terça-feira, 10 de junho de 2008

Subornando a consciência

Saindo de casa, na esquina, o mesmo homem, já idoso, vendendo suas balinhas. Todos os dias olhos seus olhos azuis e não vejo senão conformismo. Hoje resolvi subornar minha consciência.

Procurei pelo carro uma brecha para entrar na quinta, ou oitava, ou décima-primeira dimensão para achar uma moeda. Porque funciona assim: você larga uma moeda da qual não precisa no carro, e ela fica ali, te espiando. Quando você precisa, ela entra num estado de completa invisibilidade (noutra dimensão, só pode ser), e fica observando, rindo da sua procura. Quando ela percebe que você não precisa mais, ela volta, misteriosamente postando-se no lugar onde procuramos dezenas de vezes.

Mas achei as moedas. Abri o vidro, e ele recebeu a moeda e já ia me dando as balas. Agradeci, não peguei as balas e fiz ver a ele que era uma ajuda. Aí, valeu o dia: ele abriu um sorriso radiante, tirou o boné, fez vários salamaleques e fez agradeceu a mim e a cinco gerações depois de mim. E seus olhos azuis sorriram!

Moedas, que estavam perdidas, e continuariam perdidas. E uma pessoa que diariamente batalha por suas moedinhas, com as quais tenta sobreviver. Sim, minha consciência doeu. Tentei ir adiante, justificando-me para mim mesmo: é a vida, não podemos ajudar todos...

Pois não precisamos ajudar todos. Podemos ajudar poucos. Podemos ajudar um só. E, se todos fizermos isto, esse um pode se somar a milhões. Milhões de moedinhas, milhões de sorrisos. Podemos fazer mais, disse eu à minha consciência, essa corrompida pela dura realidade.

E ela concordou. Fechamos os olhos porque achamos que nunca serás suficiente, que não resolveremos o problema. Mas precisamos abri-los, porque nada disto está em jogo. Independentemente de questões filosófico-administrativas, essas pessoas têm fome. Precisam de remédio e roupas. E se a moeda vai para a quinta dimensão, é porque não precisamos dela, Mas há quem precise. E como há...

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