas. Eu mesmo enfrentei uma chuva no barco a tal ponto que o capitão encostou, na margem direita, com medo de afundar. Eu achando um barato, claro.

Um povo muito acolhedor, que me fez tirar muitas e muitas fotos. Com a promessa, nunca cumprida, de mandar cópias para eles. Um outro Brasil, uma outra cultura. Um outro mundo.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Respostas...

"Falei" aqui de uma amiga que gostava de cultura inútil. E mencionei algumas questões que respondêramos. E hoje levei um puxão de orelhas de alguém que disse que, se não publicasse as respostas, não contribuiria para a proliferação dos nerds.

Ok, é um começo.
  • Qual o nome da namorada do Homem Aranha que foi assassinada pelo Duende Verde?
  • Gwen Stacey
  • Quem matou Robin, na história do Batman?
  • Coringa
  • Qual o nome dos seres peludos que invadiram a Enterprise do Capitão Kirk?
  • Pingos
  • Qual o nome do monstro que aprisionou a Princesa Lea depois que Han Solo foi "congelado"?
  • Jaba, the hut
  • Qual era o nome do irmão da Mafalda?
  • Guile

Aprendeu?

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Vôo 3054, um ano

Há um ano, o acidente que matou 199 pessoas. E iniciou uma batalha, lamentável, para ver quem era mais eficiente ao isentar-se de culpa. Houve até gesto obsceno comemorando notícias.

Depois do acidente, muitas causas. Prédio com altura errada, falta de grooving, reverso, excesso na lâmina d'água... Rotas foram alteradas, vôos deslocados, até gritaria e autoritarismo tiveram lugar na tragédia.

Quando as coisas se acalmaram, tudo voltou a ser como antes. Os saguões continuam cheios, há freqüentes "reposicionamentos de aeronaves" obrigando os passageiros a andarem de lá para cá, e para lá novamente, pelos portões das salas de embarque. E, inédito para mim, até o estacionamento de Congonhas anda fechando por falta de vagas.

O terceiro aeroporto não passou de bravata, assim como a terceira pista de Cumbica. Os problemas dos controladores de vôo sumiram num passe de mágica, e estamos no mesmo lugar em que estávamos antes do acidente: em perigo!

É preciso lembrar o acidente do vôo Gol 1907, de 29 de setembro de 2006, que matou 154 pessoas, e cujas responsabilidades ainda não se definiram. Embora não tragam de volta nenhuma das vidas perdidas, as punições poderiam ser exemplares. Logo depois do acidente, iniciou-se o inferno dos aeroportos. Muitas denúncias, nenhuma ação concreta, o povo que voa relaxou...

Até esse novo acidente da TAM. Que mobilizou novamente, chocou, emocionou. E, agora, está no esquecimento novamente.
Para quem voa regularmente, entretanto, nunca será simples assim. O bode estava na sala, após o acidente do vôo 3054 ele foi tirado. Numa bela manhã de terça, por exemplo, o aeroporto parecia um galpão abandonado. Mas o bode foi voltando, aos poucos, paulatinamente. E agora já está lá de novo, suspeito que com sua família. Pois estacionar já está difícil, andar pelos salões está quase impossível.

Mas, ao que parece, será necessário outro acidente, com mais tantos mortos, para que se simule a adoção de medidas. E assim vamos indo. E vindo. Esperando chegar...

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Complementando

Contei aqui a história de um casal de amigos. Quando a leu, uma amiga nossa, que participou do processo (e estava presente no dia), me convenceu de que eu tinha omitido informações importantes na história. Vou reparar o erro.

Começamos a conversa com algumas regras, que eu digo que recomendei e minha amiga diz que impus. O que importa é que essas regras definiriam os rumos da conversa, e foram essenciais para que se chegasse ao bom resultado:

  • Se o objetivo era resolver os problemas (ao menos enfrentá-los), tudo o que seria dito deveria ter expressar essa vontade de entendimento. A premissa maior era sanear o relacionamento;
  • Ainda na mesma linha, o que seria dito não poderia ser entendido como agressão;
  • Não poderia haver vingança ou retaliação em relação ao que fosse dito;
  • O lado que ouviria se comprometeria a, antes de rebater, assimilar e analisar;
  • Não era discussão, mas conversa. E esse deveria ser o ânimo;
  • Procurava-se, ali, compreender os motivos do outro. Cada um a seu turno, em vez de tentar explicar-se, tentaria entender. Sei, são dois lados, um explica e outro escuta, mas falo da motivação: entender antes de justificar.

Dei um exemplo que sabia ser verdadeiro e que poderia fazer a conversa desandar. Ela diria para ele que se incomodava com o local onde ficavam as latas vazias de cerveja. E ele replicaria, em tom de "ah, é?...". E diria a ela sobre o local onde ela deixava os sapatos ao chegar. Ambos sorriram amarelo, e entenderam o recado. Entender os porquês, esse era o objetivo.

No início, foi difícil. Para não perder o controle, combinamos que haveria uma sinalização, do tipo romano: polegar para cima, ok. Polegar para baixo, não-ok. Algumas frases ok, muitas não-ok depois, o papo engrenou. O clima de confiança cresceu, e a conversa começou a fluir. Já não precisavam mais do semáforo do polegar. E foram, de forma calma, explorando seus problemas, ou ao menos o que entendiam ser problema.

Nesse momento, peguei minha amiga e nos retiramos. Nunca soubemos o que mais tinha sido discutido. Mas presenciei cenas de maturidade explícita muitas vezes depois dessa reunião. Ambos, naquela noite, se comprometeram a adotar aquele comportamento assertivo como padrão. E conseguiram, felizmente.

Minha amiga me convenceu a contar esta parte da história porque entende que não teria sido assim sem as regras. Não sei, e ninguém jamais saberá se é verdade. O fato é que pode ter ajudado. Mas o fundamental foi a disposição de ambos em resolver o(s) problema(s). Se eles não se tivessem despido de suas mágoas, em verdadeira intenção de salvar o relacionamento, não haveria regra que os fizesse ajudar-se.

Isto é o que considero a magia da comunicação. Quando se desentopem as linhas, a comunicação flui, e o problema começa a ser enfrentado. Já é um começo, um poderoso começo.

Era uma vez...

Eles já tinham certa idade. Casados, cansados. A conversa não fluía mais, tudo era rotina. Estavam mergulhados nas memórias, mas aquelas de que não gostavam. Suas discussões rapidamente se contaminavam pela sua história. Fatos e mágoas passadas eram sacadas contra o outro, e as discussões já nasciam perdidas.

Mas estava na cara que se amavam, embora não conseguissem se comunicar. Nos momentos ruins, uniam-se e passavam por cima de tudo que havia de errado. Para voltar imediatamente aos erros quando a crise passava.

Ambos eram amigos meus. Ambos choravam as mágoas comigo. E, um dia, ambos me perguntaram, com diferença de minutos, o que eu faria no lugar deles.

Não resisti. Tentei, de verdade, mas não consegui. Desta vez, eu me intrometi. sob o risco de perder dois amigos, uni-os para me ouvir. E, sem contaminação, mas com emoção (raro para mim neste tipo de conversa), mostrei (ao menos tentei) a eles o que eles tinham: um relacionamento. Que já era de longo prazo. E alinhei, uma a uma, o lado bom do relacionamento que eles tinham. Como se irmanavam nas situações de crise. Como se entendiam, ao menos tacitamente. E coisas do gênero.

Nessas horas a memória ajuda, e lembrei a eles os muitos momentos bons que tivéramos, em que eu estava presente. Para lembrá-los de que deveriam ser muitos mais, pois estive presente muito pouco em suas vidas.

Escutavam-me silenciosos, mas emocionados. Prestando atenção. Até que ele (sempre é o homem) me disse o seguinte:

- É, você falou de tudo que é bom. Mas e o que é ruim?

Deu-me a deixa, falei a partir daí por mais de uma hora. Então eles não entendiam que era esse o erro? Focar no que está errado? E o que está certo, e o que é bom? Quantas qualidades eles tinham, e que estavam sendo ignoradas pelo outro? E os erros eram tantos que estavam emudecendo a ambos? Seria verdade? Seria possível? Quais eram esses erros?

Então, sem contaminação, ambos foram se soltando. Procurando conter a mágoa, externaram suas dificuldades em relação ao outro. E foram evoluindo na conversa, adulta, séria, focada em apresentar ao outro sua forma de perceber. Evoluiu tão bem que saí, à sorrelfa, e eles nem perceberam.

No dia seguinte, soube que tinham virado a noite conversando. E que foram sentir minha falta já quase de manhã (terrível, eu sei, não fazer falta...). Não resolveram todos os problemas, não acertaram todos os ponteiros, mas fizeram um pacto para resolver suas diferenças conversando. O que, no fim das contas, é o grande segredo do relacionamento, qualquer que seja ele.

Não os vejo há tempos. Da última vez que nos encontramos, estavam esbanjando felicidade. Brigando só de show, só para me provocar... Nunca mais falamos sobre aquela noite. Foi um abraço que ganhei deles que me revelou que fui o catalisador do processo. Desconfio que eles não quiseram brigar na minha presença, só isso. Mas o resultado foi bom, quem pode reclamar?

terça-feira, 15 de julho de 2008

Novidades?

Uma amiga me perguntou sobre a mudança no layout do blog. Explico: coloquei algumas (duas) facilidades: uma para mim, e a outra para mim.

A primeira delas é a caixa "Inscrever-se em" aí ao lado direito, logo abaixo da foto. É uma facilidade para quem usa "Readers" para acompanhar sites de internet. Ao abrir o reader ele atualiza, desde que o micro esteja conectado à internet, o conteúdo do site inscrito.

O que é Reader? Ora, é... é... pera... é um "agregador", que faz a consulta, a partir de um único ponto, a todos os sites que lhe interessam. E mostra os resultados, claro, nesse único ponto. Eu gosto do Google Reader. Mas há o Bloglines e o NetVibes, por exemplo. A facilidade é que você já sabe o que mudou e pode acessar o site diretamente. Eu, por exemplo, tenho os sites que visito diariamente cadastrados no Google Reader. Se sofreram alteração, vou direto para lá, num clique.

Há duas opções para essa facilidade, chamada de RSS (o significado não agrega valor, pois há divergências sobre ele): ficar sabendo de todas alterações no site (o primeiro botão) e ficar sabendo dos comentários postados (depois que eu moderá-los, isto é, autorizá-los ou não).

A segunda novidade é a pesquisa no blog. Tenho mais de quinhentos textos neste espaço, e outros tantos rascunho não publicados. Ãs vezes, eu preciso pesquisar algumas coisas, e finalmente resolvi colocar a funcionalidade.

Com a internet, tudo ficou mais à mão. Não necessariamente mais fácil, mas muito mais acessível.

O Estado de Direito

Na polêmica sobre a prisão de Daniel Dantas & Outros, há manifestações de diversos tipos, como deve ser toda polêmica. Ma algumas das manifestações são altamente preocupantes.

Diversos colunistas fizeram conexão entre a atuação do atual presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e a do então presidente Marco Aurélio de Mello, que concedeu habeas corpus ao Salvatore Cacciola, que fugiu do país logo em seguida.

Num e noutro casos, em que todos ficaram indignados, a interpretação é que era necessário seguir a lei. Tecnicalidades, bradam alguns. É preciso fazer justiça, não aplicar a lei cegamente, dizem outros.

O Brasil optou pelo Estado de Direito, e tem se esforçado para assim ser desde a falência do regime militar. E, no Estado de Direito, a lei é elaborada e aplicada. Se a lei na é boa, reforme-se a lei. Mas, ignorá-la, em função de um ou outro casos, seria no mínimo irresponsável. É o início da linha de pensamento que deságua nas autocracias. Quando achamos que ninguém além de nós é capaz de colocar ordem na casa, brota o tirano.

Miguel Reale, ao conceber a Teoria Tridimensional do Direito, estabeleceu um tripé que explica a relação da norma com a sociedade: valor, fato e norma. A um determinado fato, interpreta-se segundo a axiologia que expressa o desejo da sociedade, e elabora-se a norma. Ou seja, a norma expressa o desejo da sociedade em função de determinado fato.

No Brasil, esse sistema está em coma. A sociedade, aqui excluídos agentes de governo e imprensa, não tem se manifestado sobre os fatos (exceto alguns, de maior expressão). Fácil de entender, pois o brasileiro mal participa das reuniões de condomínio, que dizer manifestar-se (ou mesmo interessar-se) pelos eventos tão tediosos do dia-a-dia. O valor, portanto, não é necessariamente o eco dos desejos sociais.

De outro lado, a norma está catatônica. Não temos a agilidade para fazer com que ela exprima os anseios da população. Assumindo-se que o valor expresso está, como tivemos em vários eventos nos últimos anos (o presidente do senado e o mensalão, por exemplo), o poder responsável pela elaboração e revisão da norma, que é o Congresso Nacional, está focado em outras preocupações. Fisiológicas, a maioria, e nenhuma se encarrega de transformar o valor em (nova) norma.

Para citar exemplo da imobilidade da elaboração da norma, há o Código Civil brasileiro, que tramitou por aproximadamente 21 anos no congresso. Há dúvidas de que nasce já com defasagem?

O juiz que desconsiderar a lei para agradar aos anseios populares estará deixando de cumprir suas funções. Ele se manifesta com base na lei posta, e não na desejada. Se a lei posta está defasada, cabe ao legislativo reformá-la. A polêmica é falsa neste sentido.

Por outro lado, há que se pesar os aspectos peculiares ao caso. São pessoas conhecidas, ricas e influentes, as que foram presas. Como eu não tenho acesso a juízes do Supremo Tribunal Federal, talvez um pedido meu de habeas corpus não fosse apreciado por aquela casa tão rapidamente. Nem haveria tantos repórteres com opiniões tão fortes expressas nos seus veículos. Neste sentido, a voz mais ponderada é de Walter Ceneviva, na Folha de São Paulo de 11/07/2008, em que não condena e não absolve, mas analisa.

Também há que se lembrar o processo de escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Ainda há os que, mesmo letrados, ainda confundirão o Ministro Gilmar Mendes como o Advogado Geral da União do governo de Fernando Henrique Cardoso. Foi depois dessa passagem que ele ganhou a apoio para se tornar ministro do STF. Poderia ser diferente? Sim, claro. Mas talvez, sendo diferente, deixe de garantir que o executivo tenha influência no STF. Talvez.

Clamemos, pois, pela completa atuação dos poderes. Que o juiz decida sempre tecnicamente, é uma grande meta. Mas que o legislativo faça ou reforme as leis segundo os reais desejos da sociedade. E que esta se manifeste, exija, imponha aos seus representantes seus valores. Culpar os juízes, com tantas omissões no caminho, é, no mínimo, injusto (com trocadilho).

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Uma receita – Caldinho de feijão

Outro dia baixou aqui em casa a doutora Alexandra e exigiu: - quero caldinho de feijão!

Apesar de me ter visto fazendo, ainda exigiu a receita. Aqui vai, doutora. Ao final, uma outra receitinha, só para você, tá?

Para o caldinho:

Ingredientes:

  • Feijão (é, vai feijão...), de preferência já cozido. Senão, demora mais...
  • Calabresa;
  • Cebolinha picada;
  • Sal;
  • Azeite;
  • Limão;
  • Alho (eu só uso quando há alguém comigo que goste);
  • Pimenta (eu uso Tabasco)

Preparo:

Picar a calabresa em pedacinhos pequenos e levar ao fogo baixo (o mais baixo possível), numa frigideira apensa untada. Mexer até que ela fique bem sequinha e crocante. Reservar. Eu ponho num papel absorvente para eliminar o excesso de óleo.

Eu utilizo a gordura que fica na frigideira para refogar o feijão, para ele adquirir mais gosto. Refogo com alho, sem deixar queimar. Adiciono água e sal (ou tabletes de Caldo Knorr de bacon) e, em fogo lento, deixo encorpar o caldo.

Bater no liquidificador (eu gosto bem líquido. Há quem gosto com mais pedaços do feijão. Quando é o caso, reservo um pouco do feijão para bater em separado, para deixá-lo mais graúdo).

Para servir: numa caneca, coloco um fio de azeite, uns pingos de pimenta, um pouco de sumo de limão e a calabresa. Por cima, jogo o caldinho bem quente. Finalmente, jogo a cebolinha picada por cima.


Agora, doutora, a receitinha mais importante:

  • LAVAR, com água e detergente, utilizando uma esponja, todos os utensílios utilizados. De preferência, vá lavando enquanto prepara. Não deixe acumular, senão a preguiça assusta a vontade. Mas É PRECISO LAVAR. Louça não se lava sozinha. ENTENDEU???

domingo, 13 de julho de 2008

Polêmica boa

A prisão de Daniel Dantas, do Opportunity, está se transformando num dos episódios mais polêmicos dos últimos tempos. Uma das facetas da polêmica é o fato de a Rede Globo ter participado da operação.

Se lembrarmos dos últimos feitos da Pizzaria Brasil, comandada pelos grupos do poder, precisamos perguntar se é realmente ruim essa participação da maior rede de TV do país.

Num país onde o dicionário da Novilíngua orwelliana está sendo a cartilha do poder, será que a divulgação não garante justamente a visibilidade que é necessária para sustentar a ação? É preciso lembrar que a primeiras manifestações do governo foram em favor do acusado, contra a polícia federal.

É preciso lembrar o envolvimento do acusado com as teles que se fundiram contra a lei? E que essa fusão teve o aval do Palácio do Planalto? E que uma das teles tem envolvimento direto com o filho do Molusco Lá?

A visibilidade escancara a situação e coloca o quarto poder (ou o quinto, se considerarmos a Procuradoria) no centro da cena: a imprensa. Essa mesma imprensa, que é necessário que lembremos, que proporcionou a queda de Collor, com a famosa entrevista de Pedro Collor à Revista Veja, o que provocou uma reação em cadeia em que vários dos principais veículos de comunicação do Brasil apresentavam, dia-a-dia, novas denúncias com novas provas.

Seguir a linha "normal" poderia significar impunidade? Não se pode dizer que sim, mas de forma alguma se pode dizer que não. A tendência, dadas as relações do acusado com membros dos poderes, é que a ação não prosseguiria. Justifica-se, então, o espetáculo oferecido à mídia?

Nenhuma mentira resiste à luz do sol. E foi isto que vi no episódio. Num país em que o governo apóia fusões ilegais, eu faria a mesma coisa se estivesse investigando crimes como esse. O erro, na minha opinião, foi ter dado o privilégio à Globo, em vez de chamar mais veículos à cobertura. Pois há somente uma tênua linha que separa a história da ditadura com a história da Globo. A pergunta: e se não interessasse à Globo a divulgação? Seria mais um braço do Ministério da Verdade, outra entidade orwelliana.

Mas, é pena, esse debate está restrito aos meios de comunicação e aos centros de poder. Nós, quase proles (outra vez, Orwell), estamos mais preocupados com o teste do bafômetro, que nos toca mais diretamente.

Pão e circo, diziam os romanos!

sábado, 12 de julho de 2008

Predadores

Nas estradas, onde estou quando não estou voando, as tragédias de cada dia.

Semana passada, um caminhão tombado. Duzentos quilômetros depois, um carro destruído.

Sexta-feira, saindo de São Paulo, sempre escolho a Anhangüera. Pressa, peguei a Bandeirantes. Trânsito pesado, densidade alta. De repente, freio. Um caminhão batei na traseira de outro. Quase uma tragédia em cascata.

Nesta semana, uma SUV capotada. Já percebeu como elas correm? Pois é.

Hoje, num trecho mais que previsível, um garoto, metros à minha frente, foi atropelado. Desespero, garoto se contorcendo de dor, motorista desesperado. Ao que parece, o garoto estava correndo atrás de uma pipa. No meio da Rodovia dos Bandeirantes...

O homem, digo sempre, é o predador de si mesmo. No caso do garoto, ele se convida ao suicídio assistido... Kevorkian todos nós?

O fato é que as rodovias estão a cada dia mais perigosas. O homem, na falta dos predadores do ecossistema, transformou-se em predador de si mesmo. Matamo-nos uns aos outros, a pretextos diversos. E vivemos nossa vida com essa culpa. Ou sem.

Passe um dia vendo o trânsito. E o comportamento de motoristas, motociclistas e pedestres. E conclua, como eu, que cada um acha o que procura. Infelizmente.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Repertórios

A comunicação interpessoal sempre me fascinou. E procuro sempre prestar atenção aos processos de interação, sejam entre casais, seja entre outros familiares. Profissionalmente também, mas não é o caso aqui.

Dizem que filhos de alcoólatras têm mais chance de desenvolver o alcoolismo que outras pessoas. Também dizem que os filhos de pais agressivos têm mais tendência a agredir seis próprios filhos. Tratamos aqui dos processos de interação.

O alcoólatra utiliza a bebida como uma fuga. Há sempre um motivador, um gatilho. Mas é fuga. Seus filhos podem não saber do problema que causa a fuga, mas a entendem exatamente assim: uma forma de evitar o problema.

O agressor familiar também tem um gatilho, que pode ser uma dificuldade na vida profissional, ou uma falta de resposta emocional a qualquer necessidade. Por exemplo, faltam-lhe argumentos para convencer alguém (num plano mais sofisticado). É aí que ele apela à agressão, que tem como conseqüência fazer cessar as manifestações dos motivos de suas frustrações.

O filho do alcoólatra e o do agressor aprendem, desde cedo, como lidar com o problema: fogem dele (bebida), ou enfrentam aqueles que o evidenciam (violência, normalmente familiar). Por que o termo "aprendem"? Porque foi eficaz com eles (crianças).Encurralados, amedrontados, viam que o ébrio e o violento se faziam obedecer. E estabeleciam padrões de comportamento. A criança não vê senão uma ação que tem resultado, e por mais que rejeite a forma, apreendem o conteúdo.

É de se supor que, submetidos a pressão, as crianças, agora crescidas, utilizem as ferramentas que viram alcançar os objetivos de outrem: bebida e violência. Sim, é triste, mas é possível.

Aqueles que têm a felicidade de "aprender a aprender" não caem nessa armadilha. Vêem a ação, revoltam-se com ela, e procuram outras formas de responder à demanda psicológica. E, embora tenham sido vítimas, rejeitam fazer novas, e aplicam novas formas de interação. Outros não têm a mesma oportunidade, ou a mesma perseverança, ou a mesma decisão. Sim, é uma decisão. Uns decidem não impingir a ninguém o que lhes foi aplicado. Outros, por decisão ou omissão, decidem não se preocupar com isto. Falta de base emocional-afetiva, falta de alternativas, falta de repertório, pode-se escolher o que quiser para justificar. O fato é que a pessoa decide não se importar.

O padrão de relacionamento, então, é definido pelos exemplos que temos. Com crianças, nossa responsabilidade é maior. Ao longo da vida, as pessoas escolhem, dentre os padrões observados, aqueles que lhes pareçam mais próximos de seus credos, explícitos ou tácitos.E, uma vez escolhido o padrão, poucos são os que os avaliam para ver se a decisão é acertada.

A respeito disso, o vídeo abaixo, já do século passado, parece indicar que há verdade.



Experiência de Bandura



Mamonas Assassinas

Primeiro, com este meu jeito politicamente correto de ser, não gostei da banda. Até que a Barbara Gancia publicou na sua coluna na Folha de São Paulo um testemunho da atenção que Dinho & Cia tinha com as crianças, num episódio num aeroporto.

A partir daí, passei a prestar atenção ao grupo. E passei a gostar. Tristemente, partiram, num acidente que, estúpido como são todos, deixou órfãos todos aqueles que gostavam daquela alegria gratuita.

Contei aqui a reação de minha filha. Mesmo a minha foi de incredulidade, querendo não acreditar. Mas a vida não dá tréguas, a vida prossegue. E os Mamonas pereceram.

Valéria, namorada do Dinho, ao contrário de outras namoradas de celebridades, recusou o cargo. Não faturou sobre a morte do seu namorado, O que me faz admirá-la.

Tudo nesse grupo, tão contrário aos meus padrões, me levou a adimirá-los e a lamentar sua morte precoce. Mas, pelas reportagens e pela vida, valeu a pena terem existido.



Hoje a Globo, no momento da publicação deste post, está apresentando esta história. Daí meu revival. Infelizmente, tal qual Ricthie Valens, uma bela carreira se encerra um pouco antes do auge.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Quem somos, quem aparentamos ser

O processo de comunicação interpessoal, muitas vezes escondemos de nossos interlocutores algumas facetas de nossa personalidade. Ou achamos que sim, pois o contrário acontece: mostramos facetas que não sabíamos que estavam lá, mas as pessoas vêem e nós não.

Acho fascinante: pessoas vêem o que sabemos que somos e o que nem imaginamos ser; e elas não vêem um pedaço de nós que escondemos deliberadamente.

Há uma ferramenta chamada de janela de Johari (criada por Joseph Luft e Harrington Ingham) que nos permite "ver" o conceito.

A janela é composta de quatro quadrantes:

  • O eu aberto. É aquilo que sabemos que somos, e mostramos;
  • O eu Oculto.
    É aquilo que sabemos que somos, mas não mostramos;
  • O eu Cego. Mostramos, mas não sabemos que somos;
  • O eu desconhecido. Não sabemos que somos, não mostramos (portanto, ninguém mais sabe).

Pois bem, num ambiente de profunda confiança, esses quadrantes podem ser trabalhados de forma a aumentarmos o eu
aberto, diminuindo os demais (principalmente o oculto). Na comunicação interpessoal, é uma melhoria enorme, pois nos apresentamos com maior transparência, e ainda contamos com o feedback de outras pessoas, permitindo-nos conhecer o eu
cego. Ou seja, passamos a nos conhecer melhor.



Não é preciso dizer que a transparência aumenta a confiança e esta é fundamental no processo de comunicação. Da mesma forma, quando trabalhamos o feedback de maneira positiva, há crescimento pessoal do emissor e do receptor da mensagem, na medida em que a oferta de feedback se dá por canais com regras claras e nem sempre explícitas. São claras por exigirem intenção do emissor e do receptor no crescimento pessoal mútuo, e esta é uma mensagem que todos entendem.

É preciso frisar que é preciso haver confiança para que floresça esse cenário de crescimento pessoal. Normalmente escondemos aquilo que achamos que há de nos prejudicar. Para mostrá-lo, então, temos de acreditar que nossa interlocução não tenha esse interesse, ou seja, não existe o perigo.

Normalmente, somente relacionamentos maduros permitem esse tipo de interação. Mas há casos em que a maturidade se dá exatamente na utilização dessa abordagem, e é um processo lento e contínuo. Como um castelo de cartas, qualquer vacilo pode fazer com que tenhamos de iniciar o processo novamente.

Há tempos não tenho presencio esse tipo de interação. É rara, embora tenha a capacidade de resolver (ou mesmo evitar) grandes conflitos interpessoais. Não que eu seja contra esses conflitos, ao contrário, sou maquiavélico. Mas por achar que da crise nasce a luz. O cenário normal, entretanto, é o da lei da selva. Todos escondidos dos predadores.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

9 de Julho

Não, não é somente uma avenida congestionada de São Paulo.

Quer saber o motivo do feriado? Veja aqui.

Que sina!

Crise de confiança

O episódio do assassinato (o ocorrido só pode ser classificado como assassinato) do menino João Roberto Amorim, de apenas três anos, nos coloca em contato com o mais cruel dos nossos temores: a quebra da confiança.

Assim como no caso de Isabela Nardoni, aqueles que deveriam proteger são os que matam. A estupefação já existia, simplesmente ao sabermos do ocorrido. Ao assistirmos, no entanto, as cenas do ataque, chegamos à conclusão que aqueles policiais não estavam preocupados com a segurança de ninguém, senão com a própria.

Estão errados? Em primeira análise, não. Só conseguem nos defender se estiverem vivos, isto é um fato e um clichê. Mas análise mais profunda nos leva a concluir que é burra a abordagem. Se os "criminosos" na estavam atirando, por que os soldados atiraram? E, mesmo que os bandidos estivessem atirando, qual deveria ser a diretriz dos policiais? Garantir a segurança dos circunstantes, imagino.

Que confiança podemos ter em autoridades (pais, policiais e afins) que se deixam levar pelos momentos, pelos impulsos, pela falta de critérios? Numa cena explícita, concluíram que o carro do menino levava bandidos, e atiraram. Poderia acontecer comigo, com você, com todo mundo: julgados e condenados, transformamo-nos em alvos. Do tipo que não retorna fogo.

A que situação chegamos: quem deveria nos proteger pode, segundo seu próprio critério, segundo sua miopia, segundo suas fobias, nos ferir profundamente. Se for esse o preço pela vida em sociedade, acho que está demasiado alto.

O pai do garoto, aos brados, extravasou sua frustração. Nunca aliviará sua dor. A mãe, desesperada no carro "metralhado", sem ter a quem apelar, sem ter o que fazer, senão ter esperança, fez o que pode: gritou muito. O que não impediu a tragédia. Estamos impotentes, perante o mal que já se instalou. E, com relação aos nossos defensores, difícil saber se o mal os cooptou. Até o presente momento, os indícios são que sim.

Precisamos nos indignar com esse tipo de situação. Precisamos reagir, afugentar as más condutas, incentivar as boas condutas. Precisamos, como nunca, exigir, participar, agir. Precisamos retomar o controle. Ou tomar o controle, se considerarmos que nunca o tivemos de fato.

Luto.

Every Breath You Take

Antes de Eli Stone, Ally Mcbeal já alucinava. Interessante serem duas séries de advogados...

Uma das características do ser humano é sonhar. Mas porque ele é o único que tem a capacidade de transformar os sonhos em realidade. Fantasiamos, imaginamos, ficamos pensando "- e se...".

Alguns, como eu, emprestam as palavras vindas do talento de outrem e as proferem como recados. Outros, juntam as palavras, manifestando o talento. Acho que o talento é soberano, tenho de ir copiando (control-c) e colando (control-v) para mandar minhas mensagens.

Esta música é deliciosa. Numa circunstância deliciosa (Ally Mcbeal), uma de minhas séries favoritas.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Como comecei a correr

Primeiro, uma crise me levou ao cardiologista. Que apurou que nada mais era senão stress. E recomendou que eu saísse do sedentarismo, já que minha vida de tecnocrata era bem parada em termos de atividade física.

Comecei a caminhar na Lagoa do Taquaral (Parque Portugal) que tem pouco mais de dois mil e setecentos metros na volta interna. E assim foi durante um tempo. Até que a andar não mais bastava. Havia energia de sobra, precisava acelerar. E comecei a correr.

De início, corridas curtas. Pouco menos de mil metros. Depois de uns dias, estabeleci uma meta: correria até uma determinada árvore. E assim foi, por duas semanas. Apesar de ser bem curto o trajeto, pulmões e pernas se alternavam na reclamação. Ora faltava ar, ora faltava músculo. Mas a meta ali estava, eu precisava cumpri-la.

Depois que atingia minha zona de conforto, ou seja, me habituava com a distância da meta, eu a aumentava. Sempre de cem em cem metros. E sempre depois de vários dias de adaptação. Até que um dia, minha famosa impaciência me empurrou. Se continuasse assim, não chegaria tão cedo a uma volta. E resolvi completar a volta correndo. Pulmões gritando, pernas em chamas, completei a volta. Para nunca mais parar.

Depois da volta, foram voltas. Depois, veio o controle de tempo por volta. E aqui estou hoje.

Algumas considerações:

  • Corro sempre no mesmo lugar, sempre na mesma direção. Não é minha característica de "sistemático" se manifestando. Não, acho que é. É que eu gosto de comparar o tempo com o a distância, e é assim que consigo;
  • Uma vez ao ano, no mínimo, faço um check-up no meu cardiologista. É mandatório, e eu seria irresponsável se não fizesse;
  • Idem com o ortopedista. Sempre que acho que preciso de orientação, é a ele que recorro;
  • Minha roupa é adequada. Nada de improvisação. Estamos falando de mais de vinte mil metros diários. O corpo cobra suas contas. Já fui parar no hospital com tendinite nos dois joelhos por conta da troca intempestiva de um par de tênis;
  • Não desafio meu corpo além do limite. Isto é, desafio sempre, mas dentro do aceitável. Se não estou bem, por exemplo, corro o mínimo possível. Se dói, ou me sinto desconfortável com o exercício, paro e volto para casa;
  • Sempre me alongo. No início tive muitas contusões, que hoje sumiram. Como estou mais disciplinado ao alongar, credito a isto a melhora;
  • Utilizo um monitor cardíaco e procuro me manter dentro dos níveis recomendados. Corro para manter a saúde, não para danificá-la;

Alterno meus programas: um dia é tempo, outro dia é distância. Ou seja, procuro alternar meu foco entre melhorar meu tempo por distância percorrida e aumentar essa distância. Claro que afeito às minhas idiossincrasias: se um dia estou aborrecido, corro contra o relógio. Se estou preocupado, corro contra o hodômetro. Se o dia é normal, corro alternando uma e outra forma.

Aprendi uma coisa muito importante, quando corria com outra pessoa (o que aconteceu somente com uma pessoa): nós somos muito propensos a dar desculpas para nós mesmos. Justificamo-nos e explicamo-nos demais para nosso próprio "eu". É uma enganação. A coisa mais triste (para mim) é quando mentimos para nós mesmos. Mais triste ainda é quando acreditamos nessa nossa mentira para nós. Assumi um compromisso para comigo mesmo: vou correr. Fiz um planejamento. Se eu não cumprir um compromisso assumido comigo, o que me garante que vou cumprir um compromisso com outrem? Uma coisa é ter um compromisso que me impede. Outra é eu dizer para mim mesmo: - estou cansado. Acho que hoje não vou correr...

Quando me vejo tentado a dar esse tipo de justificativa, calo-me imediatamente e calço meus tênis. Corro no frio e na chuva. Já fui correr três e meia da manhã, e às dez horas da noite. Compromisso é compromisso.

Se você vai correr, consulte seu médico. Prepare-se. Se está com sobrepeso, perca algum antes de iniciar. Compre um tênis adequado. Faça uma avaliação física. Corra não para ficar bonito(a), mas para ser saudável. E, mais que importante, não se preocupe com os conselhos de outros (como este texto descartável). Cada um tem seu ritmo, sua abordagem, sua forma de fazer. É só começar!

Não tenho conselhos (fora os do último parágrafo, roubados de especialistas) tenho minha história. Meu compromisso é para comigo, por isto corro sozinho. Não preciso de outros para me estimular. Minha cobrança de mim mesmo é sempre mais eficaz que qualquer outra cobrança. Se corro para manter a saúde, não é à toa: há pessoas que precisam de mim. Minha filha, minha mãe, minha família. Felizmente tenho com quem me preocupar.

 

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Sobre a lei seca

As notícias sobre a lei seca são boas. Diminuiu a quantidade de acidentes e, em conseqüência, a quantidade de mortos e feridos. Essa é uma boa notícia, não é?

Para uns sim, para outros não. Bares e restaurantes são contra a medida, por motivos óbvios. Alguns juristas questionam, com razão, alguns aspectos da lei. Mas o lado positivo das conseqüências é a adesão, embora por falta de opção, dos motoristas à regra. A multa e a possibilidade de prisão são argumentos poderosos.

Quem circula por hospitais, como eu, sabe o que são as conseqüências de acidentes causados por motoristas alcoolizados. É uma devastação. A dor dos envolvidos não sara nunca. Mas, esquecendo esse lado, há outro, ainda pior: o custo desses atendimentos, feitos quase sempre na rede pública. A Revista Veja desta semana traz o número: perto de cinqüenta por cento dos acidentes de trânsito são causados por motoristas que abusaram do álcool. O quer dizer que o custo dos atendimentos dos acidentados no trânsito diminuirá em até aquele limite. O que não é pouco.

Pesquisei, mas não achei números definitivos sobre esse custo. Ainda se achasse, teria pruridos para publicá-los, já que podem ser manipulados pelo governante a quem não interessa números reais. Mas há que ser uma economia bem grande de recursos já tão escassos. Imagino que essa economia deva se concretizar em melhor aparelhamento e, portanto, atendimento dos hospitais. Não me atrevo a acreditar nisto, simplesmente pelo fato de estarmos na Terra de Macunaíma, onde muita saúva e pouca saúde os males são.

Outro importante benefício da medida (lei seca): os custos sociais e psicológico-emocionais serão evitados. Não se pode quantificar isto. Mas podemos inferir que haverá diminuição na ocorrência daquelas dores de pessoas que perdem entes queridos por conta de acidentes estúpidos.

Embora esteja festejando, ainda não ouso acreditar no sucesso a longo prazo. Esperava-se o mesmo conjunto de conseqüências quando da edição do Código Nacional de Trânsito. Que foi muito comemorado no início, teve suas conseqüências, para depois cair no ostracismo da falta de fiscalização. Ou alguém acredita que se fiscalizam as medidas das lombadas, para ficar somente num exemplo?

Espero que a fiscalização continue. Que sejam superados os dilemas legais, para ficarmos somente no império da moral. Que bares e restaurantes parem de se perguntar quem mexeu no queijo, e adotem medidas criativas e seguras para garantir seu volume de vendas.

A medida é boa. Espero que se sustente.

domingo, 6 de julho de 2008

Conformismo e necessidades sociais

O vídeo abaixo mostra uma experiência clássica, em que um indivíduo é inserido num grupo e, apresentados a um cartaz com uma linha ao lado esquerdo e três linhas de comprimentos diferentes ao lado esquerdo. Todos têm de apontar a qual corresponde a linha do lado direito.

Na experiência, somente um dos elementos é "verdadeiro". Os demais estão ali para cumprir um papel, qual seja o de oferecer respostas deliberadamente erradas. Os resultados mostram que o elemento nega suas próprias constatação para seguir as opiniões do grupo, por mais que lhe pareçam erradas. Nas variações, um dos elementos do grupo "falso" passa a dar as algumas respostas corretas também. Neste caso, o grau de acerto do elemento verdadeiro sobe. E, finalmente, o elemento passa a escrever suas respostas, e os acertos sobem mais ainda.

Como conclusão, tem-se que o elemento verdadeiro tende a seguir o grupo, numa demonstração de conformismo, determinada pela necessidade social de interagir e pertencer ao grupo. A experiência foi conduzida pelo polonês Solomon Asch.

A experiência pode ser comprovada na prática no dia-a-dia de todos. A necessidade de ser aceito faz com que as pessoas, sem necessariamente mudar seus critérios pessoais, passem a ter comportamentos definidos por um padrão grupal, que normalmente é decisão de maioria.

Na prática, a célebre frase de Nelson Rodrigues: toda unanimidade é burra se comprova nesse tipo de comportamento. Quando há a concordância geral e imediata, não há discussão e não há evolução. As idéias tendem a não se aprimorar, porque faltará senso crítico. Ninguém ganha com isto, a não ser na aparente estabilidade do grupo.

Mas há que se entender as razões do conformismo. Baseado no princípio dor-prazer (evitamos o que nos casa dor, tendemos a repetir o que nos causa prazer), o elemento que passou por reprovação grupal tende a evitar situações que a repitam. Daí, se esconde no padrão grupal. Mas a situação se dá somente em casos da necessidade de aceitação. Se fosse uma disputa para um emprego, por exemplo, o conformismo não se apresenta.

A situação só será notada em grupos imaturos. Grupos mais evoluídos (passemos a chamar este de equipe) têm tendências a aprofundar as discussões e capitalizar as diferenças de opinião. Nessas equipes, o conformismo, se é que existe, passa a ter conotações diferentes e mais profundas. Se a regra grupal é a de manifestar e evidenciar a diferença, o indivíduo o fará. A questão é: faria de qualquer jeito, ou o faz somente por ser a regra grupal?

Acredito que ele teria a vontade de fazê-lo sempre, e o faz porque o grupo permite. A permissão não deve ser confundida com regra. Se o grupo é evoluído (equipe) o clima de confiança é outro, e permite que as diferenças floresçam e agreguem valor.

Há poucos aventureiros que fogem da regra do conformismo. Infelizmente.

Vale a pena ver o vídeo:


sábado, 5 de julho de 2008

A viagem

Um dos poemas mais bonitos que conheço: A Viagem. Eu coloquei parte da letra aqui, e resolvi colocar a música inteira.

Joana...



Updated em 06/07/2008: abaixo, a gravação de Marisa Gata Mansa, da década de 70. O áudio é péssimo, mas a gravação, original, é uma delícia.


Marisa Gata Mansa - A viagem

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Muito Prazer

Recebo alguns e-mails perguntando quem, afinal de contas, sou eu. Então, deixe que eu me apresente:

Sobre minha idade:

Eu nasci há dez mil anos atrás
e não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais...

Raul Seixas

Na minha infância, a família. Ainda dizem que sou o queridinho. Pura intriga, e não nos esqueçamos do irmão e do pai:

Oh! Dias da minha infância!
Oh! Meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Casimiro de Abreu

A adolescência, aquela fase difícil, não foi tanto assim para mim. Mas foi uma perseguição louca, em busca de mim mesmo:

Aí veio a adolescência
E pintou a diferença
Foi difícil de esquecer
A garota mais bonita
Também era a mais rica
Me fazia de escravo do seu bel prazer...

Lulu Santos

Sobre meu trabalho, tenho a dizer que eu me divirto. Aproveito cada minuto para espreitar a natureza humana e curtir os bons momentos. Os momentos não tão bons assim, trabalho duro para melhorá-los:

Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade...

Renato Russo

Meus amigos suspeitam que não me interesse por eles. Ao contrário, interesso-me até demais. Mas há limites:

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

Fernando Pessoa

Sobre meus relacionamentos, direto ao assunto:

Eu não faço amor por fazer
Tem que ser muito mais que prazer
Tem que ser todo dia
A grande magia de amar é viver

Zezé de Camargo e Luciano

Filosofias de vida, não como receita de bolo. Mais como bulas, que lemos e obedecemos somente o que nos interessa:

Sou um filho da natureza:
quero pegar, sentir, tocar, ser.
E tudo isso já faz parte de um todo,
de um mistério.
Sou um só... Sou um ser.
E deixo que você seja. Isso lhe assusta?
Creio que sim. Mas vale a pena.
Mesmo que doa. Dói só no começo.

Clarice Lispector (editada)

Não tente adivinhar o que as pessoas pensam a seu respeito.
Faça a sua parte, se doe sem medo.
O que importa mesmo é o que você é.
Mesmo que outras pessoas não se importem.
Atitudes simples podem melhorar sua vida.
Não julgue para não ser julgado...
Um covarde é incapaz de demonstrar amor
- isso é privilégio dos corajosos.

Ghandi

De vez em quando, se suspeito que receberei a visita
indesejada da tristeza, trato de colocar uma vassoura atrás da porta e a recebo
assim:

Oh tristeza, me desculpe
Estou de malas prontas
Hoje a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar
Vamos indo de carona
Na garupa leve do vento macio
Que vem caminhando
Desde muito longe, lá do fim do mar
Vamos visitar a estrela da manhã raiada
Que pensei perdida pela madrugada
Mas que vai escondida
Querendo brincar
Senta nesta nuvem clara
Minha poesia, anda, se prepara
Traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar.

Paulo César Pinheiro

Mas, se nós seremos amigos, é bom que você saiba que você pode se contaminar por este mantra, esta espécie de programação neuro-lingüística:

We are the champions - my friend
And we'll keep on fighting till the end
We are the champions
We are the champions
No time for losers
'Cause we are the champions of the world

Queen

Dizem que quando se copia de um só, é plágio. Quando se copia de muitos, é pesquisa.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Inspirações

Quando escrevi aqui sobre a importância de ler bons livros e estar em boas companhias, citei Eli Stone. Faltou dizer mais sobre quem é esse Eli Stone.

É uma nova séria da Sony. Um advogado começa a ter visões e descobre que são motivadas por um aneurisma no cérebro, num ponto delicado para cirurgia. E começa a viver, entre a vida real e seus delírios. Descobre, com a ajuda de um acupunturista, que as visões podem ter significado, e Eli começa então a interagir mais com elas. Passa a perceber que realmente as visões têm objetivo, e acaba ajudando a muitas pessoas na onda dos delírios. Tudo isto em meio a dramas pessoais causados justamente pelas visões e o drama familiar do pai de Eli.

A questão é que a série, de forma ora divertida, ora comovente, faz com que pensemos nas coisas pelo lado bom. Com esperança, com a garra do agente causador de mudança. Com a resignação de um ser que não pode enfrentar o mundo e o sistema, mas que pode, na sua esfera de influência, fazer a diferença para ao menos uma pessoa, independentemente do sacrifício pessoal. Não é pouco.

Numa seqüência de histórias inspiradas e inspiradoras, o mundo ora é uma névoa sem sentido, ora é a realidade agressiva e implacável. Que Eli tira de letra, ao final, quando submete seu drama pessoal à felicidade do último felizardo que recebeu sua ajuda.

Ao lado de séries que mostram assassinatos e intrigas (a franquia CSI, a franquia Law & Order, Brothers and Sisters, Criminal Minds, NCIS), onde se destaca somente o lado negativo e doentio das pessoas, séries como Eli Stone são um gostoso refresco, mostrando o outro lado. Não que eu não goste daquelas séries, ao contrário, sou um grande fã. Mas Eli é uma grande inspiração, e eu recomendo.

Sim, são somente histórias, eu sei. Mas assista a um episódio e compare à novela, ou às séries que já temos na TV. No mínimo um lugarzinho esse conjunto de boas mensagens merece ter no nosso tempo.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Tecnologia é outra coisa...

Uma amiga passou aqui em casa e me ensinou que os pratos de porcelana não são descartáveis. Podemos lavá-los e, portanto, reutilizá-los.
Puxa, como o mundo evolui rápido. Bem que eu achava estranho ter de comprar tantos pratos...

Depois tem gente que morre de morte matada, e não de morte morrida, e ainda reclama...

Ingrid

Chegou ao fim o seqüestro de Ingrid Betancourt, na Colômbia. seqüestrada em 2002, sua recentes fotos a mostravam em total entrega. Na era da internet, depois de ter atingido a Lua, explorado Marte, ter formado profissionais com capacidades inacreditáveis, o ser humano ainda tem exemplares capazes de perpetrar atrocidades como essa.
Estamos em má companhia, ou é somente uma manifestação de um lado que todos temos?
Quero acreditar que podemos, pela nossa vontade, suplantar esse lado perverso em nós. O problema é: precisamos querer. E nem sempre queremos.
Às vezes, vestimos um véu de incompreensão, de tradução da visão para as nossas verdades, e transformamos as discussões em oratória estéril. É assim no futebol, no conflito de religiões, nas discussões domésticas.
Embora a lua já tenha sido alcançada, o homem ainda precisa alcançar o melhor de si.

Credibilidade

Quando os Mamonas Assassinas morreram, minha filha não acreditou:

- Meu pai prometeu que ia me levar ao show e ele ainda não levou. Então, eles não podem ter morrido...

Tínhamos essa dinâmica. Eu perguntava:

- O papai mente?

E ela:

- Não, mas brinca...

Quando ela me perguntou, pouco antes dos cinco anos, se Papai Noel existia, claro que falei a verdade. E quase fui crucificado num jantar, logo em seguida, justamente de pedagogas, administradoras escolares e diretoras de escola. Corri sérios riscos...

Acredito que quando a pessoa pergunta quer saber a verdade. Esta pode ou não agradar, mas é ela que é esperada. E só posso oferecer a verdade.

Lutei muito em minha vida profissional por credibilidade. A ponto de, numa determinada fase de minha vida de tecnocrata, os convites para reuniões se dirigem nominalmente a mim, não mais ao meu departamento/divisão. Um dia, uma dessas pessoas me falou que o motivo era simples: eu não procurava enrolar, dizia o que era e pronto. E, num ambiente altamente inóspito, a verdade proporcionava aliados poderosos.

Não é fácil falar a verdade. Quer dizer, o ato em si é fácil, o difícil é suportar as conseqüências. Acho que é este tipo de pensamento que norteia a ação daquelas pessoas que escolhem o caminho da "não-verdade", digamos assim. Nada mais quimérico. Nada mais falso. Essa escolha parte do pressuposto que as pessoas são inocentes e tolas. E não considera o esforço necessário para manter uma "não-verdade". Mas a "não-verdade", para utilizar o exemplo de Thoureau, é como uma truta no leite. Ela é evidente demais, num momento, noutro, ou em todos, para permanecer escondida para sempre.

A "não-verdade" produz problemas de imediato ou ao longo do tempo, quando é descoberta. Mas o maior estrago é a destruição da credibilidade, que pode nunca mais se restabelecer. A verdade, ao contrário, pode produzir problemas imediatos, sempre. Mas há conseqüência positiva: evita a procrastinação, obriga a uma ação, estabelece o jogo com clareza.

Quando alguém acha que há inocentes prontos a acreditar em suas "não-verdades", acerta ao menos uma vez: há um inocente que acha que os outros são inocentes...

Enfim, em minha vida pessoal e na profissional fiz da verdade um dogma, uma regra. Pauto-me por ela, e não aceito trilhar outro caminho. Minha riqueza, hoje, foi conseguida graças a ela: credibilidade. Quem me conhece, não truca...

terça-feira, 1 de julho de 2008

Sim, vale a pena

Quando passeava com minha filha e ela queria alguma coisa, ela pedia e pedia:

- Papai, eu quero...

E eu respondia:

- E eu quero...

E ela completava, resignada:

- ...uma BMW...

A lição era clara: não podemos ter tudo que queremos. Nem tudo que desejamos está ao nosso alcance. Algumas coisas, não teremos nunca, não importa nossa vontade...

Em alguns momentos de minha vida, entretanto, tive de decidir: o caminho certo, ou o caminho mais curto? Sucesso fácil, ou a luta garantida, mas sem garantir sucesso? Dinheiro ou honra?

Se eu disser que a decisão foi difícil, estarei mentindo. Nunca foi. Tenho meus valores escritos e assinados. Coisa de obcecado, não? Talvez. Mas de fato tenho. E me pauto por eles. O mais difícil, tenho de confessar, é ver a prosperidade que a falta de valores proporciona.

De que adianta tudo isto? De que vale essa filosofia de vida quando a vida em si não tem nada disto? Para quem fazemos isto? Quem se beneficia?

Se tivesse dúvidas a respeito disto, meuá valores seriam somente referências, nunca a rocha sólida onde apoiei minha vida. Essas coisas valem porque eu acredito nelas. Valem porque são minha escolha de vida. Valem porque espelham quem eu sou, não quem eu gostaria de ser, nem quem eu nunca serei...

Não conseguiria curtir uma vitória baseada em motivos errados. Não consigo comemorar senão pelos motivos determinados pela minha luta. E não consigo me imaginar subvertendo esses valores. Daí, muitas vezes me pergunto: vale a pena?

A dúvida é efêmera, fugaz. Dura um instante, é um flash, não resiste a um clarão de inteligência: sim, claro que vale a pena. Sento para conversar com minha filha, minha mãe, meus irmãos, e a conversa é baseada nisto: fizemos o que era preciso, e fizemos o que era certo. E, assim, construímos um cimento que alguns problemas podem vir a desafiar, mas que nenhum deles, nenhum, vai jamais ameaçar.

Sim, vale a pena!

Drummond fala...

Este é um poema que guardei para sempre, até que alguém o merecesse. Ao que parece, a medida perdeu o prazo de validade. E, se o publico neste espaço, é porque essas palavras de Drummond podem significar algo para alguém, que precisa, então conhecê-las.

Acho que esta é uma porta que eu tranquei. E, se tranquei, fiz mal. Não dei a mim mesmo a oportunidade, não me permiti sonhar. Ao menos, com isto. E, se não me permiti sonhar, não cabe a mim destruir sonhos. Nem entendê-los. Essa é uma aventura em que não me meto mais, talvez pelo princípio "dor-prazer" da psicologia. Repetimos o que nos causa prazer, evitamos o que nos causa dor...

Minha "pasteurização" nesse campo foi eficiente. Evito, fujo, chego a me sabotar. E daí? É resultado de uma escolha, ainda hoje estive refletindo sobre o assunto. Mas, errado ou não, é um caminho já trilhado. Devo esperar a redenção? Não me parece que assim seja.

Mas a vida, essa mesma que nos tira, pode nos dar. E, se der, surpreendendo-me, pegando-me de surpresa, me tirará a chance de negar. É uma zona de conforto, pois. Não procuro. Se eu ganhar, ok. Mas eu não procuro. Nunca mais,

Chamemos de tática. Mesmo que você chame de covardia... Entenda, por favor: eu tenho muito a dar. E não espero nada em troca. É, eu sei. É difícil entender...



As Sem-razões do Amor (Carlos Drummond de Andrade)


Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.