segunda-feira, 16 de junho de 2008

Hipocrisias

Quando me mudei para a casa onde passei parte da infância, toda a adolescência e parte de minha vida madura, fomos recebidos por uma família que nos acompanharia pelo resto de nossas vidas: pai, mãe e quatro filhos. Crescemos juntos, brincando, brigando cantando, chorando e rindo. Fomos juntos à escola. Adoecemos juntos. Comíamos juntos. Festas, juntos. Quando o pai deles morreu, lá estávamos nós. Quando o meu pai morreu, lá estavam eles. participaram ativamente de meus dias. Atualmente, nos natais e anos-novos, lá estou eu e lá estão eles, sempre presentes (minha presença é terrível: ainda entro sem bater, abro a geladeira, fuço as panelas...). Há um detalhe, que não nos incomodou nunca: são pessoas negras. Estivéssemos na América do Norte, diria afro-americanos. Mas, no Brasil, isto não importa, somos um país não racista. Caldeirão de raças, este clichê terrível...

Quando há manifestações racistas, a imprensa não dá tréguas. Ataca, mostra, repisa, aponta. Sim, é um país multirracial. Será mesmo?

Numa manhã dessas, o locutor da Globo do Bom Dia, Brasil faz uma chamada sobre um jogo de futebol com uma frase pretensamente jocosa. Nada disso. Achei desrespeitosa. Porque o jogo era contra os argentinos. A Globo, que é uma das pontas de lança na acusação dos racismos, não se constrange em corroborar tão vergonhoso comportamento que já é quase um esporte nacional. Não faz isto aos portugueses, personagens principais de tantas piadas, mas faz aos argentinos. É um péssimo exemplo.

Tenho como amigos, daqueles verdadeiros, com um apreço muito, muito grande, uma família de argentinos. Pai, mãe, dois filhos. A quem eu poderia chamar de família, e me acho muito desmerecedor chamando-os somente de amigos. Nada diferem dos brasileiros, a não ser pelo sotaque, de resto presente em São Paulo, em Minas, no nordeste, no sul.

Entregamos, gratuitamente, um rótulo terrível e desmerecido a um povo que só difere de nós por ter uma questão de fronteiras. Mas que são absolutamente iguais a nós. E essa família, com quem tenho o privilégio de compartilhar alguns momentos, nada tem a não ser uma atenção enorme, uma gentileza infindável, uma nobreza que eu mesmo gostaria de ter.

Estamos ensinando nossos filhos uma lição desprezível: julgue as pessoas por características extrínsecas. Antes de olharmos a pessoa, olhamos sua nacionalidade. É diferente do que julgar pela cor?

Alguns vão dizer que é somente uma brincadeira. Claro, isto explicaria o clima péssimo nos jogos de futebol por exemplo. O homem é produto do meio, ou o meio é produto do homem? não importa. Importa que, enquanto cada um de nós não tiver um posicionamento contra esse comportamento inadequado, ele continuará validado culturalmente. Mas, se pararmos, esse pedaço da cultura pode morrer.

Não acredito nesse tipo de brincadeira, assumindo-se que seja uma. Acredito em valorizar as pessoas. Nunca em desmerecê-las, pois mais que queiramos mascarar isto como brincadeira. Acredito que nosso tratamento, seja entre familiares, seja entre amigos, deva se basear nas coisas boas que temos, não no que se nos impõe socialmente. Acredito no valor, não no (mau) hábito.
Podem achar que é somente uma idiossincrasia minha, gerada pela minha decisão de ser politicamente correto. Não, não é. É errado fazer esse tipo de brincadeira.

Nenhum comentário:

Postar um comentário