quinta-feira, 19 de junho de 2008

Metamorfose ambulante

Do I contradict myself? Very well, then I contradict myself, I am large, I contain multitudes (Eu me contradigo? Muito bem, então me contradigo, sou grande, contenho multidões).
Walt Whitman
Dia destes, conversando com uma amiga, fiquei pulando de um assunto a outro, meio a esmo, e ela já não estava conseguindo conectar-se com minha volatilidade. Nessas ocasiões, sempre me lembro dessa frase de Walt Whitman, como que querendo justificar meus atropelos de mim mesmo.

Sempre tenho muito a falar, e tenho muito a ouvir. Ouvir outras pessoas me faz conhecer-me melhor. Por quê? Porque reajo imediatamente ao que ouço (mentalmente, claro), e me questiono sobre os motivos da reação. É um processo desenvolvido ao longo dos anos, o de processar sem transparecer. Mas é real. Assim, em minhas conversas, muitas e muitas conexões com outros assuntos são realizadas, e as perguntas fazem fila em minha mente: eu preciso saber. E, às vezes, quando a pessoa com quem converso tem essa capacidade (de fazer essa minha fila mental andar), pobre dela. É uma metralhadora.

Quando Lula disse ser uma metamorfose ambulante, alguns de nós caímos matando. Onde já se viu? Mas foi somente para não perder o hábito. Sou assim também. Embora não confesse nem sob tortura. Um exemplo é a questão da pena de morte. Se contenho multidões, a depender de quem de mim estiver ao microfone sou contra ou a favor. Explico: circunstâncias, momentos, ânimo, tudo isto interfere nessa minha posição. Num caso como o do João Hélio e da menina Isabella, sou a favor. Em outros casos, contra. São os pedaços de mim fazendo conexão com o mundo externo.

Idem para a questão do aborto. Uma coisa é certa: sob o ponto de vista legal, sou a favor do aborto. A lei não pode impedir o aborto, é em que acredito. Mas, em termos de moral, já não tenho a mesma opinião. Eu mesmo, se tivesse de passar pela experiência de uma gravidez não desejada de alguma parceira minha, já sei o que faria: aborto nunca, a criança viria ao mundo. Mas essa dualidade entre o "eu legalista" e o "eu moralista" me levam a me questionar se deveria existir essa separação. Moral e lei são diferentes?

Nestes anos de minha jornada procurei desenvolver a empatia, entender como as pessoas sentem e pensam e como reagem. Isto acaba criando em mim uma vertente tal de possibilidades que chega a ser uma grande briga interna: os caminhos são tantos. As pessoas são diferentes. Nós somos tão contraditórios.

Tenho muita dificuldade quando me pedem conselhos, justamente por causa disto. Normalmente vejo os dilemas, as contradições, as armadilhas do caminho e da comunicação. Mas o conselho é uma coisa ruim, se não nos afeta diretamente. Posso dizer o que a pessoas quer ouvir. Não digo. Posso dizer o que eu faria. Também não digo.

Se digo o que a pessoas quer ouvir, posso fazer com que ela caia nas armadilhas (ou pague os preços) pela decisão. E nem sempre (quase nunca, na verdade) esse preço é suportável. Se digo o que eu faria, estou somente dizendo qual preço eu pagaria. EU pagaria. Estou pronto para pagá-lo, suporto a barra, compro a briga. Mas isto sou eu, nem todos tem a mesma disposição.

O caminho fácil não me atrai. O caminho mais difícil é de mártir, e nem sempre estou disposto a ser um. A depender do preço, uma destas pessoas que compõem minha multidão interna assume a direção. E lá vamos nós, no comportamento de manada, fazendo o que somente nós (eu) mesmo faríamos.

Por isto, é preciso dizer: essa minha amiga tem um potencial enorme. Vários de nós falamos com ela, a pobre torturada. Mas ela não precisa se preocupar, mandei prender os mais radicais dentro de mim. Às vezes algum escapa, mas nada que uma boa sacudida não resolva.

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