segunda-feira, 23 de junho de 2008

Juntando os cacos

Sou bem resistente à dor. Numa ocasião, minha filha ainda pequena, ela queria ir para a casa de uns parentes, em outra cidade. Antes de decidir, me perguntou:

- Pai, se eu quiser voltar você vai me buscar?

Claro que sim, era só chamar. E ela chamou. Numa sexta-feira, logo cedo, ela ligou pedindo para buscá-la. E eu fui. Venci os cento e sessenta quilômetros que nos separavam, almocei por lá com eles, tomamos um café e voltamos. Na hora em que chegamos, levei-a à casa da avó e lhe disse:

- Fique um pouco com a vovó, porque o pai vai para o hospital.

Porque eu tinha acordado com uma crise renal das bravas. Mas, como promessa é promessa, ignorei a dor até voltarmos, e passei a madrugada no hospital tomando soro.

Essa foi uma dor física, daquelas que se pode encarar com um alheamento, uma fuga focada. Essa é fácil evitar.

Difícil é quando a dor é na alma. Quando acontecem coisas que não permitem fuga, Palavras, palavras... Situações daquelas que não procuramos, nem queríamos, nem mesmo imaginávamos. E elas surgem, do nada, para sumir, para o nada, deixando somente aqueles buracos na alma, aqueles vazios impreenchíveis...

Situações em que somos passageiros, não condutores, Não resta senão deixar o barco correr, pois não temos ingerências sobre fatos e destinos. Somos somente os afetados. Temos de assistir, de camarote, ou por puro respeito, ou por impotência.

Quando essas dores emocionais surgem, a fuga é substituí-la. Por uma física, aquela que agüentamos. E, daí, corro, corro e corro. Para, ao final, concluir que é somente isto mesmo: uma fuga.

Voltando aos lobos, lamber as feridas se dirige à dor física. Como fazer com a outra?

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